Assinatura da “Declaração de Teerã”
[Obs deste blog ‘democracia&política’:
O artigo do colunista Clovis Rossi da Folha de São Paulo publicado dia 26 me faz relembrar conceitos já aqui expressos em 20 deste mês:
A “Declaração de Teerã”, assinada por Brasil, Turquia e Irã, foi conseguida em 2010 exatamente nos termos previamente solicitados por Obama a Lula em carta. Mas, após alcançada, foi "molequemente" logo rejeitada e "interpretada" pelos EUA e seus aliados como nociva “manobra dos iranianos".
Na realidade, os EUA, Israel e europeus da OTAN não queriam qualquer acordo pacífico. Queriam, simplesmente, um pretexto (mesmo que falso) para sanções duras contra o Irã e, em seguida, para atacá-lo.
"Justificaram" que correram para aprovar antes as sanções porque "não acreditavam na possibilidade de sucesso" na negociação encabeçada por Turquia e Brasil.
A verdade é que, antevendo o iminente sucesso nas negociações entre o Brasil, Turquia e Irã, Obama rapidamente (orientado por Netanyahu e o poderoso lobby judeu) negociou, na véspera, com a Rússia e China (para evitar seus vetos) e assim logo conseguir a aprovação de sanções pelo CS da ONU, divulgadas poucos dias após a “Declaração de Teerã”.
Toda a imprensa brasileira, inclusive a "Folha", então depreciou e ridicularizou a pretensão de Lula e Celso Amorim de lutarem para que a solução surgisse no âmbito diplomático e não o da guerra, como queriam Israel, os EUA e a OTAN. Desprestigiaram e criticaram a atuação do Itamaraty por querer entrar em assunto "de nível superior", das grandes potências, "que não nos competia".
Agora, constrangidos, ainda de maneira muito encabulada e sutil, os EUA, e a nossa imprensa a reboque, começam a descobrir que o acordo de Lula e Celso Amorim alcançado com o Irã, juntamente com a Turquia, era o único caminho até agora encontrado para iniciar uma solução pacífica.
Vejamos a seguir o artigo do colunista tucano Clóvis Rossi publicado no dia 26 no jornal tucano-serrista “Folha de São Paulo”. O interessante dessa publicação, que sutilmente dá valor ao esforço do governo brasileiro, é que a “Folha”, como os demais veículos da “grande” imprensa brasileira, bem como a oposição (PSDB/DEM/PPS), além de antiLula, são ardorosos e fiéis defensores dos interesses dos EUA e judeus, acima dos brasileiros. Será indício de autêntico arrependimento por terem feito infeliz molecagem com Lula e Celso Amorim?]:
“O IRÃ, A GUERRA E SAUDADES DO LULA”
EM RETROSPECTIVA, FICA CLARO QUE O ACORDO COSTURADO EM 2010 POR BRASIL E TURQUIA TALVEZ FOSSE O CAMINHO
Por Clovis Rossi
“Os tambores de guerra estão soando alto em torno do Irã e podem acabar levando a um escorregão fatal, sempre possível quando a retórica é incendiária.
Mas há razões objetivas para atacar o Irã de modo a evitar que tenha a bomba atômica? A resposta a essa pergunta vem, em geral, carregada da ideologia de quem a dá por escassas informações de fato confiáveis a respeito do programa nuclear iraniano. Não que, na minha opinião, um ataque se justifique, qualquer que seja o estágio do programa nuclear iraniano.
Mas essa é outra discussão que não cabe aqui, por enquanto.
Voltemos, pois, ao estágio do programa nuclear iraniano. Prefiro ficar com a análise de Cellu Rozenberg, historiador militar da Universidade de Haifa (Israel), exatamente por ser de um país em que o ambiente político-militar o induziria a dizer o contrário do que escreveu para o "Le Figaro": "É inútil tentar decifrar o enigma iraniano e avaliar quando o Irã será capaz de lançar mísseis nucleares sobre Israel ou sobre outros Estados da região. Do dilúvio de informações pretensamente confiáveis reproduzidas ao infinito pela mídia, decorre a impressão de que amanhã de manhã os iranianos vão apertar o botão vermelho. Nada é menos verdadeiro e pode-se mesmo assegurar que o Irã não disporá da arma nuclear em um futuro próximo".
Parece sensato, mas não basta para dissolver a incerteza que é o motivo, ou o pretexto, para todos os tambores de guerra. Escreve, por exemplo, Robert Farley (Universidade de Kentucky), especialista em assuntos militares:
"Nós não sabemos se os iranianos querem construir a bomba, ou se eles podem construir uma bomba, ou quando eles poderiam estar aptos a construí-la. Mesmo que a fizessem, as consequências permaneceriam imprevisíveis, porque não sabemos o que fariam com a bomba ou como seus vizinhos reagiriam a uma bomba iraniana."
É necessário acrescentar, às incertezas corretamente apontadas por Farley, uma outra coleção delas: a maior parte dos analistas duvida que um ataque israelense contra as instalações nucleares iranianas elimine a possibilidade de o país [Irã] chegar à bomba. Ao contrário: tende a acentuar a disposição de fabricá-la no mínimo como prevenção contra outros ataques. Ninguém sabe, também, qual seria a reação do Irã e de grupos afins ao regime a um ataque.
Também, ninguém sabe qual é a real disposição iraniana de negociar em torno do programa nuclear, apesar de o governo iraniano ter anunciado a disposição de retomar as conversas.
Tudo somado, tem-se que há dúvidas razoáveis sobre se o melhor caminho é apertar as sanções já em vigor, abrir mais espaço para a negociação ou partir para a ação militar.
Retroativamente, acaba ficando claro que, talvez, os Estados Unidos devessem ter dado uma chance para que prosperasse o acordo Brasil/Turquia/Irã de 2010, o último momento em que as posições do governo iraniano ficaram razoavelmente próximas das demandas ocidentais.
Trocar a negociação de então pelas sanções, dias depois, não só não resolveu o problema como, ao contrário, agravou-o, como o demonstra o soar dos tambores de guerra.”
FONTE: escrito por Clóvis Rossi na “Folha de São Paulo” (

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