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terça-feira, 8 de abril de 2014

1964, o ano que não terminou

A ascensão da Classe C, o papel do Estado, da Petrobras e uma Ley de Medios – está tudo aí.

Ali tinha povo ...

1968 foi o ano que terminou.

No Maio de 1968 na França e em seus desdobramentos mundo afora – no Brasil, inclusive.

Ficou um retrato na parede.

Discuti-lo em 2014 ou em 2018 será uma reflexão de intelectuais – ou pseudo …

1968 não tem nada a ver com o que se passa hoje.

Está lá, dentro de uma caixa.

Embrulhado em Verdes.

1964 não terminou.

A “descomemoração” dos 50 anos do Golpe permitiu, primeiro, reconstruir a imagem de Jango. (Clique aqui para ir ao “Dossiê Jango”.)

Não se viu ninguém escrever ditirambos a Castello, Costa e Medici, nem, sequer, a Geisel e Golbery, o sacerdote e o feiticeiro da fundação da Democracia brasileira…

Ao contrário, os 50 anos permitiram reavaliar responsabilidades e sobressaiu-se a dos Estados Unidos no “dia que durou 21 anos”.

Mas, o debate sobre 1964 não está encapsulado na História.

Está vivo.

As reformas de base, magistralmente descritas pelo professor Gilberto Bercovici.

A tentativa de fazer Reforma Agrária para criar um mercado de massa.

A incorporação dos pobres, analfabetos e sargentos à vida política – e eleitoral .

A política externa independente.

O papel central da Petrobras na industrialização do Brasil.

O papel do Estado na Economia – mínimo, tão pequeno que se possa afogar numa banheira; ou indutor, financiador, líder, como em Vargas ?

Está tudo aí, nos debates deste dia – clique aqui para ler sobre a Odebrecht e os economistas de bancos.

E o que precisa ser reavaliado, até pelos janguistas e brizolistas: a Ley de Medios, cujos contornos Jango definiu ao apor 52 vetos – todos recusados – ao projeto de um Código Brasileiro de Telecomunicação, que veio do Congresso, sob a liderança de João Calmon, empregado de Chateaubriand.

A Abert, que, hoje, é um braço desarmado da Globo Overseas, foi fundada para celebrar a derrubada dos 52 vetos de Jango.

E o que há de mais atual, que a necessidade de uma Ley de Medios, para substituir esse Código de 1962 (!!!), e que está em vigor até hoje ?

(Onde não há lei, o leão reina, não é isso, Gilberto Freire (*) ?)

Há uma diferença Central (com caixa alta, por favor, revisor, obrigado).

Uma diferença Central entre 1964 e 1968.

Em 1964 tinha trabalhador na rua.

Na Central.

Paulo Henrique Amorim

(*) Ali Kamel, o mais poderoso diretor de jornalismo da história da Globo (o ansioso blogueiro trabalhou com os outros três), deu-se de antropólogo e sociólogo com o livro “Não somos racistas”, onde propõe que o Brasil não tem maioria negra. Por isso, aqui, é conhecido como o Gilberto Freire com “ï”. Conta-se que, um dia, D. Madalena, em Apipucos, admoestou o Mestre: Gilberto, essa carta está há muito tempo em cima da tua mesa e você não abre. Não é para mim, Madalena, respondeu o Mestre, carinhosamente. É para um Gilberto Freire com “i”. 

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Livro sobre F-1 fala em malas de dinheiro e reforça necessidade da Globo mostrar o DARF na CPI

O livro "No Angel : The Secret Life of Bernie Ecclestone" (Nenhum Anjo: A vida secreta de Bernie Ecclestone) do jornalista investigativo Tom Bower fala de um episódio no Brasil do chefão da Fórmula-1.


Narra que Ecclestone fez um acordo direto com a TV Globo para ela patrocinar uma corrida no Brasil. A corrida ainda não fazia parte do campeonato mundial da FIA (Federação Internacional do Automobilismo). Seria só de exibição.

Ecclestone negociou com cada equipe o pagamento de um cachê.

Segundo o livro, a Globo só pagaria à Ecclestone após a corrida, com o dinheiro da renda do evento. O chefão assumiu o risco e a corrida foi bem sucedida. "Ecclestone collected the television money in cash and the team managers stuffed into briefcases" (Ecclestone coletou o dinheiro em espécie da [rede de] tv e o chefes das equipes de fórmula-1 rechearam suas malas).

O livro não mostra documentos, tampouco acusa de haver ilegalidades, coisa que não entra neste mérito, narrando o fato como mais um caso de esperteza nos negócios do chefão.

Mas a Globo foi autuada em 2006 a pagar R$ 615 milhões por sonegação de Imposto de Renda na compra de direitos de transmissão da Copa de 2002 da FIFA através de operações em paraísos fiscais, segundo a Receita Federal.

Como a Fórmula-1 também é um evento esportivo internacional, e uma empresa que faz planejamento tributário para um evento, costuma fazer para todos, a CPI da Petrobras deve pedir o DARF do Imposto de Renda sobre as remessas para pagamento dos direitos de transmissão da Fórmula-1 desde a época em que foi autuada.

Leia também:

Reforma agrária da ditadura "assentou" até VW em latifúndio na Amazônia

Os horrores da ditadura de 64 não foi só tortura e morte. Teve extravagâncias econômicas também que merecem ser lembradas pelo absurdo.

Imagine em vez de recolher uma fortuna de impostos sobre o lucro de multinacionais, como a Volkswagem, deixarem elas aplicar esse dinheiro na SUDAM (Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia), mas não para construir fábricas na região, e sim para adquirir uma gigantesca área da floresta Amazônica, desmatar e criar gado.

Pois aconteceu e não foi só com a montadora de automóveis, que acabou se desfazendo do projeto pelas encrencas e desgaste que deu (e continua dando até hoje). Bradesco, Bamerindus (hoje, HSBC), Andrade Gutierrez e outros grupos econômicos que até então não atuavam no segmento agropecuário também trilharam por esse caminho.

Esse texto de Lúcio Flávio Pinto conta um pouco desta história:

Volks na Amazônia: destruição
Por Lúcio Flávio Pinto

Em 1973 Wolfgang Sauer foi chamado para conversar com os executivos alemães da Volkswagen na sede alemã da empresa. Voltou como o chefe da maior fábrica de automóveis em funcionamento do hemisfério sul, instalada em São Paulo. O alemão de Stuttgart estava há 12 anos no Brasil. Chegou no ano traumático de 1961, marcado pela crise de poder desencadeada pela renúncia do presidente Jânio Quadros (o mais votado até então) e a reação militar à posse do vice-presidente, João Goulart.

Depois de 10 anos de peregrinação entre Portugal e a Venezuela, Sauer seria o diretor comercial da multinacional alemã Bosch. O novo posto era um salto: de fabricante de autopeças se tornaria montador de automóveis. A ambição de Sauer, porém, era muito maior: queria ser um dia presidente mundial da Volkswagen.

