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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

As Farc em Havana – a verdade e a mentira sobre uma guerrilha heroica

Miguel Urbano Rodrigues
Poucas vezes encontrei revolucionários marxistas mais autênticos, mais firmes e mais preparados ideologicamente para a exposição e defesa dos objetivos, estratégia e tática da sua organização.
 
É inocultável hoje que o governo de Juan Manuel Santos não está interessado em que as conversações de paz de Havana atinjam o objetivo do acordo esboçado em Oslo com o patrocínio da Noruega e de Cuba. Esforça-se, pelo contrário, para impedir que elas conduzam ao fim do conflito e à paz desejada pelo povo colombiano.

O chefe da delegação de Bogotá, Humberto de la Calle, levanta repetidamente pretextos para ameaçar o fim das conversações, impedindo que a discussão dos itens da agenda avance.

A captura, supostamente pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército Popular (FARC-EP), de dois policiais no Departamento del Valle foi o último desses pretextos.

Cabe lembrar que a organização revolucionária declarou unilateralmente, em 20 de novembro do ano passado, uma trégua durante a qual suspendeu todas as operações ofensivas. Optou Santos por um gesto similar? Não. A sua resposta foi uma intensificação da guerra pelo aparelho militar do governo – hoje com 500.000 homens –, o maior e melhor armado da América Latina. Toneladas de bombas foram lançadas desde então sobre os acampamentos guerrilheiros. Perante a situação criada, as FARC, transcorridos os dois meses da trégua, retomaram o combate interrompido.

O governo, com o apoio da mídia, acusou-as imediatamente de comprometerem o bom andamento das conversações de paz. Para confundir a opinião pública, no país e no estrangeiro, o Exército e o ministro da Defesa, Juan Carlos Pinzon, recorrem a uma linguagem dupla.

Quando o Exército prende guerrilheiros, os militares e a imprensa informam que foram “capturados em combate”. Mas, quando elementos das Forças Armadas oficiais são aprisionados pela guerrilha, o governo, a TV e os jornais afirmam que “militares e policiais foram sequestrados covardemente pelos narcoterroristas (ou bandoleiros e assassinos) das FARC”.

Humberto de la Calle, despejando insultos sobre as FARC, inverte os papéis, responsabiliza-as pela estagnação das conversações de paz, e diz que elas “estão enganadas se acreditam que com este tipo de ações vão obrigar o governo a um cessar-fogo bilateral”.

Desmontando a mentira e a hipocrisia oficial, as FARC colocaram os pontos nos 'is' num breve comunicado em que esclareceram: “As FARC-EP comprometeram-se a não empreender novas ações de caráter econômico. Embora se mantenha a vigência da lei 002, que se refere ao nosso financiamento, reservamo-nos o direito de capturar como prisioneiros de guerra os membros da força pública que se rendem em combate. O seu nome é 'prisioneiros de guerra', e este fenômeno ocorre em qualquer conflito mundial”.

Numa entrevista publicada pelo Diário.info, em 30 de janeiro, o escritor Carlos Lozano, diretor do semanário Voz, órgão do Partido Comunista Colombiano, denuncia a má-fé dos representantes do governo nas conversações de Havana e a campanha que apresenta a Colômbia como um país democrático. As eleições “à colombiana” - esclarece - realizam-se “sob as condições e vantagens da oligarquia dominante. Por isso, temem as reformas, não aceitam modificar as regras da política, porque são as suas regras”.

Neste contexto, é transparente que o governo de Bogotá faça tudo para impedir que o processo de paz avance. O presidente Juan Manuel Santos, numa pirueta inesperada, aceitou iniciar conversações de paz, sob a pressão popular, porque está trabalhando para a sua reeleição, aliás problemática. Foi uma jogada política.

A oligarquia, o exército e Washington estão empenhados no prosseguimento da guerra. Dirigindo-se recentemente aos seus generais, Santos usou uma linguagem agressiva, esclarecedora do seu pensamento: “todos sabem que têm de triplicar o número de ações até terminarmos esta guerra pelas boas ou pelas más”.

O comandante Ivan Marquez, chefe da delegação das FARC, arrancou a máscara de Juan Manuel Santos numa conferência de imprensa, em Havana, no dia 1 fevereiro. Lembrou que o governo recusou todas as sugestões apresentadas pelas FARC para dinamizar a agenda no espírito do acordo de Oslo.

