Lições para a esquerda, de Lênin: Que fazer? … hoje?
Do Portal do PSB
Andrew Levine
Em uma de suas colunas finais para CounterPunch (julho 6-8, 2012),
Alexander Cockburn [fundador do site, recentemente falecido] gentilmente
deu tarefa àqueles de nós, inclusive ele próprio, que nos lançamos ao
mar na esperança investir no Ocupar e outros movimentos espontâneos de
protesto de 2011. Muitos de nós – eu inclusive – estávamos tão
empolgados pelos entusiasmos do momento que esquecemos algumas verdades
bem estabelecidas. Como tantas vezes antes, as palavras de Cockburn
deram voz ao que eu, juntamente com muitos outros, já tínhamos
percebido, mas ainda não estávamos prontos para articular. Agora, no
entanto, não há desculpa, chegou o tempo para recordar o básico. Esse
foi o ponto Cockburn. É, portanto, à sua memória que dedico esta
apreciação de um dos mais castigados, mas também um dos clássicos
maiores e mais relevantes do pensamento político.
Cerca de onze décadas se passaram desde a publicação de Que fazer?,
de V.I. Lênin. Esse panfleto notável – na verdade, um pequeno livro –
foi uma intervenção política centrada nas questões que confrontavam o
movimento social-democrata russo no início do século XX. Muito de seu
conteúdo é peculiar ao tempo e ao local de sua elaboração.
Há, portanto, um sentido em que, a cada ano que passa, ele se torna
cada vez mais anacrônico. Mesmo assim, não é apenas a questão posta no
título do panfleto que permanece atual. Pois, embora não concebido como
um tratado teórico, era evidente desde o início que ele pode ser lido
como um todo e que, nessa qualidade, pode ser enormemente esclarecedor.
Ironicamente, isso nunca foi mais verdadeiro do que é agora, e não
apenas em partes do mundo que, como a Rússia, em 1903, estão
comparativamente “para trás.” A esquerda nos Estados Unidos de hoje, o
que existe dela, faria bem se levasse em conta os princípios
fundamentais do texto – adaptado, é claro, às circunstâncias que hoje
enfrentamos.
O mais básico desses princípios é que, para uma mudança política
fundamental, liderança e direção é indispensável. Para colocar a questão
de uma forma que parece irremediavelmente anacrônica: massas
insurgentes precisam de uma vanguarda revolucionária.
Revoltas e rebeliões estiveram sempre conosco, e será assim por muito
tempo, enquanto durarem a injustiça e a opressão. Mas, para resultarem
numa mudança real, surtos espontâneos de resistência não podem
permanecer para sempre espontâneos.
Lênin escreveu como um revolucionário se dirigindo a revolucionários,
num momento em que a Revolução Francesa era ainda o caso paradigmático.
O entendimento comum, naquela época, era de que as revoluções –
transformações fundamentais de instituições sociais, políticas e
econômicas –, começam com a tomada do poder do Estado por meios
insurrecionais (violentos). Onze décadas depóis, há séria dificuldade em
imaginar essa espécie de revolução na agenda de qualquer democracia
liberal, muito menos os Estados Unidos.
Mas mudanças fundamentais nas estruturas básicas da sociedade –
“mudanças de regime”, no sentido literal, não no sentido neoconservador
da expressão – não estão fora de questão, mesmo nos Estados Unidos. “Um
mundo melhor é possível” não é um tema vazio, apesar dos todos os
esforços das corrrentes que moldam a opinião pública para transmitir a
impressão de que ele o é.
A proposição de Lênin era que, sem uma organização revolucionária,
moldada e informada pela teoria revolucionária, não pode haver prática
revolucionária com êxito. Isso vale tanto para as transformações
pacíficas – mas não obstante fundamentais – de estruturas institucionais
básicas, quanto para os tipos de sublevações para as quais são
emblemáticos “momentos revolucionários”, como a tomada da Bastilha ou do
Palácio de Inverno.
Isso parece correto, especialmente à luz dos acontecimentos recentes –
a partir da resistência no início de 2011 ao abuso republicano em
Wisconsin e em outros lugares até os movimentos Ocupar dos últimos
outono e inverno. Parece certo que também vieram à luz aa trajetória da
primavera árabe contemporânea.
A idéia básica não é realmente específica do pensamento de Lênin ou
mesmo das tradições maiores, marxistas e jacobinas, de que “leninismo”
deriva. É um princípio de todos os esforços sérios para pensar através
da dinâmica de mudança fundamental na era moderna.