Ele divisou a oportunidade ainda em 1973, quando foi a Brasília conversar, a convite do então ministro do interior, Rangel Reis. O ministro lhe disse que o governo federal queria mudar a diretriz da ocupação da Amazônia. Desde o início da construção da Transamazônica, três anos antes, a ênfase era na colonização. Lavradores nordestinos, atingidos pela grande seca de 1970, eram levados para as margens da grande rodovia de penetração e assentados em lotes de 100 hectares.


Professor da Faculdade de Direito da USP defende o Golpe de 64


Contar sobre a ditadura até que a história crave nos ossos dos mais jovens

Sanguessugado  do Sakamoto
Leonardo Sakamoto

Um aluno me perguntou se eu não achava exagero estar aparecendo tanta coisa sobre o golpe militar de 1964 na mídia. Em sua opinião (“Já deu, né?''), o assunto é  chato e ele e seus amigos não aguentam mais esse assunto.
Ainda bem que era só um futuro jornalista. Nada com o qual devemos nos preocupar.

É claro que a história pode ser contada e analisada de uma maneira mais interessante do que é feito hoje, tanto pelas escolas quanto pela mídia. Nisso, podemos melhorar e muito, tornando o aprendizado tão viciante quanto jogar Candy Crush.

Ou se isso não for possível que, pelo menos, crianças e adolescentes sejam levadas a compreender qual a utilidade de se conhecer os caminhos já trilhados pelos que vieram antes deles para não repetir os mesmos erros. Perceber que o mundo não começa com seu nascimento, nem vai se exaurir com a sua morte.

O golpe e a ditadura cívico-militar ainda são temas que não fazem parte de nosso cotidiano em comparação com outros países que viveram realidades semelhantes e que almejam ser democracias. Por aqui, lidamos com o passado como se ele tivesse automaticamente feito as pazes com o presente.
Aliás, deveríamos transformar o dia do golpe militar de 1964 em feriado nacional. Talvez assim possamos garantir que esse dia nunca seja encarado por nós e, principalmente, pelas gerações que virão como um grande Primeiro de Abril, como se o golpe de 1964 nunca tivesse existido.
laerteditadura
Cicatriz que não deveria ser escondida mas permanecer como algo incômodo, à vista de todos, funcionando como um lembrete. Não vivemos três décadas de piada, apesar da elite militar e parte da elite econômica do país terem rido muito às custas de quem pedia liberdade e democracia nos Anos de Chumbo.

Pouco me importa o que pensam os verde-oliva da reserva que tomam seu uísque nos Clubes Militares enquanto, saudosos, lançam confetes ao Dia da Revolução (sic). Demonstrações de afeto a um período autoritário são peça de museu, então que fiquem, democraticamente, com quem faz parte do passado.

Mas eles precisam saber – ainda em vida – que, desta vez, a História não vai ficar com a versão dos golpistas. E que o mundo que eles ajudaram a construir, mais cedo ou mais tarde, vai embora com eles. Não por vingança, mas por Justiça.

Em nome de uma suposta estabilidade institucional, o passado não resolvido permanece nos assombrando. Seja através de um olhar perdido da mãe de um amigo que, da janela, permanece a esperar o marido que jaz no fundo do mar, lançado de helicóptero. Seja adotando os métodos desenvolvidos por eles para garantir a ordem e o progresso.

Durante a ditadura, os militares armaram uma farsa para encobrir o assassinato do jornalista Vladimir Herzog. A explicação trazida à público, de suicídio na cela, não convenceu e a morte de Vlado tornou-se símbolo na luta contra o regime. Mas fez escola.

Em São Paulo, um homem de 39 anos foi encontrado enforcado pouco mais de duas horas depois de ter sido preso.

Supostamente, era traficante e transportava cocaína.

Supostamente, teria se enforcado usando um cadarço de sapato.

Questionado por jornalistas se não é praxe da polícia retirar os cadarços de sapatos de presos, um policial afirmou que o acusado usou um pedaço de papelão para arrastar um cadarço que estava fora da cela. Seria cômica se não fosse ofensiva uma justificativa dessas.

Como aqui já disse, o impacto de não resolvermos o nosso passado se faz sentir no dia-a-dia dos distritos policiais, nas salas de interrogatórios, nas periferias das grandes cidades, em manifestações, nos grotões da zona rural, com o Estado aterrorizando ou reprimindo parte da população (normalmente mais pobre) com a anuência da outra parte (quase sempre mais rica). A verdade é que não queremos olhar para o retrovisor não por ele mostrar o que está lá atrás, mas por nos revelar qual a nossa cara hoje.

Lembrar é fundamental para que não deixemos certas coisas acontecerem novamente.

Que o Supremo Tribunal Federal reconsidere e afirme que crimes contra a humanidade, como a tortura, não podem ser anistiados, nunca.

Que a história dos assassinatos sob responsabilidade da ditadura seja conhecida e contada nas escolas até entrar nos ossos e vísceras de nossas crianças e adolescentes a fim de que nunca esqueçam que a liberdade do qual desfrutam não foi de mão beijada.

Mas custou o sangue, a carne e a saudade de muita gente.

O espírito da ditadura está vivo

As análises que abundam nos jornais sobre os idos de 1964 evitam algumas questões essenciais para o entendimento do que foi o período inaugurado pelo golpe. A principal lacuna é percebida na questão econômica: durante anos, a própria imprensa alimentou, por convicção ou omissão, o mito de que o regime militar havia produzido a modernização da economia brasileira, e o conto do “milagre econômico” foi instaurado como verdade histórica.

Outro ponto que está a merecer esclarecimentos é o papel jogado pelo Partido Comunista Brasileiro e pela representação política da socialdemocracia em episódios cruciais que levaram ao desfecho catastrófico de 50 anos atrás. Nota-se no conjunto das análises certa omissão quanto ao papel histórico do PCB e seus sucedâneos – como representação simbólica da chamada esquerda clássica – na eclosão do golpe militar e nos eventos que radicalizaram o poder ditatorial. Essa instituição, hoje associada ao que há de mais conservador na política nacional, tem uma história repleta de traições e autoritarismo, com decisões arbitrárias que muitas vezes foram usadas para justificar a violência do regime de exceção.

Quanto à socialdemocracia, é preciso lembrar que foi a adesão oportunista do PSD à proposta de declarar vaga a cadeira do presidente da República, em 1º de abril de 1964, que deu ares de legalidade ao golpe. A socialdemocracia foi eficiente no processo de desconstrução da ditadura, ao atuar como amplo guarda-chuva na campanha das Diretas Já e ao arbitrar interesses na Constituinte de 1986-88, mas foi sob suas asas complacentes que se consolidou o poder do chamado “baixo clero” do Congresso Nacional, onde a corrupção se institucionalizou.