Santos respondeu com um NÃO rotundo às seguintes propostas:

- a realização em território colombiano das conversações para a paz;

- a inclusão do comandante Simon Trinidad como membro da delegação das FARC;

- discussão de um cessar-fogo bilateral com a participação do ministro da Defesa e do general Alejandro Navas, comandante chefe das Forças Armadas;

- A “regularização” da guerra, ou seja, a sua humanização;

- a participação da cidadania nas conversações para a paz;

- prioridade para o debate amplo e profundo da questão agrária com a presença do ministro da Agricultura;

- a convocação de uma Assembleia Constituinte.

Temos a imagem do governo, da oligarquia e das Forças Armadas nos “não” de Santos.

Balanço positivo

Seria, portanto, uma ilusão romântica crer que o desfecho do processo de paz de Havana será um acordo que abra a porta ao fim do conflito.

O governo de Bogotá, em período pré-eleitoral, tenta ganhar tempo e atenuar a combatividade das massas simulando uma abertura ao diálogo. A história não se repete da mesma forma. Mas tudo indica que, em data ainda imprevisível, imitará o ex-presidente Pastrana, quando este rompeu em fevereiro de 2002 as negociações com as FARC em El Caguan e invadiu a zona desmilitarizada.

A transparência do plano de Juan Manuel Santos torna pertinente a pergunta formulada por muitos dos que acompanham os diálogos de Havana, incluindo gente solidária com o combate das FARC. Valeu a pena iniciar estas negociações armadilhadas? É minha convicção que o balanço é muito positivo.
O interesse suscitado pelas conversações de Havana e o prólogo de Oslo permitiram que a voz da guerrilha chegasse a milhões de pessoas em dezenas de países. Em conferências de imprensa, em entrevistas e artigos, dirigentes, como os comandantes Ivan Marquez, Rodrigo Granda, Jesus Santrich e outros, projetaram a imagem real das FARC e da sua organização revolucionária, incompatível com a perversa caricatura que delas exportam Santos e os seus generais.

Tive a oportunidade de conhecer alguns desses combatentes das FARC. E reafirmo o que deles escrevi: poucas vezes encontrei revolucionários marxistas mais autênticos, mais firmes, mais preparados ideologicamente para a exposição e a defesa dos objetivos, estratégia e tática da sua organização, que se assume como partido.

As FARC apelaram, agora, mais uma vez à União Europeia para que retire o seu nome da lista de organizações terroristas, indesculpável erro cometido por pressão de Washington e do ex-presidente Uribe Vélez. Culpado de terrorismo de Estado, inventor do paramilitarismo e cúmplice do narcotráfico foi o governo fascista de Uribe.

Como português sinto amargura e vergonha por Juan Manuel Santos ter sido recebido em Lisboa com honras especiais e elogiado como chefe de um Estado democrático.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

A guerra do oleogasodutostão na Síria

Guerra de negócios, não de balaços...

6/8/2012, Pepe Escobar, Al-Jazeera, Qatar
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
 
 
 
Negócio entre Síria e Irã pode ameaçar gravemente a posição da Turquia na estrada leste-oeste de energia  [REUTERS] 

Muito abaixo do “vulcão de Damasco” e da “batalha de Aleppo”, as placas tectônicas do tabuleiro de xadrez da energia global continuam a mover-se. Além da tragédia e do luto da guerra civil, a Síria é também disputa pelo poder no oleogasodutostão.

Pepe Escobar
Há mais de um ano, foi fechado um negócio de US$10 bilhões no Oleogasodutostão, [1] entre o Irã, o Iraque e a Síria, para construir, até 2016, um gasoduto que unirá os campos de petróleo gigantes de South Pars no Irã – atravessando o Iraque e a Síria, com uma possível extensão até o Líbano – e os mercados alvos de exportação (a Europa).

Ao longo dos últimos 12 meses, com a Síria naufragada em guerra civil, não se falou do oleogasoduto. Até que a conversa recomeçou. A paranóia suprema da União Europeia é não se deixar prender, como refém, pela Gazprom russa. O oleogasoduto Irã-Iraque-Síria é item essencial para diversificar os suprimentos de energia e pôr fim ao “monopólio” russo.

Mas é mais complicado que isso. Acontece que a Turquia é o segundo maior cliente da Gazprom. Toda a arquitetura da segurança energética turca depende do gás que vem da Rússia – e do Irã. A Turquia sonha com tornar-se a nova China, configurando a Anatólia como o entroncamento-encruzilhada estratégico para a exportação do óleo e gás da Rússia e dos campos de gás e petróleo russos, Cáspio-Central-asiático, iraquiano e iraniano, para a Europa.

