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quinta-feira, 9 de agosto de 2012

A história da Libor, manipulada por banqueiros ladrões


O banqueiro grego e a discreta criação da Libor
Por Kirstin Ridley e Huw Jones | Reuters, de Londres, no Valor
T.J. Kirkpatrick/Bloomberg / T.J. Kirkpatrick/BloombergWolfensohn, ex-Banco Mundial: elogio aos primeiros banqueiros que se uniram para criar o que se tornaria a Libor
Minos Zombanakis, nascido há 86 anos em uma ilha grega, lembra-se muito bem do nascimento da taxa referencial de juro que está agora no coração de uma fraude de alcance mundial. "Fui meio que, se você me desculpar a falta de modéstia, um dos que começaram a coisa toda", fala rindo, em uma entrevista por telefone da vila onde mora em Creta, em meio a pomares de frutas cítricas. Zombanakis comandava a recém-aberta agência do Manufacturer's Hanover em Londres, hoje parte do J.P. Morgan, quando o banco organizou um dos primeiros empréstimos sindicalizados atrelados ao que ele chamou, em 1969, de London Interbank Offered Rate (Libor).
O empréstimo de US$ 80 milhões, para o xá do Irã, personificava a maneira como os mercados financeiros internacionais, que estavam efetivamente fechados desde 1929, estavam sendo abertos - lançando as sementes para que Londres prosperasse como centro financeiro mundial.
Os banqueiros daquela época tinham pouca ideia de que a taxa que estavam usando para dar preço àqueles empréstimos se tornaria uma das principais engrenagens do sistema financeiro global e uma referência para US$ 550 trilhões em contratos que vão de derivativos de juros a empréstimos imobiliários e cartões de crédito.
Passadas quatro décadas, essa taxa foi desacreditada pelas tentativas de operadores de manipulá-la, pelos bancos que mentiram sobre seus verdadeiros custos de tomada de empréstimos e por autoridades reguladoras acusadas de fechar os olhos para o que estava acontecendo, ou falhando em impedir a manipulação.
A Libor, criada para refletir os custos dos empréstimos tomados pelos bancos, foi parar nas manchetes dos jornais em junho, quando o Barclays recebeu uma multa recorde de US$ 450 milhões por permitir a operadores que a manipulassem, juntamente com sua prima em euros, a Euribor, e subestimassem intencionalmente as taxas durante o aperto de crédito de 2007-2008.
Banqueiros que trabalharam em Londres nas décadas que antecederam a crise de crédito, quando os financiamentos interbancários secaram e aumentaram as especulações de que os bancos estavam sendo desonestos em relação aos custos dos empréstimos que tomavam, insistem que não havia o menor sinal de manipulação naqueles dias iniciais.
Stanislas Yassukovich, um banqueiro veterano que chegou a Londres no começo dos anos 60, com o banco de Nova York White, Weld & Co., culpa a cultura moderna da bonificação e o surgimento dos megabancos "cheios de vitalidade" pela destruição da lealdade corporativa.
A Libor evoluiu para atender a demanda crescente na década de 60 pelo capital - offshore, sem cidadania e frequentemente em dólares - que inundou Londres e permitiu a empresas e países contrair empréstimos, fazer depósitos e pagamentos enquanto se esquivavam das regras e dos impostos domésticos.
A onda dos dólares internacionais foi desencadeada em parte pelos custos da Guerra do Vietnã e o déficit comercial americano, além de temores de que o bloqueio de Berlim pudesse levar os EUA a congelar os depósitos soviéticos em solo americano. Esses fatores constituíam as preocupações de longo prazo com o peso da regulamentação americana.
"As forças geopolíticas, especialmente a Guerra do Vietnã, coincidiram com o surgimento dos desequilíbrios comerciais globais e a legislação restritiva dos EUA e resultaram na criação inesperada e súbita do mercado de 'Eurodólares' em Londres na década de 60", explica David Clark, outro banqueiro veterano e atual presidente da Wholesale Markets Brokers Association. "Foi a partir desse começo que os empréstimos sindicalizados e os mercados de capitais reciclaram os dólares offshore, usando taxas de juros flutuantes baseadas na Libor."
Banqueiros como Zombanakis; George Bolton, presidente do conselho de administração do Bank of London & South America; Evan Galbraith, presidente do conselho do Bankers Trust Internacional, que mais tarde se tornaria embaixador dos EUA na França; e Walter Shipley, do Chemical Bank, estavam entre aqueles que perceberam o potencial do mercado.
Enquanto a Libor virava um referencial para trilhões de dólares, os operadores farejavam uma nova oportunidade
O ex-presidente do Banco Mundial James Wolfensohn elogia o papel desempenhado por banqueiros como Zombanakis, que enfrentaram rivais para organizar os bancos em consórcios, dividindo os riscos de enormes empréstimos sindicalizados bancados por meio de uma série de depósitos de curto prazo baseados em taxas de juros flutuantes.
Pedidos de empréstimos começaram a ser feitos aos montes e os mercados financeiros decolaram. "No começo, a coisa era mais parecida com um clube", diz Yassukovich, um ex-presidente da Securities Association do Reino Unido, precursora da Autoridade de Serviços Financeiros (FSA, órgão regulador do mercado financeiro britânico).