Uma terceira questão se refere à cultura da violência, implantada no ethos brasileiro, ou seja, o conjunto dos valores com os quais a sociedade produz a harmonia necessária ao seu bom funcionamento.

A tortura “democrática”

O leitor atento e crítico poderia perguntar: o que a imprensa tem a ver com essas questões? A resposta fica muitas vezes dissimulada pela ilusão de que o jornalismo tem sido aquilo que se pretende que seja: um exercício de objetividade. E, objetivamente, pode-se afirmar que a imprensa brasileira atuou, em todos estes anos, no sentido de amenizar a imagem da ditadura perante a História.

Não fosse pelo erro de impor uma censura atrabiliária sobre os jornais, e os governos militares teriam contado com uma complacência ainda maior na interpretação de suas decisões políticas e econômicas.

Observe-se, por exemplo, como os ministros que conduziram a estratégia econômica do regime de exceção foram transformados em gênios da raça, ainda que tenham produzido uma sociedade desigual ao arrochar salários e endividar irresponsavelmente o Brasil.

Nunca se viu a imprensa brasileira dedicar ao escândalo da negociação da dívida externa, conduzida de maneira criminosa pelo Executivo durante o regime militar, uma fração mínima do barulho que se faz quando se trata de malfeitos durante os governos posteriores, e em especial naquilo que refere ao Poder Legislativo eleito democraticamente. A censura deixou de ser desculpa há quase trinta anos.

Já o problema da violência oficial, herança maldita do período do arbítrio, aparecem aqui e ali observações de articulistas. Na terça-feira (1/4), finalmente, um dos grandes jornais – O Globo – dedica uma página inteira a analisar o efeito da violência institucional da ditadura na formação dos agentes públicos a serviço do governo democrático. Segundo o jornal carioca, a tortura segue sendo uma prática comum nas relações das autoridades policiais com suspeitos. Especialistas citados afirmam que a democracia não conseguiu romper a herança das práticas arbitrárias que colocam o suposto delinquente na condição de “inimigo interno”.

Essa mesma mentalidade contamina a cultura da sociedade brasileira, e está na origem de opiniões retrógradas como a defesa da pena de morte, posturas ambivalentes e conservadoras sobre direitos das mulheres e na ânsia pela criminalização de crianças e adolescentes.

Da mesma forma, esse resquício da ditadura coloca nas mãos de agentes despreparados um poder absoluto sobre a vida dos cidadãos que não contam com acesso à Justiça, alargando o campo de atuação do crime organizado e da corrupção.

Essas mazelas conservam entre nós o espírito da ditadura.

( Luciano Martins Costa) 

quarta-feira, 26 de março de 2014

"Fui estuprada pelos militares", diz filha de general cassado pela ditadura

Filha de um dos quatro generais a ser contrário ao golpe militar de 1964 conta que foi estuprada pelos militares durante visita à sua mãe presa; Eugênia Zerbini tinha 16 anos 
 
A filha do general Euryale de Jesus Zerbini, a advogada Eugênia Zerbini, prestou depoimento durante audiência pública da CNV (Comissão Nacional da Verdade), na Assembleia Legislativa de São Paulo, e relatou os momentos de medo vividos quando foi violentada por militares.

O caso ocorreu em fevereiro de 1970, na sede da Operação Bandeirante, na Vila Mariana (zona sul), local onde sua mãe –a fundadora do Movimento Feminino pela Anistia Therezinha Godoy Zerbini– estava presa havia poucos dias.
filha general estuprada ditadura 
Eugenia Zerbini, estuprada por um agente da ditadura, aos 16 anos, decidiu contar a história, aos 60 anos (Divulgação) 

Já seu pai já havia sido cassado por ser um dos quatro generais a ser contrário e resistir ao golpe militar de 1964. Aos 16 anos, ela contou que foi levar roupas para mãe na sede da operação. “Ao chegar lá, me perguntaram como estava minha mãe. E eu disse: ‘vocês é que devem saber’. Me arrependo. Não era para ter dito aquilo”, afirmou.

A advogada relatou que, naquele momento foi violentada. Sem apresentar detalhes, ela conta que sofreu muitos anos sem contar o caso, mas sabe que o interesse dos militares não seria com ela.

“Agora que tornei isso público, fiquei mais leve. Sei que não foi a mim, eles estavam fazendo isso para atingir meu pai e minha mãe. E eu fui um veículo que estava a mão”, afirmou.

A então adolescente disse que não teve coragem de contar o caso a familiares à época.

“Não tive coragem de falar pra ele [meu pai], não falei a minha vó. Ela estava com a outra filha presa. Ia falar para quem? Telefonar para o Rio de Janeiro? A gente fica com mais vergonha daquele que fez do que da gente”, disse.

Zerbini contou ainda que viveu momentos de horror ao deixar a sede da operação apos ser violentada. “Não sei como eu sai daquelas coisas. De repente eu estava na rua, no bairro Paraíso, e eu tinha que sair dali e lembrava: ‘não olha pra trás’. Parecia um pesadelo”, explicou.

com informações da revista Brasileiros 

terça-feira, 25 de março de 2014

Um apavorante susto

Militares histéricos nos caçavam. Lutamos capoeristicamente: mudávamos até a linguagem das peças. Até que nos pegaram
 
Por: *José Celso Martinez Corrêa, no CartaCpaital
 
ditaduraFoi um susto!
Do dia 31 de março ao dia 1º de abril, começamos a ser Caçados. 

Caçadores Fardados alardeavam pelas Mídias – rádios, tevês, jornais:
 
– CAÇA AOS COMUNISTAS! CAÇA AOS SUBVERSIVOS!
 
Senti, 
sentimos, 
um apavorante susto!
Este mesmo susto senti eu quando vi, em pleno Carnaval de 2014, um soldado da PM de máscara e corpo inteiro, não pro carnaval de Dionísios, mas pra COPA!

A PM fantasiada de ROBOCOP!!!!!! 

O Poder do Estado pretendendo proibir o uso de máscaras nas manifestações, 

ao mesmo tempo em que apresentam a ROBOCOPA a nós, desmascarados, desarmados ?! 

É uma DECLARAÇÃO DE GUERRA

Cassados os direitos humanos de manifestação, estamos diante de ROBÔS que poderão até nos matar. 

Como nós, corpos sujeitos da vida e da história, seres livres vivos, vamos contracenar com esta estranha entidade – pessoa tanque de guerra de ficção científica

Nos anos 50, início dos 60, o Teat(r)o Oficina e eu tivemos a felicidade de viver e crescer nos afirmando como animais indomáveis de Teat(r)o, contracenando com uma multidão botando fé nas reformas de base, plugadas nos artistas criadores da Bossa Nova, do Cinema Novo, da Radio Nacional, os Concretistas – Nova Figuração, Sambistas, Estudantes Estudiosos. 

