Calderón viajou para Monterrey para liderar um ato midiático em que chamou de "terroristas" os criminosos que atearam fogo no cassino repleto de gente e exigiu novamente que seja aprovado o seu projeto de lei de segurança nacional.
A reportagem é de Gerardo Albarrán de Alba, publicada no jornal Página/12, 27-08-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
A morte no México milita nos grupos de mão dura, da intolerância oficialista e da criminalização social. O terrorismo se instalou por decreto presidencial como moeda de troca para pressionar o Poder Legislativo a aprovar sua proposta de lei de segurança nacional.
Isso já é barbárie. Pelo menos 53 pessoas foram assassinadas na quinta-feira na cidade de Monterrey, porque aparentemente os donos de um casino não quiseram pagar uma extorsão a um grupo criminoso, mas também não quiseram pagar pelas licenças municipais para operar legalmente, e a casa de jogo incendiada se converteu em uma armadilha mortal para uma clientela composta principalmente por mulheres, que fiquei presa em um local com saídas de emergência bloqueadas. A maioria das vítimas morreu por asfixia. E sobre esses mesmos 53 cadáveres se escreve uma nova página escabrosa de uma guerra contra o narcotráfico que já custou mais de 50 mil mortos em pouco menos de cinco anos.
Para o presidente Felipe Calderón, o ataque ao casino foi um ato de "verdadeiro terrorismo", e ele declarou três dias de luto nacional. Mais prudente, o presidente dos EUA, Barack Obama, qualificou o ocorrido de "brutal". Calderón viajou para Monterrey para liderar um ato midiático em que chamou de "terroristas" os criminosos que incendiaram o cassino repleto de pessoas e exigiu novamente que os deputados da oposição aprovem seu projeto de lei de segurança nacional.
O incêndio do Casino Royale, em Monterrey, se soma a uma série de acontecimentos que exacerbaram a percepção sobre a violência no México, como o tiroteio na porta de um estádio de futebol no sábado, 20, em Torreón, durante uma partida da primeira divisão mexicana, que milagrosamente não causou vítimas, porque o estádio teve uma fraca participação. Ambos os eventos inflamaram no norte do país o discurso oficialista, que exige que se dote o Exército e a Marinha de um quadro legal para justificar a militarização que, de fato, já ocorre no México. Há dois dias, em Veracruz, sobre a costa do Golfo do México, duas pessoas foram presas, acusadas de terrorismo por difundir ameaças de bomba através do Twitter.
Calderón aproveitou para redobrar sua campanha midiática e impregnar na sociedade a mensagem de que o México já está sob fogo terrorista e, com isso, construir a percepção de que é necessária uma lei de segurança nacional que abra a porta à militarização do Estado mexicano portanto, pois pretende outorgar às forças armadas a capacidade de investigação, atribuição para deter supostos delinquentes, realizar buscas sem ordem judicial, intervir em investigações prévias e solicitar à autoridade judicial as intervenções de comunicações privadas.
De algum modo, a mensagem permeou, e isso assusta: jovens entre 15 e 19 anos apoiam o endurecimento do governo, a tortura e até mesmo a aplicação da pena de morte contra delinquentes no México, de acordo com uma pesquisa divulgada nesta semana pela UNAM. Pior ainda, os jovens se dizem dispostos a perder sua liberdade, a fim de garantir sua segurança.
De nada serviram as marchas, protestos, críticas, chamados, súplicas ou exigências para que se mude a estratégia da luta contra o crime organizado. Os mais de 50 mil mortos deixados pela administração de Calderón são estatísticas e pretexto para um discurso oficial aferrado em se apoiar nas forças armadas. O que muitos se perguntam é qual é a intenção real. A apenas 15 meses de que Calderón tenha que deixar o cargo, para quê?
"Calderón já se foi", clama o deputado Manuel Clouthier, do situacionista Partido de Ação Nacional. O legislador pelo estado de Sinaloa, sede de um dos cartéis da droga mais poderosos e impunes, em que somente ontem um jornalista foi assassinado, acusou Calderón de não ter sido capaz de resolver o problema do narcotráfico, nem muito menos a violência. Mais grave ainda, acusou o governo de Calderón de proteger o cartel de Sinaloa e combater outros grupos criminosos que lhe fazem concorrência.
Essa versão, assinalada também por outras fontes, é reforçada pela tomada de decisões e estratégias que o governo de Calderón deixou nas mãos dos Estados Unidos, que cada vez mais intervém de forma direta no território mexicano através da CIA e de mercenários que se alojam em uma base militar mexicana, como parte da Iniciativa Mérida, uma cópia do Plano Colômbia, que significou a intervenção militar norte-americana nesse país sul-americano.
De acordo com uma versão divulgada no início do mês pelo jornal The New York Times, a incapacidade do governo de Felipe Calderón de enfrentar o crime organizado afundou o México em um cenário semelhante ao do Afeganistão, de onde o novo embaixador dos EUA, nomeado pela Casa Branca, chegou recentemente. Os mais otimistas comparam o México de hoje com a violência que devastou a Colômbia há 15 anos. Na realidade, o discurso de Calderón veste de intolerância a violência e a morte no México.
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