O "bom moço" Fabio Barbosa chega à Abril com poderes editoriais. Terá de optar entre o estilo suave de Eurípedes Alcântara, diretor de Veja, ou a mão pesada do número 2, Mario Sabino. A reportagem deste fim de semana, que, após a tentativa de invasão de um quarto de hotel, traz a revelação "bombástica" de que Zé Dirceu faz política, pode ajudá-lo a decidir
O comunicado de Roberto Civita, dono da Abril, que edita a revista Veja, foi claro e cristalino. O executivo Fabio Barbosa, que suavizou a imagem de bancos como o Real e o Santander com sua fama de “bom moço”, assumirá o comando do grupo com poderes absolutos, inclusive sobre a área editorial – o que inclui Veja. Nessa condição, Barbosa estará diante de um desafio nada desprezível. Nos últimos anos, Veja explicitou sua conduta política – e claramente engajada. Ainda que agrade parte dos leitores, a publicação radicalizou o discurso político no Brasil e passou a despertar reações de amor e ódio – o que não condiz com a postura equilibrada do ex-presidente do Santander.
Neste fim de semana, mais uma vez, Veja circula com uma reportagem polêmica, apontando que o ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu, que é réu no processo do Mensalão, transita entre altas autoridades da República. Em suma, Veja descobriu um segredo de Polichinelo: o de que Dirceu faz política. Para isso, a revista infiltrou um jornalista no hotel Naoum, em Brasília, onde o ex-ministro se hospeda. E ele teria tentado, sem sucesso, entrar no quarto de Dirceu. Quando foi descoberto, saiu do hotel sem fazer seu check-out (leia mais). Essa conduta de “repórter-espião”, que teria cometido um eventual crime de invasão de domicílio, certamente não estaria de acordo com os valores pregados por Fabio Barbosa.
Tal reportagem foi pautada pelo redator-chefe da publicação, Mario Sabino, que ocupa temporariamente o comando de Veja. O diretor, Eurípedes Alcântara, está de férias. E os estilos de ambos são radicalmente opostos. Alcântara é um sujeito dócil, afável. Sabino é a mão pesada da publicação. E as divergências entre ambos são também sintomas de uma disputa de poder interna. Disputa que, vez por outra, deixa sequelas. Há poucas semanas, a revista perdeu um de seus quadros, o editor Felipe Patury, porque este não teria tido liberdade para noticiar a festa promovida pelo advogado Roberto Podval na costa Amalfitana. Insatisfeito com as restrições impostas pela mão pesada de Veja, Patury transferiu-se para a concorrente Época.
A missão de Fabio Barbosa
Por que Roberto Civita teria escolhido um conciliador como Fabio Barbosa para o comando do grupo? Especula-se que uma de suas funções seria recompor pontes com o governo Dilma. Barbosa foi membro do conselho da Petrobras, quando este era presidido pela ex-ministra de Minas e Energia. E é também um homem respeitado pelo PT – tanto que foi cogitado inúmeras vezes para a presidência do Banco Central.
As repercussões da reportagem de Veja deste fim de semana serão cruciais para que Fabio Barbosa tome sua primeira decisão relevante: Eurípedes ou Sabino? Se as denúncias contra José Dirceu se provarem avassaladoras, Sabino terá vencido. Se, além de inconsistentes, tiverem sido fruto de um crime, o número dois da revista poderá começar a arrumar suas gavetas.
A sorte está lançada.
E se Fabio Barbosa quiser um curinga, ele terá no banco de reservas o experiente jornalista Augusto Nunes, colunista de Veja Online, que adoraria assumir uma nova posição de comando na imprensa brasileira.

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