Tente passar a perna em Ancara nesse jogo, e você terá problemas. Até praticamente ontem, Ancara aconselhava Damasco a fazer reformas – e depressa. A Turquia não queria o caos na Síria. Hoje, a Turquia está alimentando o caos na Síria. Examinemos uma das possíveis razões

Estive lá, nas encruzilhadas [2]

A Síria não é grande produtor de petróleo; suas reservas estão sumindo. Mesmo assim, até o início da guerra civil, Damasco vendia nada desprezível $4 bilhões anuais em petróleo – um terço do orçamento do governo.

A Síria é muitíssimo mais importante como uma encruzilhada de energia [3], mais ou menos como a Turquia, mas em menor escala. O ponto chave é que a Turquia precisa da Síria para atender sua estratégia de energia. [4]

A parte síria no Oleogasodutostão inclui o gasoduto AGP (Arab Gas Pipeline), do Egito a Trípoli e o IPC, de Kirkuk, no Iraque, a Banyas – ocioso desde a invasão, pelos EUA, em 2003.

A peça central da estratégia de energia da Síria é a “Política dos Quatro Mares” [orig. Four Seas Policy [5]] – conceito introduzido por Bashar al-Assad no início de 2011, dois meses antes do início do levante. É mais ou menos como uma mini usina turca – uma rede de energia que liga o Mediterrâneo, o Cáspio, o Mar Negro e o Golfo.

Damasco e Ancara imediatamente puseram mãos à obra – integrando as grades, unindo-as ao gasoduto AGP e, o que é crucial, planejando a extensão do gasoduto AGP de Aleppo a Kilis na Turquia; o que permitiria uni-lo adiante à ópera perene do Oleogasodutostão [6] Nabucco, supondo que essa dama gorda consiga algum dia cantar (o que absolutamente ainda não é garantido).

Damasco também já se preparava para aproximar-se do IPC; no final de 2010, assinou um memorando de entendimento com Bagdá para construir um gasoduto e dois oleodutos. Mercado-alvo, mais uma vez: a Europa.

Foi quando começou o inferno. Mas mesmo quando os levantes já estavam em andamento, o negócio de $10 bilhões do Oleogasodutostão Irã-Iraque-Síria foi clinchado. Se concluído, transportaria 30% a mais, de gás, que o quase definitivamente condenado projeto Nabucco.

Hei! Aí está o xis da questão: o que alguns chamam de Gasoduto Islâmico contorna (e deixa para trás) a Turquia.

O veredito permanece aberto sobre se esse complexo gambito no Oleogasodutostão pode ser considerado, ou não, um casus belli que explique que Turquia e OTAN ponham-se enlouquecidamente à caça de Assad. Mas não se deve esquecer que a estratégia de Washington no sul da Ásia, desde o governo de Clinton (o marido) sempre foi contornar, deixar para trás, isolar e ferir o Irã por todos os meios necessários.

Ligações perigosas

Damasco com certeza perseguia uma muito complexa estratégia de dois braços – ligando-se simultaneamente com a Turquia (e o Curdistão iraquiano), mas também contornando e deixando para trás a Turquia e incorporando o Irã.

Cobertura em profundidade da violência em escalada na Síria

Com a Síria presa numa guerra civil, nenhum investidor global sequer sonharia em brincar de Oleogasodutostão. Mas, num cenário pós-Assad, todas as opções estão abertas. Tudo dependerá do futuro relacionamento entre Damasco e Ancara, e Damasco e Bagdá.

O petróleo e o gás terão de vir do Iraque, de qualquer modo (além de mais gás, do Irã); mas o destino final do Oleogasodutostão sírio pode ser a Turquia, o Líbano ou a própria Síria – exportando diretamente a partir do leste do Mediterrâneo.

Ancara está definitivamente apostando num governo pós-Assad liderado pelos sunitas, não muito diferente do partido AKP. A Turquia já suspendeu a exploração de petróleo que fazia em parceria com a Síria e está às vésperas de suspender todas as relações comerciais.

As relações entre Síria e Iraque dão-se por dois eixos entre os quais parece haver um mundo a separá-los: com Bagdá e com o Curdistão iraquiano.

Imaginem um governo formado pelo Conselho Nacional Sírio e pelo Exército Sírio Livre: seria definitivamente oposto a Bagdá, sobretudo em termos sectários; sobretudo, o governo de maioria xiita de al-Maliki vive em bons termos estratégicos com Teerã; nos últimos tempos, também com Assad.

