O banqueiro grego e a discreta criação da Libor
Wolfensohn, ex-Banco Mundial: elogio aos primeiros banqueiros que se uniram para criar o que se tornaria a Libor
Minos
Zombanakis, nascido há 86 anos em uma ilha grega, lembra-se muito bem do
nascimento da taxa referencial de juro que está agora no coração de uma
fraude de alcance mundial. "Fui meio que, se você me desculpar a falta
de modéstia, um dos que começaram a coisa toda", fala rindo, em uma
entrevista por telefone da vila onde mora em Creta, em meio a pomares de
frutas cítricas. Zombanakis comandava a recém-aberta agência do
Manufacturer's Hanover em Londres, hoje parte do J.P. Morgan, quando o
banco organizou um dos primeiros empréstimos sindicalizados atrelados ao
que ele chamou, em 1969, de London Interbank Offered Rate (Libor).
O
empréstimo de US$ 80 milhões, para o xá do Irã, personificava a maneira
como os mercados financeiros internacionais, que estavam efetivamente
fechados desde 1929, estavam sendo abertos - lançando as sementes para
que Londres prosperasse como centro financeiro mundial.
Os
banqueiros daquela época tinham pouca ideia de que a taxa que estavam
usando para dar preço àqueles empréstimos se tornaria uma das principais
engrenagens do sistema financeiro global e uma referência para US$ 550
trilhões em contratos que vão de derivativos de juros a empréstimos
imobiliários e cartões de crédito.
Passadas
quatro décadas, essa taxa foi desacreditada pelas tentativas de
operadores de manipulá-la, pelos bancos que mentiram sobre seus
verdadeiros custos de tomada de empréstimos e por autoridades
reguladoras acusadas de fechar os olhos para o que estava acontecendo,
ou falhando em impedir a manipulação.
A
Libor, criada para refletir os custos dos empréstimos tomados pelos
bancos, foi parar nas manchetes dos jornais em junho, quando o Barclays
recebeu uma multa recorde de US$ 450 milhões por permitir a operadores
que a manipulassem, juntamente com sua prima em euros, a Euribor, e
subestimassem intencionalmente as taxas durante o aperto de crédito de
2007-2008.
Banqueiros
que trabalharam em Londres nas décadas que antecederam a crise de
crédito, quando os financiamentos interbancários secaram e aumentaram as
especulações de que os bancos estavam sendo desonestos em relação aos
custos dos empréstimos que tomavam, insistem que não havia o menor sinal
de manipulação naqueles dias iniciais.
Stanislas
Yassukovich, um banqueiro veterano que chegou a Londres no começo dos
anos 60, com o banco de Nova York White, Weld & Co., culpa a cultura
moderna da bonificação e o surgimento dos megabancos "cheios de
vitalidade" pela destruição da lealdade corporativa.
A
Libor evoluiu para atender a demanda crescente na década de 60 pelo
capital - offshore, sem cidadania e frequentemente em dólares - que
inundou Londres e permitiu a empresas e países contrair empréstimos,
fazer depósitos e pagamentos enquanto se esquivavam das regras e dos
impostos domésticos.
A onda
dos dólares internacionais foi desencadeada em parte pelos custos da
Guerra do Vietnã e o déficit comercial americano, além de temores de que
o bloqueio de Berlim pudesse levar os EUA a congelar os depósitos
soviéticos em solo americano. Esses fatores constituíam as preocupações
de longo prazo com o peso da regulamentação americana.
"As
forças geopolíticas, especialmente a Guerra do Vietnã, coincidiram com o
surgimento dos desequilíbrios comerciais globais e a legislação
restritiva dos EUA e resultaram na criação inesperada e súbita do
mercado de 'Eurodólares' em Londres na década de 60", explica David
Clark, outro banqueiro veterano e atual presidente da Wholesale Markets
Brokers Association. "Foi a partir desse começo que os empréstimos
sindicalizados e os mercados de capitais reciclaram os dólares offshore,
usando taxas de juros flutuantes baseadas na Libor."
Banqueiros
como Zombanakis; George Bolton, presidente do conselho de administração
do Bank of London & South America; Evan Galbraith, presidente do
conselho do Bankers Trust Internacional, que mais tarde se tornaria
embaixador dos EUA na França; e Walter Shipley, do Chemical Bank,
estavam entre aqueles que perceberam o potencial do mercado.
Enquanto a Libor virava um referencial para trilhões de dólares, os operadores farejavam uma nova oportunidade
O
ex-presidente do Banco Mundial James Wolfensohn elogia o papel
desempenhado por banqueiros como Zombanakis, que enfrentaram rivais para
organizar os bancos em consórcios, dividindo os riscos de enormes
empréstimos sindicalizados bancados por meio de uma série de depósitos
de curto prazo baseados em taxas de juros flutuantes.
Pedidos
de empréstimos começaram a ser feitos aos montes e os mercados
financeiros decolaram. "No começo, a coisa era mais parecida com um
clube", diz Yassukovich, um ex-presidente da Securities Association do
Reino Unido, precursora da Autoridade de Serviços Financeiros (FSA,
órgão regulador do mercado financeiro britânico).
