Guerrilheiro Virtual

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Foi imediatamente claro para mim que os ataques significavam a guerra


Do ODiario.info
Entrevista com John Catalinotto sobre os ataques ao World Trade Center há dez anos e as suas consequências.

1. O 11 de Setembro marcou uma viragem na nossa história recente. Onde estavas na manhã de 11 de Setembro de 2001, quando os aviões colidiram com as torres do World Trade Center?

Nessa altura, eu tinha um emprego a tempo inteiro numa companhia de seguros localizada na Torre nº1 do World Trade Center. O nosso departamento ficava no 31º andar. Oficialmente começávamos às 8:45 e o primeiro avião embateu contra o edifício às 8:48. Tive sorte. O horário era flexível e eu normalmente começava tarde e acabava tarde. Tinha estado a trabalhar até muito tarde na noite anterior e nessa manhã fiquei em casa para acabar a edição de um artigo para o meu jornal, o Workers World, e era o que estava a fazer quando o avião embateu na torre. Muitas vezes caminhava esses cinco quilómetros ao longo do Rio Hudson, desde o meu apartamento em Chelsea até ao WTC. Uma vez que, nessa manhã de terça-feira, estava um lindo dia, com o céu limpo, teria certamente ido a pé.
2. Quando e de que modo tomaste conhecimento do que estava a acontecer?

Às 9:00, justamente quando me preparava para sair, o meu cunhado telefonou-me. Disse ele: «Ainda bem que estás em casa. Trabalhas no World Trade Center, não é verdade?» «Porquê, alguém o mandou pelos ares?», perguntei. Em 1993 houvera uma explosão na Torre nº1 e sempre me desagradara o facto de a companhia se ter mudado para lá, embora a vista sobre o Porto de Nova Iorque fosse magnífica. No início pensei que se tratava de um acidente com um avião pequeno. Até telefonei para o trabalho para saber se deveria ir, mas ninguém atendeu. Quando telefonei a familiares para os assegurar de que estava bem, ouvi na rádio a notícia de que o segundo avião embatera na Torre nº2 e o terceiro no Pentágono. Percebi que isto significaria guerra.

2b. Perdeste familiares ou amigos?

Quase todos, entre os 3 000 mortos, eram pessoas que estavam acima dos andares onde o avião embateu, ou estavam no avião, ou estavam entre os primeiros a responder, entre bombeiros e polícia que estavam nas torres quando estas desabaram. Cerca de 1 800 pessoas trabalhavam na companhia de seguros. Aproximadamente metade chegara já aos escritórios. Morreram 13. Apenas conhecia uma de nome. Tinha de lhe dar algumas informações a cada trimestre. Um dos meus colegas mais próximos estava no exterior a observar o incêndio na Torre nº1 quando o outro avião atingiu a Torre nº2. Uma roda do avião atingiu a senhora que estava ao lado dele e matou-a. O meu colega teve de saltar por cima dela para escapar.
3. Qual foi a tua reacção inicial? Quem pensaste que seriam os responsáveis?

Quando compreendi que não se tratava de um acidente, percebi que a Administração Bush usaria os ataques para justificar a guerra. Telefonei aos meus camaradas no nosso semanário para reunirmos com urgência com o fim de rever o nosso plano para o número seguinte e confrontar o Governo. Pouco importava quem era responsável. Tinha havido ataques ao USS Cole no porto perto de Aden e, antes disso, na Embaixada do Quénia. A maioria das pessoas acreditaria que seriam os mesmos os responsáveis pelos ataques. Entendi que era inevitável que o Governo dos EUA usasse o trauma infligido à população para mobilizar o país para a guerra.

Outra reacção que tive foi o receio de que houvesse mais bombardeamentos. Pelo facto de ter uma interpretação política dos acontecimentos não me tornou imune aos sentimentos que todos partilhavam em Nova Iorque.
3b. Ao longo dos anos, cresceu um “Movimento pela Verdade” que questiona a versão oficial dos ataques em Nova Iorque e Washington, que afirma que os Serviços Secretos dos EUA os aprovaram ou mesmo que estes poderiam ter origem interna. Até que ponto isto é aceite e qual é a tua opinião?