SUICIDIO LIBERTADOR 

Eu estava no Colégio Estadual de Araraquara, em uma aula nem me lembro de quê, quando de repente as pessoas corriam entre salas de aula clamando os Evoés de Trágédia, que depois vim a saber que eram como as do Teatro Grego: 

GETÚLIO SE SUICIDOU!
 
Professores, alunos, bedéis, todos atingidos, saímos pra rua sem nos olharmos, misturando-nos ao que ouvíamos nas rádios transmitindo multidões aos berros, ocupando a Avenida Rio Branco da Capital do Brasil, o Rio de Janeiro, no mesmo frêmito de energia feroz que nos "pegou". Vivíamos em plena Era do Rádio, evoezávamos com o Brasil inteiro: 

– O PAI DOS POBRES SE MATOU E TE DEIXOU UMA CARTA TESTAMENTO”
 
Me lembro que ouvi dentro do meu “em mim”:
 
– TE VIRA MEU FILHO QUE TEU PAI SE SUICIDOU.
 
A Engrenagem de Sartre que montamos já demonstrava: Presidente da República, Pai, Deus, não podem nada diante da máquina do Imperialismo.
– TE VIRA dentro da Vida Impressa em Dollar!
 
Sai d’Ela: TEU PAI SE MATOU!
 
Eu entendi e acho que muita gente de minha geração sacou, não adiantava esperar nada do poder de cima, era necessária uma revolução. 

E passei a contar comigo como uma espécie humana vinda dos deuses minerais, vegetais e animais; com a minha geração e com aquele povo tragicômico orgyástico do enterro de Getúlio. Choravam a morte do Paternalismo, que no Brasil nunca deu em nada. 

O suicídio de Getúlio e sua Carta travaram o Golpe Patriarcal Financeirista engatilhado pelo Pentágono e pelos Militares Golpistas territorializando o Brasil como Potência de um lado da Guerra Fria. 

O Poder nascido nesta época para os povos dos países hoje chamados emergentes, e naquele tempo 3º Mundo, vinha da não tomada de posição diante de um dos dois Blocos, mas sim do jogo ao lado da Paz no Mundo

Eu tinha 17 anos e pude gozar até o dia do meu aniversário de 27, 30 de março de 1964, a liberdade criadora que permitiu a existência do Teat(r)o Oficina no sucesso absoluto de Os Pequenos Burgueses de Maximo Gorki. 

Essa peça virou do avesso os jovens pequenos burgueses e até os burgueses ditos progressistas. Todos suicidas de classe média com tesão do renascimento do corpo revolucionário, diferentemente de hoje em que todos querem ser – a pequena Burguesia escrava da Alta, que esta grande atriz Valeska Popozuda encena no seu clipe do Beijinho no Ombro

– DESEJO A TODAS INIMIGA VIDA LONGA PRA QUE ELAS VEJA CADA DIA MAIS NOSSA VITÓRIA.
 
Fomos comemorar os meus 27 anos num show de Nara Leão e seu joelho, suportando tesudo a curva de seu violão, numa boite da Praça Roosevelt com muitos artistas, sentei numa mesa com o Augusto Boal. 

Foram 10 anos em que a cultura brasileira, os movimentos de massa pelas Reformas de Base, Movimento Estudantil através da UNE, Reforma Agrária, o Maravilhoso Movimento contra o “Acordo MEC USAID” – que venceu a partir de 64 e transformou a Universidade num Forno pra produzir $oldados pro Mercado Militarizado. 

Darcy Ribeiro, o Político Antropólogo Antropófago que tomou ayuasca com os índios, estava criando uma Universidade Antropófaga, em que até eu iria dar Cursos de Teat(r)o.
 
Nesse decênio, a não ser com a besta do Jânio, as Portas de Brazília eram abertas sem cercas burocráticas ou/e seguranças. É incrível imaginar isso hoje: Brasília não era ainda BrazILHA.
 
Jango Goulart, Juscelino, Celso Furtado, Francisco Juliano, a beleza da 1ª Dama Maria Tereza Goulart, de Marta Rocha. 

O GOLPE DA GUERRA FRIA NO BRASIL 

Mas na manhã seguinte, dia 31, Dona Maria, uma cozinheira épica do apê onde morava no Bixiga, entrou com um exemplar da ÚLTIMA HORA xingando:
SEU ZÉ! O POVO TA FODIDO! OS MILITAR QUEREM ACABAR COM O SALÁRIO MÍNIMO!!!
 
Assim mesmo fui ao ensaio marcado de Pena que ela seja uma Puta, de John Ford, não o dos filmes de cowboy, mas um dramaturgo recém-pós Shakespeare: escatológico, pornô, maravilhosamente colorido, onde dirigiria Célia Helena, Raul Cortez, Jô Soares, Claudio Marzo, Miriam Mehler, Renato Borghi, Tereza Austragésilo, Eugenio Kusnet, Moema Brun, Lineu Dias, Ronaldo Daniel – depois Ron Daniels, Geraldo Del Rey, numa montagem que talvez antecipasse O Rei da Vela, trabalhada no prazer do Teatro a mais radical Teatralidade – com muita cor. Tínhamos dinheiro da ótima bilheteria de Os Pequenos Burgueses, todos enchafurdados no prazer da criação desabusada em fase de 1ªs leituras em torno de uma mesa enorme. 

Escancara as portas do Oficina Lilian Lemmertz, mensageira da tragédia

CONGESTIONAMENTO DE TANQUES DE GUERRA NAS RUAS.
 
INVADIRAM O TBC, QUEREM FECHAR TODOS OS TEATROS.
 
Saímos todos pra Consolação no Teatro de Arena perto da Faculdade de Filosofia da Maria Antônia. A Pitonisa estava certa: engarrafamento no trânsito, não de carros, mas dos Tanques e Canhões apontados pra todos os lados. 

Encontramos muita gente da “classe teatral” e combinamos uma reunião depois dos espetáculos na Casa de Maria Alice Vergueiro. 

Tínhamos uma sessão de Pequenos Burgueses.
 
O Oficina, que lotava todas as noites, estava totalmente vazio, umas 15 pessoas. 

Os atores foram até o fim da peça incorporando o que se passava naquela noite – quem estava nesta sessão teve o privilégio de viver este momento com intensidade maior – com as mãos tremulas, não sei como foi, mas o Hino da Internacional Comunista que fechava a peça foi substituído por uma música russa, talvez até ortodoxa, pois tínhamos ganho através do Kusnet muitos discos doConsulado da URSS.
 
Na reunião da Classe, com a tevê ligada, vi aparecer n’Ela meu professor de Direito Internacional Gama e Silva, um cadáver, ressuscitando como o democrata do Golpe que iria ocupar o Ministério da Justiça. 