Com
frequência, a única força que mantinha os banqueiros impacientes sob
controle era quando o presidente do Banco da Inglaterra demonstrava seu
descontentamento "levantando uma sobrancelha": convocando o
administrador de um banco quando via algo inapropriado.
Os
banqueiros internacionais viviam lutando com as tradições da City, o
centro financeiro de Londres, onde os presidentes das casas de descontos
- corretoras de câmbio tradicionais - circulavam de cartola. Os
colarinhos moles, ao invés dos engomados, eram tolerados apenas às
segundas-feiras, sob a suposição de que o fim de semana havia sido
passado no campo.
Mas os
modos do velho mundo estavam ameaçados, uma vez que os banqueiros se
esquivavam das regras que limitavam os riscos com que os bancos podiam
arcar individualmente. Seus sindicatos ofereciam empréstimos com taxas
de juros que eram renegociadas a cada três ou seis meses, para refletir a
mudança das condições do mercado.
Zombanakis
diz que criou a fórmula em que um grupo de grandes "bancos
referenciais" dentro de cada sindicato podiam reportar seus custos de
financiamento um pouco antes da data de rolagem de um empréstimo. A
média ponderada, arredondada para o próximo 0,125% mais um spread para o
lucro, tornou-se o preço do empréstimo para o período seguinte.
Ele
nomeou isso de "taxa de oferta interbancária de Londres" - ou Libor. A
fórmula, que hoje envolve o descarte dos valores mais altos e mais
baixos, continua bastante parecida. No começo, não havia incentivos para
oferecer taxas pequenas, uma vez que isso deixaria um banco no
prejuízo. Afinal, os bancos estavam emprestando dinheiro àquelas taxas, e
não tomando emprestado.
Zombanakis
diz que qualquer banco que submetesse uma taxa de juros
exorbitantemente inflada era ejetado do sindicato, podendo destruir uma
relação potencialmente valiosa com o tomador.
Mas,
em poucos anos, a Libor evoluiu de uma medida usada para colocar preço
em empréstimos individuais para um referencial muito mais amplo para
negócios avaliados em centenas de bilhões de dólares por ano. Na medida
em que a demanda por empréstimos dos clientes aumentava, o mesmo
aconteceu com a complexidade do mercado. Negócios começaram a ser feitos
com instrumentos como swaps de juros, opções de câmbio e contratos
futuros.
Enquanto
isso, os bancos tomavam cada vez mais empréstimos de seus próprios
fundos junto aos mercados de crédito, significando que eles podiam ter
um incentivo para forçar uma queda da Libor.
Para
formalizar o processo de coleta das taxas interbancárias e melhorar a
eficiência, transparência e governança, a Associação dos Bancos
Britânicos (BBA, na sigla em inglês), um órgão setorial apoiado pelo
Banco da Inglaterra, assumiu o controle em 1986 e renomeou a taxa de
BBALibor.
A
Thomson Reuters, controladora da Reuters, calcula e distribui as taxas
para a BBA desde 2005, quando adquiriu a Telerate, agência que fazia os
cálculos.
Os
envolvidos nas negociações da BBALibor na década de 80 foram pegos de
surpresa pelo impacto da mudança para o que subitamente se tornou um
referencial aberto ao público e amplamente usado. Isso coincidiu com a
desregulamentação dos mercados financeiros, que significou o fim das
regras singulares de Londres.
"Ninguém
percebeu o quanto a BBALibor seria influente", diz um banqueiro,
lembrando-se do escrutínio intenso que havia logo que as taxas da Libor
eram divulgas às 11h. "As salas de negociação ficavam observando e
dissecando quais taxas as pessoas sinalizavam a cada dia, à procura de
uma grande mudança de comportamento."
Pois
enquanto a Libor se tornava um referencial para derivativos avaliados em
trilhões de dólares, os operadores farejavam uma nova oportunidade. "Em
períodos mais recentes, houve uma tentação de se manipular as taxas
porque há um mercado de derivativos enorme com bilhões e bilhões de
libras em negócios atrelados à Libor", explica David Potter, um
ex-diretor do Midland Bank e do Samuel Montagu, cuja longa carreira no
mercado financeiro data da década de 60. "Portanto, com um ajuste de
apenas 0,001%, isso pode render muito dinheiro."
Durante
a crise de 2008 não era mais segredo que os bancos estavam suavizando
as taxas de empréstimos. Em parte, mais para evitar demonstrar sinais de
estresse financeiro do que para tentar obter lucros nas negociações:
quanto maior os custos dos empréstimos para um banco, mais preocupados
os investidores e os clientes ficam e maior a probabilidade de uma
corrida ao banco, que o levaria ao colapso.
Os
operadores desenvolveram seus próprios mecanismos para enfrentar o
problema. Um deles era fazer hedge de posições atreladas à Libor como
proteção contra perdas. Zombanakis, assim como muitos banqueiros
veteranos, diz que o sentido da Libor foi perdido quando ela se tornou
um referencial para tudo, de empréstimos corporativos a negócios com
commodities, de financiamentos imobiliários a cartões de crédito.
"Começamos uma coisa que era prática e conveniente. Nunca imaginamos que
essa taxa iria se espalhar para hipotecas e coisas assim."
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