É salutar desconfiar dos círculos do poder norte-americanos e dos média corporativos. Mentem constantemente. São também capazes dos mais abomináveis crimes, como mostraram recentemente no Iraque, no Afeganistão e na Líbia. Assim, muita gente progressista tem mantido reservas sobre as explicações oficiais, que não responderam a todas as perguntas de modo a satisfazer toda a gente. Além disso, houve sempre uma relação complexa entre o imperialismo norte-americano e grupos como a al-Qaida. Washington usou-os contra a União Soviética no Afeganistão e armou-os. No Iraque, a al-Qaida provocou combates entre facções e tornou mais difícil a união da resistência iraquiana. Também foi útil ter a al-Qaida como “inimigo”, numa altura em que não havia nenhum oponente sério aos imperialistas, como era o caso da União Soviética. Mas estes grupos também atacam alvos nos EUA e as forças dos EUA acabaram de executar o líder da al-Qaida. Tomando tudo isto em consideração, poderíamos acreditar que, dentro dos serviços de informação dos EUA, alguém poderia ter tomado conhecimento de que um destes grupos iria levar a cabo um ataque nos EUA, sem nada fazer para o travar.

Creio que há mais pessoas aqui que suspeitam da história oficial, mais do que alguma vez houve. Pessoalmente não creio que tenha sido qualquer tipo de operação elaborada envolvendo largos sectores da máquina secreta do governo. Mais importante que descobrir uma conspiração é analisar o impacto do 11 de Setembro e o modo como foi usado por quem estava no poder para promover a sua agenda de guerra. Acabo de ler a citação de hoje no Junge Welt e li o que disse um antigo embaixador dos EUA na Alemanha: “não sei o que teriam feito se o 11 de Setembro não tivesse acontecido. Ou não teriam feito nada ou teriam que inventar outro pretexto.” Os ataques forneceram aos imperialistas um pretexto para conquistar aquelas partes do mundo que eram vagamente independentes. Mas, mais importante que o 11 de Setembro, foi o facto de não haver uma União Soviética. Seja qual for a avaliação que se faça da União Soviética, a sua própria existência fortaleceu os países do antigo mundo colonial.

Com efeito, a Administração Bush iniciou imediatamente uma guerra no Afeganistão depois do 11 de Setembro e também conspirou imediatamente para lançar a guerra no Iraque. Houve pessoas da equipa de Bush que escreveram livros a denunciá-lo. Bush e Colin Powell e outros mentiram ao público centenas de vezes para justificar a guerra. Está tudo registado. No entanto, o conhecimento desta conspiração não resultou em castigo para o gang de Bush, nem impediu a Administração Obama de fazer a mesma coisa na Líbia.

Vamos ter que nos mobilizar contra as guerras e não apenas contar com a revelação de uma qualquer conspiração e do seu impacto sobre a vontade que as pessoas têm de lutar.
4. No rescaldo do 11 de Setembro, o Presidente dos EUA, George W. Bush, declarou uma interminável “Guerra contra o Terrorismo” e iniciou-a em Outubro com um ataque ao Afeganistão. A “vingança” parecia ter o apoio de uma grande parte dos norte-americanos. Já havia vozes de aviso ou grupos que se recusavam a alinhar na guerra ou que consideravam os ataques uma resposta à política externa dos EUA?

Eu poria as coisas de um modo diferente. A Administração Bush decidiu-se pela guerra. As elites do poder por aqui e os seus média apoiaram a guerra a 100% e muito poucas vozes no Governo ou políticos eleitos se pronunciaram contra ela. Houve então uma aparente unanimidade. No entanto, mesmo naquele momento, foi possível mobilizar pessoas contra esse sentimento. O que parecia estranho era que as pessoas em ou perto de Nova Iorque pareciam estar mais apreensivas e menos vingativas do que noutras regiões do país.

Pessoas de esquerda, na ala anti-imperialista do movimento progressista, pacifistas, algumas pessoas ligadas a igrejas progressistas, juntaram-se para protestar. Houve vigílias nocturnas em Nova Iorque. No final de Setembro, houve uma manifestação de 7 000 pessoas em Washington, dizendo não à guerra no Afeganistão e à utilização dos ataques para pôr o país em armas.
5. Até que ponto era difícil há 10 anos ser contra a “Guerra contra o Terrorismo”? Como é que estas forças pela paz se constituíram? Quem estava envolvido, eram grupos de esquerda, grupos religiosos, familiares, etc?

Não era tão difícil como possas pensar manifestarmo-nos nas ruas. Claro que a princípio apenas alguns grupos estariam dispostos a arriscar ficar isolados. Por outro lado, isto deu uma oportunidade aos grupos anti-imperialistas mais determinados, como o nosso, mesmo pequenos como éramos, para liderar um sentimento de massas honesto que perguntava “por que razão alguém bombardeou os EUA?”, e procurava mesmo saber. Isto podia observar-se quando se estava a preparar o ataque ao Iraque, quando o movimento anti-guerra estava mais forte no que toca aos números.