Por que, então, descrevê-lo invocando o nome de uma figura histórica
que caiu em menosprezo em todo o mundo? Isto é particularmente
verdadeiro nos Estados Unidos, onde “Lênin” é um nome que os
estadunidenses têm sido instruídos para insultar.
Uma razão é que o Que fazer?, como todos os textos clássicos da
teoria política, transmite idéias oportunas, não obstante o fato de que,
como todos os outros, é uma criatura de seu tempo e lugar.
Nenhum clássico do pensamento político ocidental está mais ligado do
que O Príncipe, de Maquiavel, a um mundo que já ficou muito longe. No
entanto, todos entendem que, por sua autoridade, é útil e justo usar a
palavra “maquiavélico” para descrever figuras políticas e posições de
hoje. Ocorre o mesmo com Que Fazer? Estes e outros textos canônicos são
artefatos históricos, mas isso não é tudo o que eles são.
A razão mais importante é que a forma como uma posição política é
descrita é em si um ato político. Na década de 1980, como foi se
tornando cada vez mais obscuro o que é “marxismo” e como intelectuais
públicos reacionários – “novos filósofos”, na França, neo-conservadores,
nos Estados Unidos – fizeram o maior esforço levar o marxismo ao
descrédito, e num momento em que Ronald Reagan tagarelava acerca de
“impérios do mal” enquanto ele próprio causava morte e destruição entre
os povos da América Central, E. P. Thompson, o grande historiador da
classe trabalhadora inglesa, quando perguntado se ainda era marxista,
disse, com efeito, que nas circunstâncias presentes a decência comum
exigia que ele dissesse sim.
É assim que é, hoje, com Lênin.
Nossa mídia identifica a política com disputas eleitorais e, para
simplificar (e emburrecer) ainda mais, põe códigos de cor nos
competidores – democratas são azuis, republicanos são vermelhos. Essas
descrições se tornaram parte do vernáculo de nossa política.
É involuntariamente revelador que, em termos dos nomes de cores
usuais para as tendências políticas, onde vermelho e preto e, no outro
lado, branco e pardo figuram proeminentemente, e onde o azul nada
significa, de que a nossa parte maior mais à esquerda migrou tanto para a
direita que a cor usada por nossa mídia para designá-la, na medida em
que podemos imputar um significado a ela, quase não faz a justiça aos
democratas.
É ainda mais revelador que o nosso discurso político ficou hoje tão
degradado que os republicanos se deleitam em ser chamados de vermelhos.
Ou assim é porque eles são ignorantes da história, incluindo a história
do seu próprio partido tingido de vermelho, ou então esta é apenas uma
faceta da vida do que Gore Vidal apropriadamente chama Estados Unidos da
Amnésia.
Seja qual for o caso – e, uma vez que falamos de pessoas que há muito
tempo deixaram de fazer sentido, ambas as hipóteses podem ser
verdadeiras – é apropriado invocar o nome e o espectro do líder da
Revolução Bolchevique, um vermelho verdadeiro, apenas para irritá-los.
E o que poderia ser mais salutar do que desafiar o farisaísmo afetado
dos eleitores azuis com uma dose de política real, ou, mais
precisamente, de teoria política lúcida.
E assim, no espírito de E. P. Thompson, eu diria que a simples
decência exige que, onde a designação seja apropriada, deve-se usar o
nome leninista, sempre que posível. Não só ele é substancialmente
correto; melhor ainda, ele vai irritar aqueles que mais merecem ser
irritados.
Em Que Fazer?, Lênin elaborou longamente sobre o que considerava ser a
estrutura ideal de organização e postura estratégica do partido de
vanguarda que ele queria construir. É por esse aspecto principalmente
que Que fazer? é conhecido. Mas, novamente, o pensamento de Lênin sobre
essas questões, por toda a sua atenção ao detalhe, era apenas uma
variante, adequada às condições locais, da idéia geral de que, para que
uma mudança fundamental seja possível, é preciso que haja uma força
organizada que se dedique a fazê-la acontecer.
Porque assumiu a ideia de uma vanguarda política, o leninismo se
tornou um ponto de referência nos debates entre marxistas e, nos debates
entre marxistas e anarquistas e anarco-sindicalistas, a variante
leninista veio a ser identificada com a visão mais geral. Esta é mais
uma razão para adotar a designação, que chama o nosso discurso político
a-histórico e despolitizado para mais perto da verdadeira história da
esquerda.