Os Mortos saíam dos Túmulos. 

A Decisão de todos era escapar, não se deixar capturar pela ordem de caça aos subversivos e aos comunistas.
 
Senti literalmente o chão fugir aos meus pés. 

O Ato Estratégico Trágico de Manifestação do Poder Humano, de TeAto Político, atuado pelo ator presidente Getúlio Vargas, com o texto de sua Carta Testamento e seu SuiCídio, levantou o TRANSE DOS COROS DAS MULTIDÕES DE TODO BRASIL que abortaram o Golpe Militar pró Guerra Fria, preparado para Agosto de 1954. 

Em 64 já estávamos espertos – eu tinha 27 anos. 

Foram os dias de CAÇA AOS COMUNISTAS! AOS SUBVERSIVOS!

Militares histéricos nos caçavam tomando o lado do Pentágono na Guerra Fria.
Fomos driblando a Ditadura e a Censura, lutando capoeristicamente, mudando sempre nossas estratégias e linguagem para as peças, até que, depois de várias tentativas, nos pegaram em 1974 –10 anos de Golpe!
O Teat(r)o Oficina foi invadido, muitos fomos presos. Fui torturado juntamente com o ator fotógrafo Celso Lucas e exilado para Portugal, descolonizando-se com suas ex-colônias. 

Na Anistia retornei ao Brasil e ao Teat(r)o Oficina. Um período subterrâneo vivido durante a “depressurization” = abertura gradual lenta e restrita, para  começar a emergir totalmente com a inauguração do Terreiro Eletrônico do Teat(r)o Oficina, Obra de Arte de Lina Bardi e Edson Elito com o “HAM-LET” –Impeachment de Collor no dia 3 de outubro de 1993. 

Hoje, juntamente com a PM – Polícia Militar – a disfarçada de ditadura explícita, apoiada no Vodu Metafísica da Fatalidade da Especulação Financeira, instaurou-se no aparelho do Estado, plugado no Agro Negócio de Alimentação com sabor de inseticida, a tentativa de extermínio dos Índios, da Natureza, do Cultivo da Vida, quer dizer, da Cultura. É a Tentativa de Domínio de Uma Verdade ÚNICA, de preferência a que mais pode gerar preconceitos, cegar mais a visão, violentar a contracenação com o Outro, a que traz o desprezo pelo Teatro que é uma Arte do Poder Xamânico Humano ligado ao Cultivo da Vida, a que sintomatiza o que acontece no Ato de Teato Mundi e Muda. 

A Cultura é desprezada porque Muda, e é muda de outra maneira de estar e ser no mundo. 

As Máscaras da Homofobia, Racismo, Machismo, Consumismo, Dinheirismo não resistem diante do PHODER HUMANO do ser que encara a vida desassombradamente. 

RETORNANDO AO GOLPE 

Foi uma surpresa inesperada pra todos. Celia Helena tinha uma casa em Ubatuba onde sumiríamos. Entramos no apartamento de Geraldo Del Rey, Renato Borghi raspou a barba de Piotr que fazia em Pequenos Burgueses e fomos pra Praia enquanto Ítala Nandi pintava os cabelos de Louro e passava a gerir o Oficina com a montagem de Toda Donzela tem um Pai que é uma Fera, de Gláucio Gil. Convidou Benedito Corsi para dirigir Tarcísio Meira como galã, Miriam Meheler, Ítala e Eugênio Kusnet no Elenco. A peça foi dando a grana que precisávamos – menos os do Oficina e muito mais os do Arena – para ir ao Exterior para não sermos caçados. 

O Golpe caçava primeiro os que estavam no Poder, os jovens do CPC que militavam nas favelas, na UNE - União Nacional dosEstudantes – Incendiada, os do Movimento de Cultura Popular, que explodiu em Pernambuco ao mesmo tempo das Ligas Camponesas, onde a repressão foi de arrastar pelas ruas o Corpo Nu Vivo de Gregório Bezerra, líder comunista puxado por uma corda. 

Quando Cleyde Iaconis foi presa no TBC pairava uma interdição aos Teatros em que os sucessos eram os das peças ditassubversivas.
 
Na peça que vamos montar, Cacilda 64 – o Golpe, Maria della Costa e Cacilda Becker têm uma sacação estratégica de Grandes Atrizes da Política, que é a Arte do Teatro em si. 

O DOPS intimou a classe Teatral paulista a Depor. 

A Operação chamava-se Sindicância Para Apurar a Infiltração Comunista no Meio Teatral.
 
Ambas pedem que fossemos todos muito bem vestidos em fantasias de bons moços e moças, como num Cortejo. Cacilda veste um Dior, Maria os Modelos das Casas Vogue, de Denner ou de outros tops da época. Combinam tudo por telefone: alugam dois Rolls Royce, chamam toda a Mídia e descem com seus sapatinhos forrados de suas carruagens sob todas as luzes da Tupy, dos flashes de todos os jornais e revistas. 

Penetráramos no PARDIEIRO DO DOPS onde nos esperava o Delegado Dr. BuonCristiniano e a televisão transmite tudo ao vivo. 

Cacilda e Maria della Costa respondem ao interrogatório com uma clareza e cara de pau que deixou constrangido o Delegado diante das tevês. 

Cacilda libertou não somente Cleyde Iáconis, que estava presa, como outros Atores e Atrizes e terminou por conseguir do Buon Cristiniano, que todos os teatros fossem abertos: 

ESTAMOS AQUI ESPONTANEAMENTE DESAUTORIZANDO O CARÁTER COERCITIVO DA INTIMAÇÃO … NÃO CORTEM AS AZAS DO TEATRO BRASILEIRO QUE ESTÁ EM SEU PLENO ESPLENDOR.
 
Não deviam se meter, mas se meteram através de grupos paramilitares que queimaram a TV-Bandeirantes, o Teat(r)o Oficina,ameaçavam jogar bombas nas Assembleias dos Teatro em que se Lutava contra a Ditadura e sobretudo a Censura. 

Em 68 estes milicianos paramilitares Atacaram a Roda Viva no Teatro Galpão na Operação Quadrado Morto, em que assistiram, por quase um mês inteiro, ou mais, a peça pra aplicar sua invasão baderneira terrorista na saída do público destruindo como vândalos os equipamentos do teatro e batendo nos atores e atrizes. 

Depois foi o próprio 3º Exercito Nacional de Porto Alegre que atacou pela segunda vez o Roda Viva no Hotel onde estava o elenco, exatamente como aconteceu agora num Hotel da Rua Augusta com a PM e os manifestantes. 

Neste massacre não permitiram os advogados de se aproximar dos atores feridos. Foram todos colocados dentro de um Ônibus de volta pra SamPã, sem tratamento para os feridos. Chegaram com as feridas ainda sangrando nas portas do Teatro de Ruth Escobar. 