Houve até familiares das vítimas do 11 de Setembro que protestaram contra o uso, por parte do Governo, destas vítimas para justificar a guerra.
Não houve oposição entre os senadores, como a que houve em 1964, quando os Senadores Ernest Gruening, do Alaska, e Wayne Morse, do Oregon, votaram contra a Resolução de Tonkin Bay que abriu as portas à Guerra do Vietname. Alguns congressistas isolados resistiram, como foi o caso de Barbara Lee, na Califórnia, e Cynthia McKinney, na Georgia. McKinney terminou há pouco uma visita a mais de 20 cidades dos EUA. Discursou em encontros, normalmente com centenas de pessoas, para mobilizar as pessoas contra a guerra da NATO na Líbia.
7. O regime de Bush enviou prisioneiros para Guantánamo, onde viriam a ser torturados, descrevendo-os como muçulmanos “suspeitos de serem terroristas”. Que impacto teve esta brutalização na população norte-americana?

Como muito do que a Administração Bush fez durante os seus oito anos no poder, a prisão de Guantánamo foi um crime. Mas a maior parte daqueles que têm poder e dinheiro neste país não se incomodou com isso. E assim os média relataram a posição do Governo sobre isto. Nenhum movimento de massas se lhe opôs. Apareceram algumas organizações legais progressistas, tais como o Comité para os Direitos Constitucionais, que permitiu aos prisioneiros de Guantánamo terem representantes e lançou apelos legais ao Governo, o que levou a que alguns prisioneiros fossem libertados e à decisão de não realizar julgamentos militares. Obama afirmou que encerraria Guantánamo, mas a prisão ainda está aberta.
8. Pareceu-me que o movimento anti-guerra nos EUA começou a crescer depois de a resistência ter começado no Iraque. Quanto mais soldados morriam no Iraque, maior era a revolta contra as guerras de Bush. Entre as imagens mais importantes da “Guerra contra o Terrorismo” estavam as fotos de Abu Ghraib. Que impacto teve a sua publicação?
As maiores manifestações tiveram lugar antes de a guerra começar, em Janeiro e Fevereiro de 2003. Depois esmoreceu nos primeiros meses da ocupação. Mas houve ainda uma enorme manifestação em Washington em Setembro de 2005, pouco depois do Furacão Katrina ter destruído New Orleans. Este protesto reflectiu o sucesso da resistência iraquiana que deixara em muitos a impressão de que esta seria qualquer coisa como a guerra contra o Vietname. Nessa guerra, o heroísmo dos combatentes de libertação vietnamitas, as baixas significativas entre soldados e o medo de ser mobilizado para a guerra levaram a uma resistência massiva nos campos militares e entre toda a juventude. Também levou a uma resistência ainda mais estratégica entre as tropas de base que começaram a ameaçar a estabilidade do Exército dos EUA. E tudo teve lugar enquanto a luta da população negra pela igualdade e pela libertação estava no seu auge e a inspirar todas as outras lutas.

Na Primavera de 2006, a seguir ao bombardeamento suspeito da mesquita da “cúpula dourada”, a luta entre seitas enfraqueceu a resistência. As baixas entre soldados diminuíram. O movimento anti-guerra dentro de portas, bem como entre as tropas diminuiu, apesar de uma maior percentagem da população assumir a oposição à guerra, como se demonstrou nas urnas.
9. Barack Obama ganhou as eleições de 2008 sob o lema da “mudança”. Prometeu tirar todas as tropas norte-americanas do Iraque e fechar Guantánamo. Nada disso foi feito até agora. A “Guerra contra o Terror” acabou, no sentido em que a Administração Obama deixou de usar a ideia; mas, ao mesmo tempo, o número de tropas norte-americanas no Afeganistão aumentou grandemente e começou uma “guerra de drones” contra o Paquistão. Acreditou em Obama e partilhou a esperança que muitos tinham de que ele mudaria verdadeiramente a política externa dos EUA depois da vitória nas eleições?