Com frequência, a única força que mantinha os banqueiros impacientes sob controle era quando o presidente do Banco da Inglaterra demonstrava seu descontentamento "levantando uma sobrancelha": convocando o administrador de um banco quando via algo inapropriado.
Os banqueiros internacionais viviam lutando com as tradições da City, o centro financeiro de Londres, onde os presidentes das casas de descontos - corretoras de câmbio tradicionais - circulavam de cartola. Os colarinhos moles, ao invés dos engomados, eram tolerados apenas às segundas-feiras, sob a suposição de que o fim de semana havia sido passado no campo.
Mas os modos do velho mundo estavam ameaçados, uma vez que os banqueiros se esquivavam das regras que limitavam os riscos com que os bancos podiam arcar individualmente. Seus sindicatos ofereciam empréstimos com taxas de juros que eram renegociadas a cada três ou seis meses, para refletir a mudança das condições do mercado.
Zombanakis diz que criou a fórmula em que um grupo de grandes "bancos referenciais" dentro de cada sindicato podiam reportar seus custos de financiamento um pouco antes da data de rolagem de um empréstimo. A média ponderada, arredondada para o próximo 0,125% mais um spread para o lucro, tornou-se o preço do empréstimo para o período seguinte.
Ele nomeou isso de "taxa de oferta interbancária de Londres" - ou Libor. A fórmula, que hoje envolve o descarte dos valores mais altos e mais baixos, continua bastante parecida. No começo, não havia incentivos para oferecer taxas pequenas, uma vez que isso deixaria um banco no prejuízo. Afinal, os bancos estavam emprestando dinheiro àquelas taxas, e não tomando emprestado.
Zombanakis diz que qualquer banco que submetesse uma taxa de juros exorbitantemente inflada era ejetado do sindicato, podendo destruir uma relação potencialmente valiosa com o tomador.
Mas, em poucos anos, a Libor evoluiu de uma medida usada para colocar preço em empréstimos individuais para um referencial muito mais amplo para negócios avaliados em centenas de bilhões de dólares por ano. Na medida em que a demanda por empréstimos dos clientes aumentava, o mesmo aconteceu com a complexidade do mercado. Negócios começaram a ser feitos com instrumentos como swaps de juros, opções de câmbio e contratos futuros.
Enquanto isso, os bancos tomavam cada vez mais empréstimos de seus próprios fundos junto aos mercados de crédito, significando que eles podiam ter um incentivo para forçar uma queda da Libor.
Para formalizar o processo de coleta das taxas interbancárias e melhorar a eficiência, transparência e governança, a Associação dos Bancos Britânicos (BBA, na sigla em inglês), um órgão setorial apoiado pelo Banco da Inglaterra, assumiu o controle em 1986 e renomeou a taxa de BBALibor.
A Thomson Reuters, controladora da Reuters, calcula e distribui as taxas para a BBA desde 2005, quando adquiriu a Telerate, agência que fazia os cálculos.
Os envolvidos nas negociações da BBALibor na década de 80 foram pegos de surpresa pelo impacto da mudança para o que subitamente se tornou um referencial aberto ao público e amplamente usado. Isso coincidiu com a desregulamentação dos mercados financeiros, que significou o fim das regras singulares de Londres.
"Ninguém percebeu o quanto a BBALibor seria influente", diz um banqueiro, lembrando-se do escrutínio intenso que havia logo que as taxas da Libor eram divulgas às 11h. "As salas de negociação ficavam observando e dissecando quais taxas as pessoas sinalizavam a cada dia, à procura de uma grande mudança de comportamento."
Pois enquanto a Libor se tornava um referencial para derivativos avaliados em trilhões de dólares, os operadores farejavam uma nova oportunidade. "Em períodos mais recentes, houve uma tentação de se manipular as taxas porque há um mercado de derivativos enorme com bilhões e bilhões de libras em negócios atrelados à Libor", explica David Potter, um ex-diretor do Midland Bank e do Samuel Montagu, cuja longa carreira no mercado financeiro data da década de 60. "Portanto, com um ajuste de apenas 0,001%, isso pode render muito dinheiro."
Durante a crise de 2008 não era mais segredo que os bancos estavam suavizando as taxas de empréstimos. Em parte, mais para evitar demonstrar sinais de estresse financeiro do que para tentar obter lucros nas negociações: quanto maior os custos dos empréstimos para um banco, mais preocupados os investidores e os clientes ficam e maior a probabilidade de uma corrida ao banco, que o levaria ao colapso.
Os operadores desenvolveram seus próprios mecanismos para enfrentar o problema. Um deles era fazer hedge de posições atreladas à Libor como proteção contra perdas. Zombanakis, assim como muitos banqueiros veteranos, diz que o sentido da Libor foi perdido quando ela se tornou um referencial para tudo, de empréstimos corporativos a negócios com commodities, de financiamentos imobiliários a cartões de crédito. "Começamos uma coisa que era prática e conveniente. Nunca imaginamos que essa taxa iria se espalhar para hipotecas e coisas assim."

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