Transferência de diretorias de Brasília para a capital paulista esvazia economia do Distrito Federal; cérebro por trás da mudança é o vice-presidente Ricardo Oliveira, que mora em São Paulo; no Planalto, dirigentes do banco terão que se explicar.
É quente o clima na maior instituição financeira do Brasil. Sem que a presidente Dilma Rousseff tivesse sido minimamente alertada, o Banco do Brasil aprovou uma mudança radical em sua estrutura, que transfere algumas de suas diretorias mais importantes, como a de Marketing e a de Pessoa Jurídica, de Brasília para São Paulo. Tudo foi planejado pelo vice-presidente de Governo, Ricardo Oliveira, que hoje é o segundo homem mais forte do banco, atrás apenas do presidente Aldemir Bendine. Oliveira, que vem de uma família de funcionários do BB, praticamente nasceu no banco e alcançou o segundo posto mais alto da hierarquia da instituição. Ele é paulista, vive em São Paulo, não gosta de viajar a Brasília e foi o principal articulador da mudança. E já que Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé.
Ricardo Oliveira se tornou o homem forte do Banco do Brasil, quase uma eminência parda, em função da proximidade com o ministro Gilberto Carvalho, ainda no governo Lula. Foi ele quem levou a Gilberto a sugestão de que Aldemir Bendine, o “Dida”, assumisse a presidência, em meio à crise internacional. E foi uma escolha acertada, uma vez que Dida teve a coragem de reduzir spreads bancários e elevar a concessão de crédito em plena crise, tomando o espaço de bancos privados – graças a isso, o BB superou o Itaú Unibanco e voltou a ser o maior do País.
Extremamente discreto, Ricardo Oliveira não se deixa fotografar. Até recentemente, o site corporativo do Banco do Brasil exibia fotos dos vice-presidentes, menos a dele. Hoje, não há mais a foto de ninguém, até porque a situação anterior era bastante estranha. E ele, com muita habilidade, vem conseguindo eliminar da diretoria vários nomes que eram ligados ao sindicalismo paulista – em especial, ao ex-presidente da entidade, Ricardo Berzoini. Um exemplo foi a demissão de José Luis Salinas, que era vice-presidente de Tecnologia da Informação por indicação de Berzoini. Portanto, não faz sentido a informação de que a mudança no BB vem sendo conduzida por Berzoini em função de interesses eleitorais em São Paulo, conforme vem sendo plantado na imprensa, uma vez que o ex-presidente do Sindicato dos Bancários perdeu todo o poder que tinha na instituição. O motivo é bem mais prosaico.
Faz sentido?
Em tese, a reestruturação do Banco do Brasil pode até fazer sentido. Na área de marketing, que é comandada pelo diretor Armando Medeiros e irá administrar mais de R$ 450 milhões em 2012, as agências de publicidade e os principais veículos de comunicação estão em São Paulo. Mas todos também mantêm estruturas em Brasília. No caso da vice-presidência de Pessoa Jurídica, as maiores empresas do País também concentram suas sedes em São Paulo. Mas num mundo conectado, e de comunicação rápida, nada impediu que o Banco do Brasil se tornasse o maior do País na concessão de crédito estando em Brasília. Além disso, há não muito tempo, o BB fez questão de concentrar todas as suas diretorias em Brasília, trazendo inclusive setores que eram sediados no Rio de Janeiro, como a área internacional.
Na via contrária, outro grande grupo financeiro, a Caixa Seguros, que é o braço privado da Caixa, administrado pelo grupo francês CNP Assurance, mantém sua sede em Brasília, e faz questão de reforçar sua identidade brasiliense. E, hoje, se alguém perguntar ao governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, que é petista, ou aos bancários de Brasília, quem está melhor na fita – Caixa ou BB – a resposta é óbvia.
Pedido de explicações
A presidente Dilma, que tem perfil controlador, evidentemente, não gostou da mudança. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, também não. E determinou que seu secretário-executivo, Nelson Barbosa, que é membro do conselho de Administração do Banco do Brasil, apurasse o que está acontecendo. Outra ministra que ficou irada foi Gleisi Hoffmann, da Casa Civil. E note-se que ela é casada com o também ministro Paulo Bernardo, que só não é presidente do Banco do Brasil porque não tem diploma de ensino superior – e o estatuto do BB veta que pessoas nessa condição assumam o comando.
Ouvido pelo jornal Correio Braziliense, o vice-presidente Paulo Rogério Cafarelli disse que a mudança é uma questão de sobrevivência, em função da concorrência. Mas o fato é que o BB, nos últimos anos, tem apresentado resultados até melhores do que o de bancos privados, como Itaú, Bradesco e Santander.
O que vários diretores do BB têm dito, sob a condição do anonimato, é que não há risco de uso político do Banco do Brasil nas eleições municipais de 2012 e que todos os laços com Berzoini foram cortados.
Mas o fato concreto é que, ao menos neste caso, Berzoini é inocente.
O Maomé que não vai à montanha é também Ricardo, mas tem outro sobrenome.
Oliveira.
No Brasil 247
Do Blog Contextolivre

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