As montanhas alawitas [7] comandam as estradas do Oleogasodutostão sírio na direção dos portos de Banyas, Latakia e Tartus no Mediterrâneo leste. Há também muito gás ainda por ser descoberto – notícia surgida de recentes explorações em Chipre e Israel [8]. Assumindo que o regime de Assad seja derrubado e empreenda alguma retirada estratégica para as montanhas, multiplicam-se as possibilidades de alguma espécie de guerrilha que sabote os dutos.

No pé em que as coisas estão hoje, ninguém sabe como uma Damasco pós-Assad reconfigurará suas relações com Ancara, Bagdá e o Curdistão iraquiano – para nem falar de Teerã. Mas não há dúvidas de que a Síria continuará a jogar o jogo do Oleogasodutostão.

O enigma curdo

Quase todas as reservas de petróleo sírias estão no nordeste curdo – geograficamente, entre Iraque e Turquia; o resto está ao longo do Eufrates, rumo ao sul.

Os curdos sírios são 9% da população – cerca de 1,6 milhão de pessoas. Embora não sejam sequer minoria considerável, os sírios curdos já perceberam que, aconteça o que acontecer num ambiente pós-Assad, eles estão muito bem posicionados no Oleogasodutostão, oferecendo via direta para exportações de petróleo do Curdistão iraquiano, em teoria contornando e deixando para trás ambas, Bagdá e Ancara.

É como se toda a região estivesse jogando um Bingo de Quem Contorna (e deixa para trás) Quem [9]. Na medida em que se possa dizer que o Gasoduto Islâmico contorna (e deixa para trás) a Turquia, um negócio direto [10] e ntre Ancara e o Curdistão iraquiano para construir dois oleogasodutos estratégicos de Kirkuk a Ceyhan pode também ser interpretado como contornar (e deixar para trás) Bagdá.

Bagdá, é claro, resistirá – destacando que os dutos são nada, vazios e inoperantes, a menos que o governo receba a parte que lhe cabe: afinal, pagam 95% do orçamento do Curdistão iraquiano.

Os curdos, tanto na Síria como no Iraque, têm jogado com grande esperteza. Na Síria, não confiam nem em Assad nem no Conselho Nacional Sírio. O Partido PYD – ligado ao PKK – diz, do CNS, para desqualificá-lo, que não passa de fantoche da Turquia. E o Conselho Nacional Curdo [ing. Kurdish National Council (KNC)] teme a Fraternidade Muçulmana Síria.

Assim, a maioria absoluta dos cursos sírios têm-se mantido neutros: não apoiam os fantoches turcos (ou sauditas); todo o poder à causa pan-curda. Salih Muslim Muhammad, líder do PYD, resumiu tudo: “O que interessa aos curdos é afirmar nossa existência”.

Isso significa, essencialmente, mais autonomia. Exatamente o que obtiveram do acordo assinado dia 11 de julho em Irbil, sob os auspícios do presidente do Curdistão iraquiano Masoud Barzani: o Curdistão sírio coadministrado pelo PYD e pelo Conselho Nacional Curdo. Foi consequência direta de o regime Assad ter optado por uma esperta retirada estratégica.

Não surpreende que Ancara esteja em surto de pânico. [11] – Ancara vê não só o PKK encontrando paraíso seguro na Síria, hospedado pelos primos do PYD, mas vê, também dois semiestados curdos, de facto, que emitem poderosos sinais na direção dos curdos na Anatólia.

Para minimizar esse pesadelo, Ancara poderia ajudar economicamente os cursos sírios, muito discretamente – de ajuda humanitária a investimentos em infraestrutura – usando para isso suas boas relações com o Curdistão iraquiano.

Na visão de mundo de Ancara, nada se pode interpor no caminho de seu sonho de tornar-se a ponte essencial de energia entre Ocidente e Oriente. Implica relações extremamente complexas com nada menos que nove países: Rússia, Azerbaijão, Geórgia, Armênia, Irã, Iraque, Síria, Líbano e Egito. 

Quanto ao mundo árabe em geral, já desde antes da Primavera Árabe discutia-se seriamente um Oleogasodutostão árabe para unir ligasse Cairo, Amã, Damasco, Beirute e Bagdá. Pode fazer mais para unificar e desenvolver um novo Oriente Médio que qualquer “processo de paz”, “mudança de regime” ou levante pacífico ou super militarizado.