A Peça então foi proibida em todo Território Nacional pelo próprio Exército. 

Até o AI-5, de uma certa maneira o Teat(r)o Oficina foi poupado. Encenamos Galileu Galilei, de Brecht, no dia 13 de dezembro, onde ouvíamos pelo rádio o Pronunciamento do Ato Institucional nº 5, pelo qual os militares engrossaram de Vez. 

Tínhamos uma Censura para a qual enviávamos os textos e depois fazíamos ensaios gerais para os Censores. Mas sempre liberavam nossas peças porque não entendiam nada. Nós tínhamos desde O Rei da Vela & Roda Viva saído dos critérios da Censura que estava ainda na fase de proibir textos que criticassem diretamente o Governo ou os ligados ao Realismo Socialista.
No ensaio de Roda Viva nenhum censor olhou para o palco. Todos hipnotizados pelos olhos realmente lindos de Chico Buarque de Holanda, que tinha a presença tímida de um deus jovenzinho pra lá do atraente – um santo!
E agora? 

O Carnaval de 2014 rolou sem Violência Explícita Militar? 

Parece que sim. 

Estamos a menos de 100 dias da COPA e próximos à eleição – Ano difícil. Começar tudo de Novo – o Teat(r)o Oficina e seuentorno pra variar a perigo mas não para encenar na Vigília dos dias 31 de março e 1º de Abril 

Cacilda 64 – O Golpe.
 
Nem começamos a ensaiar 

MERDA
 
*José Celso Martinez Corrêa é o diretor do Teatro Oficina. Este texto faz parte da série de artigos do especial Ecos da Ditadura, que lembra os 50 anos do golpe cívico-militar 

As Marchas da Família e a apologia a crime

50 ANOS DO GOLPE MILITAR NO BRASIL

"E aí o que nós vimos no fim de semana foi outro fenômeno político.

Em vez de ser rejeitado de forma absoluta pretendeu-se dispensar à ideia de um golpe de Estado um tratamento relativo, com argumentos supostamente equilibrados, ora contra, ora a favor.

Vamos 'debater' a ditadura? Procurar seu lado 'bom'?

É inaceitável. O que se fez na rua no fim de semana foi a apologia de um crime. (...)

Após três derrotas consecutivas em eleições presidenciais, ameaçados de enfrentar um quarto fracasso em outubro, conforme dizem todas as pesquisas de intenção de voto, os filhos, netos e bisnetos ideológicos dos golpistas de 64 sonham com uma revanche. (...)

Não suportam a possibilidade de enfrentar mais quatro anos longe do poder, com um governo que, apesar de muitos trancos, barrancos e solavancos, tem conseguido manter uma política de distribuição de renda, preservação com emprego e dos salários."

Golpistas e maconheiros
Paulo Moreira Leite*
Enquanto jovens que querem legalizar a maconha são tratados na pancada, quem defende golpe militar é tratado a pão de ló

A importância dos protestos a favor de um golpe militar no fim de semana reside em sua desimportância.

O povo fez sua parte. Ao ignorar as manifestações, demonstrou sua rejeição a aventuras contra a democracia e contra a liberdade.

Os sociólogos e analistas políticos que adoram falar numa "cultura autoritária" do brasileiro, sempre útil quando se quer achar uma justificativa para o próprio autoritarismo, já estavam com o argumento no bolso para ser utilizado caso algum protesto tivesse reunido um pouco de gente a mais. Tiveram de ficar em silêncio.

O fiasco da marcha dos golpistas não terminou bem para todo mundo, porém. A marcha foi tratada de forma tolerante, hospitaleira até, por determinados meios de comunicação.

O que se viu foi o seguinte.

- Você vai ao cinema?

- Não. Vou pedir um golpe de Estado.

E isso é grave, até porque não resiste a uma comparação.

Há vários anos que assistimos a um ritual conhecido. Toda vez que estudantes e jovens procuram organizar uma marcha pela legalização da maconha, surgem vozes dispostas a proibir a manifestação. Mesmo reconhecendo que vivemos num país onde a liberdade de expressão é um direito fundamental, não faltam questionamentos.

Já em 2010, o desembargador Sergio Ribas afirmou:

"Enquanto não houver provas científicas de que o 'uso da maconha' não constitui malefícios à saúde pública e que a referida substância deva sair do rol das drogas ilícitas, toda tentativa de se fazer uma manifestação no sentido de legalização da 'maconha' não poderá ser tida como mero exercício do direito de expressão ou da livre expressão do pensamento, mas sim, como sugestão ao uso estupefaciente denominado vulgarmente 'maconha', incitando ao crime, como previsto no artigo 286, do Código Penal, ou ainda, como previsto na lei especial, artigo 33, 2º, da Lei 11.343/2006."

Um ano antes, em 2009, a desembargadora Maria Tereza do Amaral já havia dito que: "não se desconhece o direito constitucional à liberdade de expressão e reunião, que, à evidência, não está se afrontando neste caso, porquanto, não se trata de um debate de idéias, mas de uma manifestação de uso público coletivo da maconha".

Não sou a favor da legalização da maconha. Mas admito que há um lugar para que isso seja debatido em nossa sociedade e que as pessoas favoráveis à medida possam expressar-se. O argumento para proibir a marcha da maconha dizia que a liberdade de expressão também tem limites numa sociedade democrática, principalmente quando atenta contra a ordem pública/jurídica, ou a paz social.

Ordem pública? Paz social? Com golpe?

Pergunto por que esses mesmos questionamentos não foram feitos diante da marcha dos golpistas.

Acho que ninguém precisa de "provas científicas" de que as ditaduras fazem mal à nossa vida pública.

Não estamos falando de uma medida pontual, que diz respeito a uma droga específica, como a maconha, mas de uma garantia fundamental do Estado de Direito. A democracia, para os brasileiros, não está mais em discussão desde 1988, pelo menos. Naquele ano, ela entrou na Constituição como cláusula pétrea – que não pode ser reformada e que, conforme entendimento do Supremo, o Congresso sequer tem o direito de debater se irá reformar ou não. O artigo 60 da Carta diz:

"Não será objeto de deliberação a proposta de emenda tendente a abolir:

I - a forma federativa de Estado;

II - o voto direto, secreto, universal e periódico;

III - a separação dos Poderes;

IV - os direitos e garantias individuais.

Isso quer dizer o seguinte. Não se pode debater o retorno da censura nem da tortura nem tentar legalizar o racismo. O voto direto não pode ser abolido e assim por diante.

Desse ponto de vista, o que se viu no fim de semana foi puro absurdo – reforçado quando se verifica o tratamento dispensado aos garotos que pediam a legalização da maconha. Eles tomaram porrada. Foram feitas prisões. Com o pretexto de que eles pretendiam fumar maconha na rua – o que é proibido e pode ser punido na forma da lei – proibiu-se que manifestassem sua opinião, o que é perfeitamente legítimo.