Em círculos de esquerda, o termo “leninista” foi às vezes valorizado,
às vezes, depreciado. Como tudo na política, dependeu das
circunstâncias. Mas a contestação a respeito do nome, bem como sobre a
ideia que o nome indicava, deu origem a confusão – particularmente nas
circunstâncias em que os ativistas em grupos “espontaneístas” (ou
groupuscules) reivindicaram para si uma identidade leninista. No
rescaldo das erupções mundiais de 1968, esse tipo de confusão era comum
na Europa Ocidental e, em menor medida, nos Estados Unidos.
Hoje, naturalmente, os debates sobre vanguardismo parecem arcaicos. É
tentador dizer que isso acontece porque o mundo que deu origem ao
debate que não existe mais. No entanto, dizê-lo seria um grande erro.
Na política, como na psicologia individual, há sempre a perspectiva
do que Freud chamou de “retorno do reprimido”. Isso é o que explica os
acontecimentos de tipo “abalar o mundo” em 2011. O juri está ainda por
vir sobre o que ocorrerá a partir dessas erupções. Mas, como deixou
claro Cockburn, já passou mais de metade de 2012 e elas não estão com
boa aparência.
Aqui, nos Estados Unidos, com uma eleição presidencial afundada em
dinheiro acontecendo, uma disputa entre dois candidatos que poucos podem
adotar e muito menos endossar, exceto para razões de mal menor –, e com
uma série de eleições para cargos inferiores que são, na sua maior
parte, igualmente pouco promissoras –, a situação é especialmente
terrível.
O problema geral é que o outro lado – Lênin teria dito o lado
capitalista; em 2011, essa designação foi efetivamente substituída por
“o 1%” – é organizado. Ele tem para atender a seus pleitos um Estado, o
que Marx chamou de um “comitê executivo” da classe dominante inteira.
Nessas circunstâncias, “os 99%” não têm escolha senão responder, da
melhor maneira possível, na mesma moeda, fazendo o possível para
constituir um comitê executivo rival.
Esta é uma reivindicação geral e abstracta – sobre as estruturas
políticas (na verdade, instituições coercitivas legitimadas) nas
sociedades divididas em classes. Estados reais nas sociedades
capitalistas admitem muitas variações sobre o tema geral. Eles podem
responder mais ou menos aos interesses de alguns ou de todos os 99%.
O que eles não podem fazer, se Lênin e Marx e os pensadores que neles
se apóiam estão certos, é liderar um processo que transforme as
estruturas básicas econômicas, sociais e políticas que superintendem.
Estados capitalistas podem ser mais ou menos malignos, mas não podem
revolucionar-se.
Hoje em dia, estados capitalistas comparativamente beneficentes, do
tipo que ainda sobrevive em grande parte do oeste e norte da Europa,
parecem muito bons a partir daqui, não obstante os esforços incansáveis
de políticos e especialistas de mídia para denegri-los. Os
acontecimentos de 2011 foram sobre direitos de negociação dos sindicatos
e crescente desigualdade. Embora não mais na ofensiva, a democracia
social europeia e as suas semelhantes em outros lugares se sairam bem
nesses acertos de contas.
Nos também fizemos isso, é claro, até final dos anos 1970, quando uma
série de presidentes democratas se encarregou de implementar o ataque
“bipartidário” ao New Deal e às instituições da Grande Sociedade, o que é
comumente associado ao nome desse reacionário injustamente célebre,
Ronald Reagan.
Jimmy Carter manteve o curso, Reagan e seus acólitos republicanos
(idiotas todos) acreditaram naquilo, e Bill Clinton e Barack Obama o
completaram. Alguém poderia pensar que os republicanos ficariam gratos.
Mas eles estão muito focados em vencer as eleições para mostrar reações
normais.
Na verdade, eles estão de tal modo focados em ganhar que não está
ainda claro se eles agem tendo em mente os melhores interesses de seus
patrões. Para sua sorte, os plutocratas donos deles são tão densos e tão
gananciosos (curto prazo) que nem notam, nem cuidam!
Disposições constitucionais que asseguram que “nós, o povo” somos
consultados apenas em intervalos periódicos de dois e quatro anos têm um
papel a desempenhar no fiasco que agora aflige nossa cultura política.
