A
iminência de uma derrota histórica na cidade que consideravam sua
reserva de mercado tem levado alguns observadores a fazer um trabalho
vergonhoso em defesa da candidatura de José Serra à prefeitura de São
Paulo.
Em
vez de defender José Serra, o que seria natural na reta final da
eleição, eles procuram levantar o fantasma da ameaça de um avanço da
hegemonia do PT no país inteiro. Enquanto acreditavam que seu candidato
era favorito, diziam que a polarização política era ótima, que o
conflito ideológico ajudava
a formar a consciência do eleitor. Mas agora, diante de pesquisas
eleitorais constrangedoras, querem mudar o jogo de qualquer maneira.
É um comportamento arriscado e pode ser contraproducente. Do
ponto de vista democrático, o PT só chegou ao poder de Estado, em
qualquer instância, pelo voto direto. Bem ou mal, é o único dos grandes
partidos brasileiros – já existentes na época — que pode exibir essa
condição.
Claro
que você pode discutir a recusa em votar em Tancredo Neves, em 1984.
Pode dizer que foi radicalismo, esquerdismo, sei lá. Mas é possível
reconhecer que naquele momento da transição os petistas defenderam um
princípio de respeito à vontade popular que vários adversários – por uma
esperteza que em vários casos pouco tinha a ver com patriotismo
desinteressado – logo iriam trocar por um cargo no ministério.
Essa
postura conservadora contra Haddad retoma os velhos fantasmas do
perigo vermelho, tão primitivos como tantas mitologias de quem saiu
colonizado pelos anos de Guerra Fria. Reflete um medo aristocrático de
quem imaginava que tinha transformado São Paulo em seu quintal eleitoral
e agora se vê sem respostas para as grandes parcelas da população.
Depois
de criticar o PT pelos Céus de Marta Suplicy, a campanha tucana fala em
Céus do Serra. Depois de criticar o bilhete único, o PSDB aderiu a ele.
Criticou Haddad pelo bilhete único mensal, mas agora lançou sua própria
versão do mesmo bilhete. Depois de passar a campanha pedindo que a
população tivesse pena de Gilberto Kassab, nossos analistas descobrem
que o continuismo não está com nada e, para não perder embalo, dizem que
é uma tendência para 2014 e já ameaçam Dilma.
Levantar
o fantasma de um perigo difuso e ameaçador é um dos mais conhecidos
truques da comunicação moderna. Revela desprezo pelo conhecimento e pela
inteligência do eleitor, procurando convencer a população com
argumentos inconscientes, de natureza emocional.
A
postura pode ser resumida assim: quando não dá mais para falar em bolo
nem em brioches, como fez Maria Antonieta diante da plebe rude, vamos
para lágrimas e o sentimentalismo.
O
pensamento aristocrático e conservador do século XIX, quando a
aristocracia descobriu que o voto popular poderia produzir resultados
desagradáveis e inesperados, foi construído assim. Pensadores como
Gustave Le Bon afirmavam, literalmente, que a multidão “ou não
conseguia raciocinar, ou só conseguia racionar de forma errada.”
O
truque principal, nesse comportamento, era evitar referências claras e
diretas. Por motivos fáceis de explicar, nunca se diz: perigo de quê?
Por quê?
Grita-se: “eu tenho medo,” como fez Regina Duarte, em 2002. Mas pelo menos ela tinha sido a namoradinha do Brasil…
Como bem lembrou Fernando Rodrigues, a partir de 1994 o PSDB tornou-se um partido rico e poderoso.
Deixou
essa condição, pela vontade livre e direta do eleitorado. Em nenhum
momento o PSDB deixou de ter colunistas e articulistas de pena amiga
para descrever suas virtudes perante à população, com uma generosidade
jamais exibida em relação a nenhum outro adversário.
A
dificuldade é que, em sua passagem pelo poder federal os tucanos não
deixaram nenhuma recordação duradoura na defesa dos mais pobres e dos
assalariados em geral. Foi por isso que perderam três eleições
consecutivas, sem jamais exibir concorrentes competitivos.