E aí o que nós vimos no fim de semana foi outro fenômeno político.

Em vez de ser rejeitado de forma absoluta pretendeu-se dispensar à ideia de um golpe de Estado um tratamento relativo, com argumentos supostamente equilibrados, ora contra, ora a favor.

Vamos "debater" a ditadura? Procurar seu lado "bom"?

É inaceitável. O que se fez na rua no fim de semana foi a apologia de um crime.

Mas dá para compreender como manifestação política.

A experiência ensina que a democracia sempre se torna um valor relativo quando deixa de atender a determinados interesses. Nessas horas, as juras de amor pelo regime são acompanhadas de muitos mases, poréns, entretantos e todavias... Erros, falhas, incongruências de um governo são apresentados como falhas do próprio sistema, como justificativas para questioná-lo nas entrelinhas.

Fico imaginando se alguém questiona a democracia, nos Estados Unidos (nos Estados Unidos!) toda vez que Barack Obama tem o governo paralisado porque atingiu o limite de gastos no orçamento.

É isso o que se vê hoje e nós sabemos muito bem por que. Após três derrotas consecutivas em eleições presidenciais, ameaçados de enfrentar um quarto fracasso em outubro, conforme dizem todas as pesquisas de intenção de voto, os filhos, netos e bisnetos ideológicos dos golpistas de 64 sonham com uma revanche.

Acredite: sonham com uma Venezuela e o sufoco imposto a Nicolas Maduro.

Não suportam a possibilidade de enfrentar mais quatro anos longe do poder, com um governo que, apesar de muitos trancos, barrancos e solavancos, tem conseguido manter uma política de distribuição de renda, preservação com emprego e dos salários.

Confiando na perda de memória de 1964, os marchadeiros de 2014 mostram que perderam até a vergonha. Têm coragem de falar que só querem uma intervenção pontual, de curta duração. Nem neste aspecto são originais.

No 1 de abril de 1964, é bom lembrar, falava-se numa intervenção tão curta que os militares iriam se retirar a tempo da retomada do calendário eleitoral, em 1965.

O país foi obrigado a atravessar um quarto de século de treva autoritária antes de recuperar seus direitos soberanos.

IstoÉ
Destaques do ABC! 

quinta-feira, 20 de março de 2014

Golpe de 1964: repressão e tortura

Por Mateus Ramos, no sítio da Adital:
"É como se eles corrompessem sua alma, destruindo o que você tem de bom (...). Eles querem, através do massacre, da desumanidade, que você traia, que você rompa todos os vínculos que tem, como no caso que eu vi, de uma menina que entregou o próprio pai”.

O trecho acima faz parte de uma longa entrevista concedida por Maria do Carmo Serra Azul à Adital. Cacau, como é conhecida pelos amigos, é uma ex-presa política, que foi torturada nos porões do DOI-CODI, um dos órgãos repressores da ditadura militar brasileira.
Presos políticos, como Cacau e tantos outros, são pessoas encarceradas pelas autoridades de um país por exprimir, em palavras ou atos, a sua discordância com o regime político em vigor. Vale ressaltar que a existência desse preso, está, em regra, associada a regimes políticos ditatoriais, ou seja, geralmente, não há presos políticos se não há ditadura.

As torturas as quais eram submetidos os presos políticos levaram ao surgimento de outro termo: desaparecidos políticos, pessoas que simplesmente sumiram após serem detidas pela polícia.

O site www.acervoditadura.rs.gov.br revela que existem mais de 200 mortes oficiais no período da ditadura, contudo esse número deve ser bem maior, tendo em vista que muitos mortos foram simplesmente "desovados”, para utilizar um termo que os próprios opressores usavam.

Outro número oficial, que, na realidade, também deve ser bem maior, é o de desaparecidos. O site www.desaparecidospoliticos.org.br, lista 379 nomes de pessoas que sumiram desde que foram presas durante o regime militar. Esse número é baixo se levarmos em conta que muitas famílias não relataram o sumiço de seus entes por medo de sofrerem represálias por parte dos militares.

Métodos de tortura
"Eles faziam um morde e assopra, me afogavam e depois me faziam respirar, como se eu houvesse me afogado na praia, isso me deixava maluca”, desabafa Cacau ao lembrar-se dos 15 dias que passou sendo torturada.

Antes de falarmos dos órgãos de repressão, é necessário explicar os métodos de tortura utilizados, que, muitas vezes, eram tão cruéis, levando à morte dos torturados ou deixando-os loucos.

Cadeira do Dragão – "Me amarraram na cadeira do dragão, nua, e me deram choque no ânus, na vagina, no umbigo, no seio, na boca, no ouvido”. (Maria Amélia Teles, ex-militante do Partido Comunista do Brasil) - Era uma espécie de cadeira elétrica revestida de zinco e ligada a terminais elétricos, onde os presos sentavam pelados. Quando ligado, o aparelho transmitia choques em todo o corpo do torturado. Além disso, muitas vezes, os torturadores colocavam um balde de metal na cabeça da vítima, onde também eram aplicados choques.

Pau-de-arara – "Fui para o pau de arara várias vezes. De tanta porrada, uma vez meu corpo ficou todo tremendo, eu estrebuchava no chão”. (Maria do Socorro Diógenes, ex-militante do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) – O pau-de-arara era uma das formas mais antigas de tortura, utilizada no Brasil desde a época da escravidão. Os torturadores colocavam uma barra de ferro atravessando os punhos e os joelhos do preso, que ficava pelado. A vítima era pendurada a cerca de 20 centímetros do chão, numa posição que causava dores lancinantes e não parava por aí. Depois de pendurado o torturado sofria com choques elétricos, pancadas e queimaduras com cigarros.

Afogamentos – "Os caras me enfiavam de capuz num tanque de água suja, fedida, nojenta. Quando retiravam a minha cabeça, eu não conseguia respirar, porque aquele pano grudava no nariz.” (Maria do Socorro Diógenes, ex-militante PCBR) - Nesse método, os torturadores tapavam as narinas do preso e colocavam uma mangueira dentro da boca da vítima, obrigando-o a engolir água. Outro método de afogamento era o de imergir a cabeça do torturado em um tanque de água, forçando sua nuca para baixo até o limite do afogamento. Muitas vezes o preso desmaiava, o que não significava o fim da tortura.

Geladeira – Os presos eram obrigados a ficar nus dentro de uma cela pequena o suficiente para impedi-los de ficarem de pé, após isso os torturadores acionavam um dispositivo que, controlado por eles, alternava a temperatura da cela entre extremamente baixa e alta o suficiente para enlouquecer alguém. Somado a isso, alto-falantes reproduziam sons extremamente irritantes. Os presos chegavam a passar dias nessas celas, sem água e comida.