Nessa delicada equação, o sonho de um Grande Curdistão volta à cena. E os curdos podem ter boas razões para otimismo: muito em silêncio, Washington parece apoiá-los, numa aliança estratégica absolutamente sem alarde.

Claro que os motivos de Washington não são exatamente altruístas. O Curdistão iraquiano comandado por Barzani é ferramenta valiosa para que os EUA mantenham um pé militar no Iraque. O Pentágono jamais admitirá, mas já há planos avançados para a instalação de uma nova base militar dos EUA no Curdistão iraquiano – ou para transferir para o Curdistão iraquiano a base da OTAN atualmente em Incirlik.

Essa é um dos mais fascinantes subtramas da Primavera Árabe: os curdos encaixam-se perfeitamente no jogo de Washington em todo o arco do Cáucaso ao Golfo.

Mais de um executivo da Chevron e da British Petroleum já devem estar babando, ante as possibilidades que se abrem, das triangulações entre Iraque, Síria e Turquia, com vistas a um Oleogasodutostão. E, claro, muitos curdos também salivam abundantemente, só de pensar quantas portas o mesmo Oleogasodutostão abre, para um Curdistão Expandido.
 
Notas de rodapé
 
 
[2] Orig. I went down to the crossroads. É verso de “Cross Road Blues”, Robert Johnson [1911-1938], pode ser lido em tradução ruim e ouvido cantado pelos The Doors
 
[3] 8/3/2012, OilPrice, em: Don’t Factor Syrian Oil into Market Jitters
 
[4] 6/8/2012, EKEM – European Energy Policy Observatory, em: “Syria's Energy Future After the Upheaval
 
[5] 6/1/2011, UPI, em: Syria’s Assad pushes 'Four Seas Strategy” 
 
[6] 1/10/2009, Pepe Escobar, Truthout, em: Jumpin’Jack Verdi, Its a Gas, Gas, Gas
 
[7] 12/10/2011, Al Jazeera, Nir Rosen, em: “Assad's Alawites: An entrenched community
 
[8] 11/6/2010, Haaretz, Gal Luft em: A geopolitical game changer
 
[9] 2/8/2012, OilPrice, Daniel j. Graeber, em: Kurds Hold the Aces in Iraqi Oil Sector
 
[10] 11/7/2012, Iraq Oil Report, Ben Lando & Staff, em: Kurdistan begins independent crude exports
 
[11] 2/8/2012, Today’s Zaman, Servet Yanatma, em: Drills aimed at PYD under way, US cautions against intervention

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Entrevista de Bashar al-Assad à televisão alemã

           
Jürgen Todenhöfer, rede ARD (Alemanha), programa Weltspiegel 
 
Jürgen Todenhöfer: Sr. Presidente, membros da oposição e políticos ocidentais têm dito que o senhor é o principal obstáculo à paz na Síria. O senhor estaria disposto a renunciar à presidência, sendo essa condição para a paz e para pôr fim ao banho de sangue?

Presidente Bashar al-Assad: Não posso fugir ao desafio que a Síria enfrenta hoje.Hoje a Síria enfrenta um desafio à própria nação. O presidente não pode fugir. Por outro lado, ninguém pode permanecer na presidência sem apoio popular. A resposta à sua pergunta não pode vir de mim. Tem de vir do povo sírio, essa resposta tem de ser resposta pública, que venha em eleições. Eu posso decidir concorrer ou não concorrer a eleições, mas não posso decidir ficar na presidência ou deixá-la. Essa é decisão que cabe ao povo sírio, em eleições.


Jürgen Todenhöfer: O senhor ainda tem maioria de apoio popular na Síria?


Presidente Bashar al-Assad: Se eu não tivesse apoio popular, não poderia permanecer na posição onde estou. EUA estão contra mim, o ocidente está contra mim, muitos poderes e países regionais estão contra mim. Se o povo estivesse contra mim, já não estaria na posição em que estou. A resposta é sim, claro que tenho apoio popular. Porcentagens não sei, nem interessam. Mas não há dúvida de que, para permanecer na presidência da Síria, na situação que a Síria enfrenta hoje, sim, é claro que tenho apoio popular.


Jürgen Todenhöfer: Assisti a algumas demonstrações pacíficas, mesmo em Homs. Não é legítimo que as pessoas exijam mais liberdade, mais democracia, menos poder nas mãos de uma família que governa o país, menos poder para os serviços secretos?


