Guerrilheiro Virtual

sexta-feira, 6 de julho de 2012

QUANDO O EXTRAORDINÁRIO ACONTECE

Por Saul Leblon

“Uma das dimensões transformadoras desta crise é romper a esférica blindagem política da qual se valeu o sistema financeiro para impor supremacia devastadora à economia e ao imaginário da sociedade.

Por razões intrínsecas ao desenvolvimento capitalista, nenhum poder é tão organizado quanto o do dinheiro a juro. Ramificação local e escopo planetário lhe dão a prerrogativa de conduzir e induzir a "globalização" e, desse modo, os mercados nacionais.

Institutos de pesquisas, universidades, jornalistas e partidos adestrados à sua lógica cuidam de reproduzir localmente hegemonia que subordina governos, mercados e visões de mundo ao interesses rentistas. Tudo revestido pelo cimento midiático, que faz esses parecerem extensão dos interesses gerais de toda sociedade.

A fraude recém-descoberta no cálculo da "Libor" abre uma trinca adicional nesse lacre de muitas camadas. Embora noticiada como falcatrua técnica, na realidade ela autoriza questionamentos de amplitude e gravidade estruturais que extrapolam a reputação do “Barclays” -
um dos seis maiores bancos do mundo, pego com a mão na cumbuca da manipulação de taxa de juro em benefício próprio.

A "Libor", grosso modo, é obtida da média dos juros cobrados em empréstimos interbancários (entre bancos) na praça de Londres. Direta ou indiretamente, influencia vasto leque de operações em todo o planeta.


O que se descobriu agora é que o “Barclays” informava taxa inferior a que de fato pagava para obter caixa junto a outras instituições. A manobra deliberada visava a reduzir sua despesa com produtos financeiros vendidos a milhares de investidores, pelos quais pagava juros atrelados à própria "Libor".


A fragilidade intrínseca a esse sistema de formação de taxas de juros, que concede à parte interessada de um contrato o direito de determinar variáveis que afetam os dois lados, não é estranha ao Brasil. Aqui, a taxa básica de juros, a "Selic", que remunera os títulos do governo, foi definida até muito recentemente com base na quase exclusiva opinião dos grandes agentes do mercado financeiro --
diretamente interessados em robustecer o rendimento das carteiras de renda fixa de portifólios para os quais trabalham.

No caso da "Libor", é preciso lembrar que ela definiu parte substancial do pagamento de juros da dívida externa brasileira durante décadas. Significa que o país endividou-se e quebrou nos anos 80, ademais de rastejar na década seguinte, submetido à hemorragia de gastos com juros flutuantes, potencialmente manipuláveis pelos principais interessados em sangrar o país: os bancos credores. Se o “Barclays” o fez agora para baixo, por que o mesmo não pode ter ocorrido com sinal invertido no passado?


Entre os anos 70 e 90, o Brasil desembolsou cerca de US$ 280 bilhões em juros e amortizações pagos aos seus credores. Mais de US$ 220 bilhões desse total foram pagamentos feitos entre 1980 e 1990, ao final dos quais a dívida ainda era superior a US$ 120 bilhões e não parava de crescer.

Em 1982, o Brasil quebrou; as torneiras dos bancos se fecharam. Restava o socorro do FMI. As "cartas de condicionalidades" assinadas para ter acesso a esses recursos--destinados a pagar juros -- deflagraram espiral de arrocho salarial e cortes de gastos públicos que dizimaram a capacidade de crescimento da economia. Tornariam o país refém ainda mais vulnerável do sistema financeiro internacional. Qualquer semelhança com o martírio vivido hoje pelas sociedades grega, espanhola, portuguesa, entre outras, não é coincidência, mas reprodução da mesma lógica. O Brasil, tampouco, foi exceção nas mãos dos então responsáveis pela definição da "Libor".

Cálculos do economista Pierre Salama sugerem que, na crise da dívida externa dos anos 80, o FMI impôs aos países pobres e em desenvolvimento um programa de arrocho que resultaria em transferências de recursos, na forma de juros e amortizações, de gravidade e volume superior às reparações de guerra impostas à Alemanha pelo Tratado de Versalhes. Desse ovo da serpente chocado ao final da Primeira Guerra, surgiria o nazismo.

Há 20 anos, quem duvidasse da lisura no cálculo da "Libor" era olhado com a mesma desfaçatez hoje dirigida aos que advogam o controle estatal sobre o sistema financeiro, como requisito para superação da crise mundial. O jornalista e escritor Bernardo Kuscinki foi para a Inglaterra em 1991 fazer seu pós-doc munido de um projeto singular: investigar a hipótese de que a taxa "Libor" estava sendo manipulada em prejuízo dos países devedores.


Antes de viajar, consultou um economista brasileiro que referendou suas suspeitas: '
Todo mundo sabe que existe a 'hora do Brasil' no mercado interbancário de Londres', ou seja, a hora de definir a lasca anual a ser extraída do lombo do país, ajustando-se a "Libor" para esse fim. Na City londrina, Kuscinski procurou especialistas para encorpar seu projeto. Foi recebido com risos e desdém. Desistiu e escolheu outro tema. Os fatos, agora, demonstram que a sua hipótese não era leviana.”

FONTE: escrito por Saul Leblon no site “Carta Maior” (http://www.cartamaior.com.br/templates/postMostrar.cfm?blog_id=6&post_id=1028)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

”Sendo este um espaço democrático, os comentários aqui postados são de total responsabilidade dos seus emitentes, não representando necessariamente a opinião de seus editores. Nós, nos reservamos o direito de, dentro das limitações de tempo, resumir ou deletar os comentários que tiverem conteúdo contrário às normas éticas deste blog. Não será tolerado Insulto, difamação ou ataques pessoais. Os editores não se responsabilizam pelo conteúdo dos comentários dos leitores, mas adverte que, textos ofensivos à quem quer que seja, ou que contenham agressão, discriminação, palavrões, ou que de alguma forma incitem a violência, ou transgridam leis e normas vigentes no Brasil, serão excluídos.”