Quando a Administração Bush saiu, milhões de pessoas, dentro e fora dos EUA, respiraram de alívio na esperança de que o Imperialismo norte-americano abrandaria as guerras e ocupações. Muitos, nos EUA, esperaram também que a administração democrata de Barack Hussein Obama pelo menos abrandasse o ataque aos direitos e ao nível de vida dos trabalhadores e defendesse os direitos civis da população afro-americana. Os mais de 11 milhões de trabalhadores imigrantes que vivem nos EUA sem documentação legal esperaram que o início da sua legislatura acabasse com o seu estatuto precário.

Certamente que nos EUA, com uma história onde a escravatura e os horrores infligidos às pessoas de descendência africana (e o contínuo racismo) desempenharam papel preponderante, a eleição de um político com um pai africano e um nome muçulmano teve um enorme impacto psicológico e simbólico. Mais de 95% da população negra votou em Obama, tal como mais de 70% dos hispânicos. Os trabalhadores sindicalizados também deram uma clara maioria a Obama.

E no entanto Obama recebeu mais contributos de Wall Street que o republicano John McCain; Obama era perfeitamente aceitável para as classes dominantes. Para os analistas da classe dominante Zbigniew Brzezinski e David Gergen, o registo de Obama no Senado e na política de Chicago tornaram-no um político habilidoso, capaz de fazer com que republicanos centristas e democratas cooperassem e estabelecessem compromissos. Queriam uma frente política unida para enfrentar a crise económica que explodiu no último ano da Administração Bush.

Os círculos do poder na Europa também ficaram satisfeitos com a saída de cena de Bush, já que a Administração Bush, em especial nos primeiros quatro anos, impôs arrogantemente a sua agenda sem considerar os interesses do imperialismo europeu. Os média corporativos europeus deram uma imagem extremamente positiva de Obama. O encontro de massas em Berlim em Julho antes da sua eleição em Novembro foi ainda maior que as concentrações por Obama nos EUA. Antes da sua eleição, a Fundação Nobel até o agraciou nomeando-o para o Prémio Nobel, ainda que ele nada tivesse feito para trazer a paz a qualquer cenário.

Na altura em que foi eleito, mesmo partilhando alguma satisfação pelo facto do programa de Bush ter sido repudiado, e mais ainda pelo facto de ser possível um afro-americano ser eleito presidente, não esperava mudanças de maior na agressiva política externa do imperialismo norte-americano. Mesmo que Obama tivesse sido tão progressista e amante da paz como tantos pretenderam que fosse, ainda assim teria sido um indivíduo isolado nas mãos de poderosas forças de classe. Os bancos, as companhias petrolíferas, o complexo militar-industrial teriam estreitado o leque de opções para qualquer figura política. E ainda mais para Obama que, ao contrário de políticos da classe dominante como Franklin Roosevelt nos anos 30 e John Kennedy, não tinha uma máquina política por sua conta ou ligações à classe dominante que pudesse usar como base para uma política minimamente independente. E mesmo não sendo um lutador pelos direitos civis da população afro-americana, passou a ser imediatamente um alvo para a maior parte das forças racistas e reaccionárias, simplesmente por ser afro-americano.
O Pentágono mostrou que ainda controlava a política de guerra quando, no Verão e no Outono de 2009, a Administração reviu a sua política para o Afeganistão. A meio desta revisão, o General Stanley McChrystal desafiou o presidente por meio de declarações públicas insistindo em que uma “resposta” era absolutamente necessária. Isto puxou o tapete a Obama. O Presidente autorizou um aumento de 100 000 tropas, triplicando assim o número que Bush ali colocara e obtendo em troca apenas um compromisso questionável, por parte do Pentágono, em conforme os EUA começariam a retirar em Julho de 2011. Seja qual for a diminuição do número de tropas que tiver lugar no Afeganistão ou no Iraque, deve-se ao fracasso nas ocupações e no tremendo custo do orçamento nacional, e ainda não teve lugar. Entretanto, sob a Administração Obama, os EUA expandiram a sua intervenção no Paquistão, levaram a cabo ataques de drones em alvos situados no Iémen e na Somália.
A Administração Obama deu mesmo início a outra das guerras da NATO, desta feita em África, contra a Líbia, agora em cooperação com os velhos colonialistas em França, no Reino Unido e na Itália e com a cooperação da Alemanha, ainda que não se trate de participação activa no combate. Também já ameaçou o confronto militar com o Irão e com a República Democrática da Coreia e levou a cabo acções de subversão contra a Venezuela, a Bolívia e o Equador. Obama nomeou o General David Petraeus, do Pentágono, como chefe da CIA. O Pentágono e o complexo militar-industrial mantêm-se no poder.