Presidente Bashar al-Assad: Para responder corretamente, temos de corrigir essa pergunta. Na Síria não há “família que governa o país”. Temos Estado na Síria, temos instituições, talvez não instituições ideais, mas temos Estado e não há “família que governa o país”. Temos Estado na Síria. Isso, quanto à pergunta. Agora, posso responder à primeira parte de sua pergunta: é claro que aqueles manifestantes têm direito legítimo de se manifestar. Mas não é verdade que os manifestantes só peçam ‘liberdade’. A maioria dos manifestantes legítimos pedem reformas, maior participação no poder e no governo. Essas reivindicações são legítimas, evidentemente, em qualquer lugar do mundo. Mas a maioria do povo sírio não está nas manifestações. Mas, sim, claro, as manifestações são legítimas.

Ou acabamos com as fronteiras ou as fronteiras acabarão com a humanidade


São mais de 30 milhões de curdos cujo território foi esquartejado pelos colonialistas e dividido entre 5 paises.

Repito: enquanto não se acabar com as fronteiras físicas a humanidade não terá salvação.

Os exemplos são muitos e em todos os continentes.

Temos quatro nações invadidas e ocupadas ( Iraque, Líbia, Afeganistão e Palestina), isto para citarmos as mais conhecidas.

Se formos nos ater ao Oriente Médio teremos ainda curdos e drusos que buscam um lugar ao sol.

Se os curdos reivindicarem seu território, eles terão que enfrentar iraquianos, iranianos, sírios e armênios.

Se os drusos seguirem o exemplo dos curdos, terão de enfrentar libaneses, sírios e israelenses.

Esse é o resultado da geografia imposta pelos colonialistas.

E não podemos esquecer também os saharauis, habitantes do ex-saara espanhol, ocupado pelo Marrocos.

Todos esses povos lutam para reconquistar seus antigos territórios milenares, com pouca repercussão, infelizmente.

Por isso insisto no fim das fronteiras físicas.

Elas, apenas elas, são e sempre foram as responsáveis pelas guerras desde a aurora da humanidade.

Se nenhuma outra fronteira prevalece, por que insistir na física?

Já está mais do que na hora a humanidade se antecipar.

Ou a humanidade acaba com as fronteiras ou as fronteiras acabarão com a humanidade.

Perguntem as aves

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Presidente da Síria acusa estrangeiros de incitarem violência no país

Presidente da Síria acusa estrangeiros de incitarem violência no país 
"O inimigo está hoje entre nós, utilizando agentes internos como meio para desestabilizar a pátria, a segurança dos cidadãos e explorando os nossos recursos econômicos e científicos", disse Bashar Al Assad.

Agência Brasil - O presidente sírio, Bashar Al Assad, disse hoje (1º) que há agentes internos que ajudam "inimigos estrangeiros a desestabilizar o país". Desde março de 2011, oposicionistas ao governo insistem na renúncia de Assad em defesa de mais liberdade política e do fim das violações de direitos humanos. A estimativa de organizações não governamentais é que mais de 19 mil pessoas tenham morrido na região devido à intensa onda de violência que vai completar 17 meses. 
 
"As Forças Armadas travam uma batalha heroica e crucial, da qual depende o destino do nosso povo e da nossa nação, porque o inimigo está hoje entre nós, utilizando agentes internos como meio para desestabilizar a pátria, a segurança dos cidadãos e explorando os nossos recursos econômicos e científicos", disse Assad.

Ele discursou durante a revista do Exército, no 67º aniversário das Forças Armadas. Assad disse ainda que as Forças Armadas são o "escudo da pátria" contra "conspirações de bandos de criminosos e terroristas". “O Exército é motivo de orgulho e um defensor das causas justas”, sintetizou.

Segundo o presidente, o povo sírio provou não se deixa "domar" facilmente pelos "enredos" estrangeiros. "Quiseram confiscar do povo a decisão, mas foram surpreendidos por um povo orgulhoso que desafia seus planos”, ressaltou ele.

Do Brasil247

segunda-feira, 30 de julho de 2012

O atentado na Bulgária: “Tudo indica operação da Al-Qaeda” (não do Hezbollah)

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Gareth Porter
Se se acompanha a cobertura na mídia noticiosa dos EUA do atentado à bomba em Burgas, Bulgária, parece fácil decidir pela responsabilidade do Hezbollah, que se confirmaria por outro plano recentemente descoberto de atentado, que aquele grupo libanês teria planejado contra israelenses em Chipre e noutros pontos. O New York Times cita fontes anônimas, funcionários do governo dos EUA, que teriam dito que o ataque em Burgas teria “todas as marcas registradas” de “atentado executado pelo Hezbollah, inclusive dada a prisão em Chipre, no início do mês de um suspeito de trabalhar como agente do Hezbollah e de planejar atentados contra turistas israelenses”.