Assim também faz o nosso sistema partidário duopólico, composto de duas
partes igualmente dedicadas aos interesses do 1%. E não devemos deixar
de fora a maneira desavergonhada como o 1% compra influência política,
em violação das normas democráticas, mas de acordo com a lei da terra,
conforme determinado (“legislado”) por cinco juízes de direita da
Suprema Corte.
Mesmo assim, antes que a nossa classe política e seus charlatães da
mídia se pusessem a explorar as ansiedades geradas pelos ataques ao
World Trade Center e ao Pentágono, nosso Estado era (relativamente)
fraco. Vidas e comportamentos dos indivíduos eram em geral livres de
interferência do Estado intrusivo e havia consideráveis imunidades
legais e consuetudinárias que protegiam a liberdade de expressão e de
atividade política. Essa é ainda a maior parte do caso, apesar das
depredações dos dois presidentes fora da lei que sofremos desde
9/11/2001.
Mas nosso Estado esteve sempre entre os mais fortes, garantindo que
os poderes e privilégios de 1% (ou melhor, a fração de um por cento dos
que realmente comandam o espetáculo) permaneçam imunes a contestação
séria. A esse respeito, a nossa foi sempre uma democracia
excepcionalmente não-democrática.
E assim, enquanto a necessidade de uma vanguarda política – não
necessariamente, na verdade não idealmente, do tipo proposto por Lênin –
é geral, a necessidade de algo que pudesse servir a esse propósito em
nossas circunstâncias é particularmente aguda. Vivemos em uma democracia
liberal com um componente liberal que continua bastante robusto. Mas,
nos últimos anos, o componente democrático, nunca muito forte, recuou
até quase o ponto de extinção.
Nessas circunstâncias, a via eleitoral para mudança e esperança – não
apenas para uma ordem social e econômica radicalmente transformada, mas
até apenas para uma ordem mais decente no quadro dos arranjos
políticos, econômicos e sociais existentes – está mais do que
habitualmente fora do alcance.
Essa é a verdadeira lição das eleições de 2008. Obama pode ser
incapaz, e ele tem certamente decepcionado quase todo mundo que abrigou
qualquer esperança em sua presidência. Ele poderia ter feito muito
melhor. Mas a idéia de que ele poderia começar a fazer o que alguns dos
seus apoiadores imaginaram que ele faria era ilusória desde o início.
Não é preciso ser um leninista de pleno direito de saber isso, mas os
leitores sérios de Que Fazer?não poderiam deixar de notar – ou entender o
porquê.
Se os movimentos Ocupar esgotaram inteiramente, como Cockburn pensou
que sim, isto vai ilustrar a indicação geral de Lênin. Por um tempo,
eles deram vida nova ao espontaneísmo. Na verdade, a falta de liderança
ajudou junto. Mas, finalmente, chegou a um ponto em que a escolha foi
colocada: dar um salto quântico no modelo vanguardista que rejeitaram ou
desaparecer. Uma vez que a primeira hipótese não aconteceu e quase
certamente não acontecerá, esperemos que, ao se desvanecem na memória
histórica, alguns dos movimentos Ocupar bem que podiam ser transformados
num legado útil.
***
O fracasso da resistência ao abuso de governadores reacionários, como
Scott Walker Wisconsin, ilustra esse ponto também. Mas, embora esses
movimentos, ao contrário dos movimentos Ocupar que se seguiram, eram
apenas defensivos, eles são ainda mais reveladores. Deixam claro o
“excepcionalismo americano”, que torna a indicação geral de Lênin ainda
mais urgente para nós.
O caso de Wisconsin é especialmente instrutivo. Em democracias mais
democráticas do que a nossa, uma mobilização espontânea da espécie que
se desenvolveu lá na primavera de 2011 teria forçado uma crise política
que forçaria o governo ou a recuar ou a cair. Nossas instituições não
permitem que governos caiam.
No máximo, elas permitem a revocação de funcionários. Em Wisconsin,
revocar o governador e o vice-governador não era legalmente possível
durante meses após o levante primavera, porque, de acordo com a
constituição do estado, os governantes não podem ser revocados antes de
terem cumprido pelo menos um ano de mandato.
E, assim, a mobilização espontânea ou poderia ter encaminhado, o que
era impossível sem uma teoria “revolucionária” e uma prática a guiá-la,
ou então, degenerar em um circo eleitoral habitual, com um democrata
disputando com o governador republicano.