O movimento anti-guerra ressurgiu depois de alguns anos de estagnação. A 9 de Abril, cerca de 10 000 pessoas marcharam em Nove Iorque, em protesto contra as guerras no Afeganistão e no Iraque e a nova agressão da NATO contra a Líbia. As exigências anti-guerra também fizeram parte dos muitos protestos contra os orçamentos austeros em dezenas de estados e cidades, onde grupos de jovens e trabalhadores instalaram acampamentos, inspirados pelos protestos em massa em Espanha e encorajados pela resistência na Grécia.

Apesar da guerra da NATO contra a Líbia não ter gerado um movimento de massas, é certo que despoletou um corpo de oposição. A antiga representante norte-americana Cynthia McKinney, uma afro-americana que se candidatou a presidente em 2008 pelo Green Party, esteve num tour de 27 cidades norte-americanas organizado principalmente pelo International Action Center, dando a conhecer a verdade a um sector do público. A maioria destas concentrações atraiu entre 200 e 500 pessoas. Muito do apoio proveio da comunidade afro-americana, que conhece a posição de princípio anti-racista e anti-guerra de McKinney, quando ela representou o povo do seu distrito no Congresso, a Georgia.

McKinney foi fortemente crítica de Obama, não apenas em relação à guerra, mas também em relação a problemas económicos que afectam os afro-americanos e os trabalhadores em geral. A sua crítica representa um sentimento mais generalizado entre os negros nos EUA. Ela afirmou que «sob as políticas económicas da Administração Obama, aqueles que menos têm estão a perder mais. E os que mais têm estão a ficar com mais ainda. A situação nos EUA está a ficar mais difícil para os americanos comuns e a última coisa que precisamos é de gastar mais dinheiro na morte, destruição e guerra.»

É difícil falar de forma inteligente acerca da política externa norte-americana nesta altura sem também referir a crise económica capitalista. O desenvolvimento desta crise desde que Obama começou o seu mandato tornou-lhe impossível desempenhar o papel que se esperava que desempenhasse, o de grande contemporizador entre os Partidos Republicano e Democrata. O desemprego duplicou rapidamente em 2009, oficialmente para 10%. Isto traduz-se, na realidade, para mais de 17% de desempregados ou trabalhadores em situação de sub-emprego, 25 a 30 milhões de pessoas. Destes, milhões são desempregados de longa duração e não têm perspectivas. A situação é especialmente dura nas comunidades afro-americana e hispânica, onde o desemprego quase duplica a média nacional, especialmente entre trabalhadores jovens.

Enfrentando uma crise política sem precedentes, os banqueiros e os homens de negócios viraram à direita, tal como na Europa. Os seus políticos espremeram os trabalhadores para resgatar os bancos e manter os lucros. Em vez de negociar com Obama, a minoria republicana bloqueou quaisquer programas de ajuda aos pobres, a não ser que aos ricos dessem dez vezes mais. Elementos abertamente racistas, enfurecidos pela eleição de um negro como presidente, apressaram-se a promover o Tea Party. Concentraram os seus ataques em Obama enquanto pessoa. Pela mais pequena intervenção do Governo a favor dos pobres, para regular corporações ou proteger o ambiente, o Tea Party chamou “socialista” a Obama. Afirmam até que Obama nasceu fora dos EUA. Os média corporativos deram uma ampla e favorável cobertura ao Tea Party. Este teve o seu maior impacto nas ruas protestando contra o programa para a saúde de Obama no Verão e Outono de 2009.

O Tea Party finge ser um movimento de bases, mas obteve o seu mais importante apoio financeiro das mais reaccionárias e racistas figuras da classe dominante, como os milionários irmãos Koch. No Verão de 2011, o Tea Party esteve menos vezes nas ruas, mas mais integrado na direita eleitoral do Partido Republicano. As pessoas que apoiou para o Congresso, eleitas em 2010, foram intransigentemente contra a subida do limite do endividamento em Julho passado e quase impediram o Governo dos EUA de poder pagar as suas dívidas. No final, os elementos do establishment de Wall Street tiveram que insistir com os Republicanos para que estes fizessem qualquer espécie de compromisso, mas tudo em detrimento dos trabalhadores e dos pobres.
O pacote de estímulo de Obama em 2009 ajudou a reavivar a indústria automóvel (que por sua vez cortou salários e reduziu a sua força de trabalho, mas se tornou rentável de novo) e subsidiou orçamentos estatais durante dois anos. O mercado das acções e os bancos ganharam, a economia “recuperou”, mas foi uma recuperação que não atingiu empregos nem salários. Agora os orçamentos subsidiados acabaram e os governos estatais e locais estão a cortar nos serviços sociais e a desamparar os trabalhadores ou a empurrá-los para uma reforma antecipada e a cortar nas suas pensões. Há um ataque generalizado aos trabalhadores do serviço público e aos professores em particular, e uma tentativa de partir os sindicatos dos serviços públicos e impedi-los de representarem os trabalhadores.
Há um ataque aos trabalhadores em todas as frentes. As corporações estão a exigir que os trabalhadores (mesmo os poucos trabalhadores sindicalizados com contrato) aceitem os cortes nos salários, paguem mais pelos seguros de saúde, aceitem a perda de benefícios, desistam das pensões de reforma, ou então enfrentam ainda mais despedimentos. E agora há sinais de outro abrandamento económico a começar na Europa e a chegar de novo aos EUA.