Querem dizer então que a prisão de alguém “suspeito” de trabalhar como agente do Hezbollah, do qual se “suspeita” que planejasse matar turistas israelenses, seria prova da atividade de alguém em outro atentado que matou turistas israelenses? Bibi Netanyahu falou sobre o caso ao canal Fox News no domingo à noite, como se o libanês preso em Chipre fosse autor de tudo que foi feito em Burgas, exceto detonar a bomba. E a mesma conversa continua, idêntica, também na mídia-empresa em Israel.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Israel e Turquia: conversa no contrapé


 M K Bhadrakumar*, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

A crise na Síria forçou a liderança israelense a empreender muitos esforços para remendar os laços com a Turquia. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu assumiu pessoalmente a iniciativa.

Benyamin Netanyahu

É muito provável que o movimento dos israelenses tenha tido o apoio dos EUA, porque Netanyahu também se sentiu suficientemente fortalecido dentro da própria coalizão governante para levar avante o serviço. O problema é que a Turquia é casa visivelmente dividida no que tenha a ver com políticas em relação à questão síria. Agora, a bola está na quadra turca.

Na 2ª-feira, Netanyahu recebeu em seu gabinete uma equipe de oito conhecidos jornalistas turcos, em tentativa ambiciosa de quebrar o gelo entre Israel e Turquia. É o primeiro encontro do gênero desde o incidente, em maio de 2010, que envolveu o assassinato de nove agentes turcos por agentes israelenses que tentavam deter o navio turco Mavi Marmara, o qual, por sua vez, tentava romper o bloqueio de Gaza, incidente que lançou em queda livre o relacionamento entre os dois países.


Mavi Marmara

A Turquia expulsou o embaixador israelense, quando Telavive recusou-se a aceitar as exigências turcas, que incluíam um pedido oficial de desculpas pelo incidente, indenização às famílias dos mortos e fim do bloqueio de Gaza. Ankara também congelou toda a cooperação militar e de segurança com e apresentou queixa-crime formal contra os comandantes do exército de Israel.

Hezbolá denuncia guerra de baixa intensidade

270612 hezbollah



O Partido de Deus (Hezbolá) libanês é alvo de uma "guerra de baixa intensidade" liderada pelos Estados Unidos para minar seus princípios mais sagrados, denunciou seu líder, Hassan Nasrallah, em um discurso comentado nesta quinta-feira (26) nos círculos políticos libaneses.

Os principais jornais e canais televisivos do Líbano repercutiram o alerta lançada por Nasrallah durante a diplomação escolar de filhos de membros de sua organização considerados mártires por terem caído no confronto contra Israel.

A emissora de televisão Al-Manar e o jornal As-Safir destacaram a conjuntura na qual o Hezbolá se defende da pressão de Washington e do resto do Ocidente em plena crise na Síria, cujo governo é o principal aliado do movimento xiita no mundo árabe.

"Uma guerra suave está sendo feita contra nós e eles desejam destruir o que nos é sagrado, e o que se nos pedem é que renunciemos a todos (nossos) princípios e crenças", assinalou Nasrallah.

Apontou que "esta é uma guerra liderada pela administração norte-americana e o inimigo israelense é só um combatente nela", mas insistiu a seus seguidores sobre a necessidade de demostrarem determinação para "afugentar a guerra suave e respondê-la".

O também líder espiritual xiita defendeu na quarta-feira uma "resistência cultural e intelectual" para proteger as crenças e a fortaleza de seu partido, ao mesmo tempo em que criticou que em certos meios noticiosos é quase impossível encontrar hoje debates intelectuais.

O Hezbolá, próximo ao governo do presidente sírio, Bashar Al-Assad, que pertence à seita alauita, um ramo do Islã xiita, defendeu a postura de Damasco e advertiu contra qualquer intervenção estrangeira, incluída a libanesa, no conflito do país vizinho.

Os comentários de Nasrallah coincidiram com a publicação hoje no jornal As-Safir de revelações do ministro libanês de Relações Exteriores, Adnan Mansour, sobre uma troca de cartas entre os governos de Damasco e Beirute com alusões a violações fronteiriças.

Segundo Mansour, a chancelaria libanesa recebeu uma carta na qual o Executivo sírio se queixa de tiroteios e infiltrações de homens armados a partir desse território através da fronteira norte, ao mesmo tempo em que o governo local notificou seu homólogo acerca de fatos similares.