Uma vez chegado a isto, todas as patologias habituais de nosso
sistema eleitoral pípocaram. Na busca do melhor a fazer para aqueles
alardeados “independentes” que Obama e seus co-pensadores tanto lutam
por agradar, os democratas foram para a disputa com o mais anódino dos
candidatos. Enquanto isso, os doadores republicanos inundaram Walker com
dinheiro, enquanto os democratas em nível nacional (Obama mais
conspicuamente) não poderiam sequer aparecer. Por isso, Walker ganhou. O
poder do povo poderia ter derrubado ele apesar de tudo, mas, no momento
da decisão, o impulso já tinha se degradado demais pelas operações
normais de nossas instituições políticas.
Pode-se dizer que houve uma alternativa debatida no momento –
rejeitar uma solução “política” (eleitoral) e no lugar dela convocar uma
greve geral. Isso foi uma perspectiva muito assustadora, no entanto,
ninguém sabia o que adviria dela.
Se fosse tentada, teria certamente dividido as forças insurgentes,
porque os democratas teriam feito todo o possível para anular o esforço.
Os legisladores democratas no Madison eram imensamente melhores do que
aqueles comprados e pagos na Washington de Obama. Eles se preocupavam
com os servidores públicos. Democratas do Senado estadual foram tão
longe como para sair do estado a fim negar quorum aos republicanos do
Senado para manter o assalto Walker sobre os direitos sindicais. Mas a
primeira preocupação de todos os democratas, mesmo os bons, é sustentar
os poderes constituídos. Para eles, apoiar uma greve geral, portanto,
teria sido impensável.
O caso de Wisconsin mostra claramente em que transformou a
desativação política eleitoral nos Estados Unidos. Para ver se resta
qualquer vida nos movimentos Ocupar, observem-no a dissipar-se enquanto a
estação da eleição de 2012 se aquece.
Para aqueles que levam a sério a mensagem de Que fazer, o remédio é
claro: é preciso construir uma liderança que seja capaz de fazer a
mudança acontecer quando o tempo surgir novamente, e isso certamente
acontecerá.
O problema agora, como sempre, é de que modo ir daqui até lá. Esse
foi o problema que Lênin dirigiu para seu tempo e lugar. Na Rússia, em
1903, ele teve de lidar com um Estado muito mais repressivo do que nós
em 2012.
Mas, com todos os meios que os 1% têm agora à sua disposição para
formar opinião e sufocar a dissidência, os obstáculos que enfrentamos
são pelo menos tão assustadores. O caminho a seguir não será fácil. Mas
não vamos chegar a lugar nenhum a não ser que tentemos.Os movimentos
Ocupar mostraram que a mudança real é possível, que o material
humanonecessário para fazer isso acontecer está aí. Mostraram que “nós, o
povo,” o suficiente de nós de qualquer maneira, estamos preparados para
acordar e resistir.
Quando isso acontecer novamente, pois certamente vai acontecer,
devemos estar preparados. Esta é talvez a lição mais importante que
podemos aprender com Que fazer?
Aplicando as prescrições de Lênin mecanicamente, em circunstâncias
muito diferentes das que ele afrontou, jamais fez sentido, embora
segmentos da esquerda continuassem por décadas a fazer isso. O que
deveriam ter feito e o que ainda podemos fazer, é aplicar os princípios
centrais de Que fazer? às condições que realmente existem.
Então, na próxima vez que a agressão da classe dominante ou as
obscenas iniqüidades geradas pelo capitalismo atual irromperem, a
resistência terá pelo menos uma possibilidade de gerar uma mudança
duradoura e benéfica – não a mudança de tipo prostibular que alguns
eleitores iludidos imaginaram que ia resultar de Obama, e não do tipo
fugaz e ilusório que os movimentos Ocupar produziram em seus momentos de
glória, mas mudança real.
ANDREW LEVINE é bolsista sênior do Institute for Policy Studies, o
autor, mais recentemente, de THE AMERICAN IDEOLOGY (Routledge) e
POLITICAL KEY WORDS (Blackwell), bem como de muitos outros livros e
artigos em filosofia política. Seu livro mais recente: In Bad Faith:
What’s Wrong With the Opium of the People. Ele foi professor (filosofia)
da Universidade de Wisconsin-Madison e um Professor Pesquisador
(Filosofia) da Universidade de Maryland, College Park. Ele é um
contribuinte para Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion
(AK Press)
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