O facto de não haver escolha eleitoral entre Republicanos e Democratas não quer dizer que não haja oposição de massas a estas políticas de guerra, de agressão face aos imigrantes, de cortes orçamentais e ataque aos sindicatos. Esta luta de bases recebe pouca cobertura dos média nos EUA e ainda menos no estrangeiro, mas tem estado a fervilhar pelo país desde que a crise financeira começou, em 2008.

A primeira grande resposta teve lugar no Wisconsin, que foi o centro de uma resistência de bases desde Fevereiro. Nessa altura, o novo governador de direita, apoiado pelo Tea Party, Scott Walker, introduziu uma nova lei que não apenas corta nos serviços sociais mas também aniquila o poder de negociação dos trabalhadores. Estabelece as mesmas provisões que dominam nos chamados estados do “direito ao trabalho” no Sul dos EUA. Encostados à parede, os sindicatos dos serviços públicos no Wisconsin contra-atacaram. Os estudantes em luta contra os cortes nas universidades tomaram a iniciativa e ocuparam o edifício do Capitólio em Madison.

A mobilização dos trabalhadores do Wisconsin durante quatro meses foi uma das maiores demonstrações sustentadas de força e organização por parte dos sindicatos em décadas. Inspirou solidariedade nacional e internacional e um maior apoio das pessoas aos sindicatos. Também reflectiu as revoltas no mundo árabe, à medida que trabalhadores e estudantes em Madison vestiam t-shirts onde se lia “Walk like an Egyptian”. Os dezoito dias de ocupação do Capitólio e as concentrações em massa atingiram o seu expoente máximo a 12 de Março, altura em umas 185 000 pessoas cercaram o Capitólio em Madison. Infelizmente, as coisas estão agora mais calmas no Wisconsin e os sindicatos estão concentrados em forçar uma eleição especial para trazer Walker de novo a votos, ou seja, obrigá-lo a sair antes do fim do seu mandato. Mas é um exemplo do que pode ser possível sob as ainda mais difíceis condições que os trabalhadores enfrentarão nos próximos anos. Dado que sou um optimista, conto com o desenvolvimento de um movimento de massas de base alargada que una o trabalho organizado e as comunidades para lutar, não apenas para defender os trabalhadores e todos os pobres, mas para pôr cobro à tentativa, por parte dos grandes poderes imperialistas, de re-colonizar o mundo.
10. Que vais fazer neste 11 de Setembro?

Neste 10º aniversário do 11 de Setembro, estarei com outros activistas e membros da comunidade perto do local do World Trade Center. Iremos confrontar uma concentração racista planeada por forças anti-muçulmanas nesse dia. Com a grande coligação formada em 2010, a Mobilização de Emergência Contra o Racismo, a Guerra e o Preconceito Anti-Muçulmano, que organizou um contra-protesto semelhante de cerca de 10 000 pessoas no ano passado no 11 Setembro, esperamos mais uma vez abafar uma concentração, muito mais pequena, motivada pelo ódio e pelo medo, para protestar contra a construção de um centro islâmico nas proximidades de Ground Zero.

Esta concentração protestará também contra a tentativa, por parte do Governo dos EUA e de governos locais, de explorar os sentimentos de quem chora a perda de vidas do 11 de Setembro de 2001 para justificar as novas guerras de agressão. É especialmente importante contra-atacar, neste período de crise económica, as forças que querem culpar os imigrantes e muçulmanos pelos crescentes cortes nos serviços sociais, aumento do desemprego e guerras contínuas.

Tradução de André Rodrigues P. Silva
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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