Em
2002, quando o governo de FHC chegou ao fim, sua popularidade era
negativa. A inflação passara dos dois dígitos, o desemprego havia
disparado, a economia estava num abismo financeiro e é claro que, já
então, culpava-se o perigo vermelho por isso.
Quanto
aos métodos de governo, não sejamos ingênuos nem desmemoriados. Se
você não quer usar a palavra aparelhamento, poderia falar, então, em
engaiolamento tucano.
É um sistema realmente eficiente, já que, em quatro anos, promoveu:
- mudanças nas regras eleitorais estabelecidas pela Constituição;
- um esquema conhecido como mensalão, matriz dos demais;
- um procurador geral da República dos tempos de FHC era conhecido como “engavetador”geral da República;
Embora
goste de lembrar que o PT votou contra o Plano Real assinado por Itamar
Franco, o PSDB prefere esquecer que, ao retornar ao governo de Minas
Gerais, o ex-presidente rompeu com FHC e chegou a mobilizar a PM para
impedir que Brasília privatizasse a usina de Furnas.
Foi
para tentar derrotar Itamar, político muito popular no Estado, que o
PSDB inventou o mensalão de Marcos Valério, colocando de pé um esquema
que arrecadou mais de R$ 200 milhões para as agências ligadas ao
esquema. Nem assim o esquema funcionou e, como acontece nas democracias,
venceu o candidato que era melhor de voto.
Mesmo
derrotado – a democracia tem disso, né, gente? – o PSDB empurrou a
dívida do esquema com a barriga, com ajuda de verbas liberadas – olha a
coincidência ! – pelo mesmo cofre do Visanet. Quando Aécio recuperou o
governo de Minas, Valério voltou a ser premiado com novos recursos,
informa Lucas Figueiredo, no livro O Operador. Conforme
demonstrou a CPI dos Correios, dirigida por aliados do PSDB, havia
farta distribuição de recursos públicos na campanha tucana.
Num lance de peculiar ousadia, foram retirados R$ 27 milhões da própria Secretaria da Fazenda do Estado.
A
verdade é que o mensalão mineiro foi feito com tanta competência – ou
seria melhor empregar o termo periculosidade? – que jamais foi
descoberto. Até surgiram denúncias, mas elas nunca foram investigadas.
Chegou-se
ao mensalão mineiro por causa do braço petista de Marcos Valério. Se
não fosse por ele, nem saberíamos que teria existido.
Isso
é que engaiolamento, vamos concordar. Funciona mesmo depois que o PSDB
deixou o poder. Enquanto o Supremo condena o mensalão petista com
argumentos deduzidos e não demonstrados, os tucanos seguem no pão de
queijo. Ninguém sabe, sequer, quantos serão julgados. Nem quando.
Agora
vamos reconhecer: Fernando Haddad assumiu a liderança folgada nas
pesquisas como um bom candidato deve fazer. Veio do zero, literalmente, e
ganhou eleitores na medida em que tornou-se conhecido.
O
apoio de Lula não é importante, apenas, porque lhe garante um bom
patamar de votos. Essa é uma visão eleitoreira da política. Esse apoio
mostra que é um candidato com origem e história e isso é importante. Dá
uma referência ao eleitor.
Num
país onde os sábios da década passada adoravam resmungar com frases
feitas sobre a falta de partidos “legítimos”, com “história”, com
“programa,”etc, é difícil negar que o PT fez sua parte. Você pode até
achar uma coisa detestável. Pode dizer que o PT é um partido anacrônico,
que “traiu o discurso ético” e só faz mal ao país. Mas tem de admitir
que não é Haddad, como Dilma já mostrou em 2010, quem tem problemas com a
própria história.
E
isso, na construção de uma democracia, é um bom começo. Falta, agora, a
outra parte. Caso as urnas confirmem o que dizem as pesquisas de
intenção de voto, a vitória de Haddad só irá demonstrar a dificuldade
da oposição em mostrar que poderia fazer um governo melhor.
O debate político é este. O resto é propaganda.
http://colunas.revistaepoca.globo.com/paulomoreiraleite/2012/10/23/pavor-aristocratico-na-reta-final/
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