O chanceler assegurou que em coordenação com o premiê Najib Mikati e seguindo instruções do presidente Michel Sleiman dirigiu uma carta às autoridades de Damasco solicitando-lhes "evitar a repetição de incidentes fronteiriços", afirmou As-Safir.

Também na segunda-feira, Sleiman acusou a Síria de violar o território libanês depois que uma casa na zona de Líbano Leste foi atingida por uma explosão e obuses de morteiro que caíram na área da fronteira.

Fonte: Prensa Latina

Obs.: Foto  adicionada por este Blog Guerrilheiro Virtual do google.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Síria: “Mudança de regime” e o “poder esperto” [1] de Hillary Clinton

22/7/2012, M K Bhadrakumar*, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

A emergência de Israel, que sai da paisagem de fundo, só pode significar uma coisa: que a crise síria encaminha-se para a fase decisiva. Acenderam-se as luzes no palco de operações, e começou a operação de esculpir a Síria. O que vem por aí não será bonito de ver. O paciente não será anestesiado, e o cirurgião-chefe prefere liderar das coxias, enquanto seus capangas fazem o serviço sujo.

Bashar al-Assad
Até agora, Turquia, Arábia Saudita e Qatar fizeram tudo o que podiam para desestabilizar a Síria e remover de lá o regime chefiado pelo presidente Bashar al-Assad. E Bashar continua vivo. Daqui em diante, só a expertise dos israelenses, para completar o serviço.

Alguém terá de enfiar a faca, bem fundo, nas costas de Bashar. O rei da Jordânia não pode fazer o serviço: mal chega aos joelhos de Bashar. Os xeiques sauditas e quataris, flácidos e gorduchos, não são dados a agitação física. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) prefere ser deixada de fora, depois que queimou os dedos na Líbia, em operação limítrofe com crime de guerra. Sobra a Turquia.

Em princípio, a Turquia tem poder muscular, mas intervenção na Síria é missão de altíssimo risco, e uma das heranças mais duradouras de Kemal Ataturk é que a Turquia evite expor-se a riscos. Além do quê, os militares turcos não estão lá em muito boa forma.

Recep Tayyip Erdogan
O primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan tampouco tem conseguido arrastar a maioria dos turcos na direção de aceitarem fazer guerra contra a Síria. O próprio Erdogan navega águas perigosas, tentando aprovar emendas na Constituição turca que farão dele um verdadeiro sultão – como se o presidente François Hollande da França passasse, de repente, a acumular as funções do primeiro-ministro Jean-Marc Ayrault e de Martine Aubry, presidente do Partido Socialista, além da presidência da França.

Obviamente, Erdogan não porá em risco a própria carreira política. Além do mais, há imponderáveis – uma potencial volta do chicote para dentro da própria Turquia, pela minoria alawita (que ressente o crescimento do salafismo no governo de Erdogan); e o perigo perene de cair numa armadilha armada por militantes curdos.

Al-Jazeera entrevistou um líder alawita na Turquia, semana passada, que manifestou preocupação crescente com o tom cada vez mais sectário da disputa interna na Síria, inspirada por sunitas salafistas. Temem um levante salafista dentro da Turquia. Para os alawitas turcos, Assad “tenta manter coesa uma Síria pluralista e tolerante”.

Planos de contingência

Mas tudo isso se vai tornando irrelevante. Na 6ª-feira, o New York Times noticiava, citando funcionários do governo em Washington, que o presidente Barack Obama dos EUA “está aumentando a ajuda aos rebeldes e redobrando esforços para construir uma coalizão de países com pensamento assemelhado ao dos EUA, para derrubar à força o governo [da Síria]”. [2]

Noticiava também que agentes da CIA que estão no sul da Turquia “já há várias semanas” serão mantidos na missão de criar cada vez mais violência contra o regime sírio. Enquanto isso, EUA e Turquia também estão trabalhando juntos para implantar um “governo provisório pós-Assad” na Síria.

Na mesma direção, líderes da Fraternidade Muçulmana proscrita na Síria organizaram um conclave de quatro dias em Istambul para criar “um partido islâmico”. “Estamos prontos para a era pós-Assad, temos planos para a economia, as cortes de justiça, a política” – anunciou o porta-voz da Fraternidade Muçulmana.

Diz o New York Times que Washington mantém-se em íntimo contato com Ankara e Telavive, para discutir “uma ampla gama de planos de contingência” sobre “como administrar um colapso do governo sírio”.