Soro da verdade – Existem vários tipos de "soros da verdade”, o utilizado pelo regime militar era o pentotal sódico. Uma droga que provoca na vítima um estado de sonolência e reduz as barreiras inibitórias. Sob seu efeito, a pessoa pode falar coisas que normalmente não falaria (daí o nome de soro da verdade). O problema é que o efeito desse soro é pouco confiável, já que a vítima pode ter alucinações e fantasiar coisas que não são necessariamente verdadeieras. Além disso, em alguns casos, a droga pode levar à morte.

Espancamentos – "Eles giravam os presos dentro das celas e os jogavam contra a parede, deixando marcas de sangue por todos os lados, meu marido tem uma cicatriz na cabeça até hoje por conta disso” (Cacau) - Como o próprio nome já diz, era literalmente um espancamento. O preso recebia agressões físicas de todas as maneiras possíveis, entre as mais violentas estava o "telefone”, onde o torturador batia com as duas mãos, em forma de concha, ao mesmo tempo nos ouvidos do preso. Essa técnica deixava o torturado zonzo e podia até estourar os tímpanos, causando surdez permanente.

Abusos sexuais – "Eles usavam e abusavam. Só nos interrogavam totalmente nuas, juntando a dor da tortura física à humilhação da tortura sexual”. (Gilse Cosenza, ex-militante da Ação Popular, AP). Uma forma cruel de tortura, afeta tanto o físico quanto o psicológico. Esses abusos eram somados aos espancamentos, xingamentos e muita submissão, muitas vezes além do estupro, homens e mulheres tinham objetos introduzidos em seus corpos.

Tortura psicológica – "Com certeza a pior tortura foi ver meus filhos entrando na sala quando eu estava na cadeira do dragão. Eu estava nua, toda urinada por conta dos choques. Quando me viu, a Janaína perguntou: ‘Mãe, por que você está azul e o pai verde?’. O Edson disse: ‘Ah, mãe, aqui a gente fica azul, né?’. Eles também me diziam que iam matar as crianças. Chegaram a falar que a Janaína já estava morta dentro de um caixão”. - Considerada por muitos como a forma mais cruel de tortura. Iam desde a humilhação do preso até ameaças de violência contra seus familiares. Mulheres grávidas ou que tinham filhos recém-nascidos, muitas vezes ouviam dos torturadores que nunca mais os veriam. Há também relatos de homens que eram obrigados a assistir a abusos sexuais contra suas mulheres.

Os órgãos de repressão
"Você, agora, vai conhecer a sucursal do inferno”. (Palavras proferidas por um oficial do exército a Frei Tito, quando este era levado para o interrogatório e, consequentemente, para as torturas)

"Diziam que a tortura não era institucional, eu me entreguei na 10º Legião militar e saí de lá encapuzada e sofrendo agressões, então é tudo uma grande mentira, havia sim o conhecimento do que acontecia com os presos políticos (...). No próprio quartel, havia uma placa com a sigla DOI-CODI”, lembra Cacau, sobre o dia em que se entregou à polícia.

Os órgãos de repressão da ditadura militar brasileira eram vários, mas vamos nos ater aos mais importantes e temidos, como o DOI-CODI. Foram nos porões desse órgão onde a maioria dos presos políticos foi torturada, humilhada e muitas vezes morta.

O DOI-CODI, que era chefiado pelo, então, Capitão Carlos Alberto Brilhante Ustra, era formado por dois órgãos distintos, o Destacamento de Operações e de Informações (DOI), responsável pelas ações práticas de busca, apreensão e interrogatório de suspeitos, e o Centro de Operações de Defesa Interna (CODI), cujas funções abrangiam a análise de informações, a coordenação dos diversos órgãos militares e o planejamento estratégico do combate aos grupos de esquerda. Embora fossem dois órgãos distintos, eram frequentemente associados na sigla DOI-CODI, o que refletia o caráter complementar dos dois órgãos.

Ustra, em 2008, se tornou o primeiro militar a ser reconhecido pela Justiça brasileira como torturador no período da ditadura. Durante uma sessão da Comissão da Verdade, em 2013, o ex-sargento do Exército Marival Fernandes testemunhou que o ex-comandante, era o "senhor da vida e da morte" do DOI-CODI e "escolhia quem ia viver e morrer".

Outro braço importante da repressão e que causava calafrios nos presos era o Esquadrão da Morte, liderado pelo delegado Sérgio Fleury. O Esquadrão, que surgiu na década de 1960 em São Paulo, era um grupo paramilitar cujo objetivo era perseguir e matar supostos criminosos tidos como perigosos para a sociedade.

Seu comandante, Fleury, era um dos mais cruéis interrogadores, frequentemente os presos interrogados por ele morriam durante as torturas. "Ele frequentemente contava vantagens afirmando ter sido a pessoa que matou o Marighella”, conta Cacau.

Maria do Carmo foi uma das pessoas que enfrentou o interrogatório de Fleury e sobreviveu. Ela conta que todos os interrogatórios feitos por ele eram alternados entre torturas e conversas. "Ele me perguntava: você está gostando? Você quer que eu repita? Aí eu dizia:não. E ele retrucava, pois então fale. E eu respondia: mas eu não sei”.

Censura
Além da repressão violenta, havia também a censura. Durante a ditadura, foi enorme a censura sob as produções culturais que contrariavam as doutrinas militares. O órgão responsável por ela, durante o regime, era a Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP). Para aprovar a letra de uma música, por exemplo, era necessário enviá-la para o DCDP e se não fosse liberada pelo órgão, a gravadora poderia abrir um recurso a ser julgado pelos censores, que ficavam em Brasília. Eles analisavam como eram tratados os bons costumes e a crítica política contra o regime militar.

"Eles se achavam onipotentes, inalcançáveis, o que não era tão verdade assim. Eu ainda tinha o controle sobre o que eu faria. O que eles queriam, eu sabia, e só diria se eu quisesse”, ressalta Cacau.

Curiosidades
Alguns fatos curiosos ocorreram na época da censura, coisas que poucas pessoas sabem, vejamos:

Gilberto Gil fez a composição da música "Aquele Abraço” após ter sido preso em um camburão. Ele acreditava que seria morto;

Chico Buarque, quando escreveu a canção ‘Apesar de você’ o fez pelo descontentamento com a falta de liberdade durante a ditadura. O cantor externou seu desapontamento na canção, onde a crítica era disfarçada como uma briga entre namorados. Ao enviar a canção para o departamento de censura, ele imaginou que a letra seria vetada, mas acabou sendo liberada;

Após a gravação de "Apesar de você”, os censores se tornaram bastante rígidos com Chico Buarque, que, então, passou a utilizar também o heterônimo Julinho de Adelaide, para fugir da censura. Após a descoberta de que Julinho de Adelaide e Chico eram a mesma pessoa, os censores passaram a exigir cópias de RG e CPF dos artistas.