FERNANDO BRITO
Conversa de Villa
Simplório
julgar o ministro por incompletos dados de agenda. A citação a Lafargue
vale, porém: a internet realmente cria hoje padrões horários de
escravidão
Da Folha de S. Paulo
O historiador Marco Antonio Villa escreveu, aqui nesta Folha,
um artigo que revela, novamente, a sua vocação para a historiografia
baseada em agendas. Em "O trabalho do ministro do Trabalho" (30/7),
proclama que Brizola Neto, titular do cargo, é "adepto radical de
Lafargue", autor de "O Direito à Preguiça".
Retoma o
método (?) de pesquisa simplório de verificar o comportamento de um
administrador público por uma análise burocrática de simples e
incompletos registros da agenda oficial de gabinete.
Já havia
feito o mesmo com ninguém menos que o presidente Lula, em 2006, no mesmo
espaço, afirmando ser "altamente questionável a eficácia" de Lula, com
períodos onde "teve 0,6 compromisso por dia".
Ao tentar fazer o mesmo com um simples ministro, Villa baixa o nível de sua "historiografia" banal e fútil.
Não analisa
os atos praticados pelo ministro (como a mudança nos programas de
qualificação profissional, o saneamento da concessão de registros
sindicais, a retomada do diálogo com as entidades patronais e laborais,
entre outros) e o seu papel de representação do nosso país, seja na
reunião dos ministros do trabalho do G20, seja como chefe da delegação
brasileira no Congresso da Organização Internacional do Trabalho, em
Genebra -descrito como um simples "estava na Suíça, que ninguém é de
ferro".
Certamente,
Villa não diria o mesmo se, em lugar de um congresso que consagrou a
proteção social, o ministro estivesse na mesma Suíça, mas em Davos, no
Fórum Econômico Mundial, onde governantes e a elite do mundo financeiro
discutem os graves problemas do capital.
E, claro,
escapa à sua exaustiva pesquisa "agendográfica" o tempo necessário para
reorganizar um ministério que, ele próprio reconhece, funcionava à base
da interinidade.
Mas uma contribuição, faça-se justiça, a conversa de Villa traz.
Ao citar Paul
Lafargue, um pensador socialista do século 19 (e genro de Karl Marx),
ele relembra a questão do direito, não do ministro, mas dos
trabalhadores, a uma jornada de trabalho que reserve tempo para o
direito humano ao lazer, à família, à cultura... As jornadas de então,
12 horas diárias nos países centrais, ainda são realidade para muitos
brasileiros. É uma discussão atual e necessária que, embora amortecida
pela crise da economia mundial, precisa ser travada pelo Brasil.
A luta do
movimento sindical pela jornada de 40 horas, que sempre teve o apoio
militante de Brizola Neto quando deputado, segue um compromisso
trabalhista que todos nós, seus colaboradores, sustentamos.
(Mas, lamento
informar ao historiador, não cumprimos tal jornada em nossas próprias
funções, que por vezes nos absorvem até por 14 horas e nunca menos de
dez horas diárias.)
Ao relevante, pois.
Em março, o
Ipea revelou que quase metade dos trabalhadores pesquisados não se
desliga totalmente do trabalho ao fim da jornada formal.
Novas
tecnologias, em vez de gerarem tempo livre, reduzem-no. Um quarto dos
trabalhadores são obrigados pelos superiores a ficar de prontidão, 8%
precisam desenvolver atividade extra por celular ou internet, 40% dizem
que a qualidade de vida é afetada pela jornada exaustiva e 10% revelaram
que até relações familiares se degradam por isso.
A tecnologia
não raro vem se convertendo em instrumento para retornar a jornada e a
disponibilidade do trabalhador -e notadamente do de classe média- aos
padrões horários do escravismo.
O artigo do
senhor Villa foi publicado no mesmo dia em que, em vários pontos do
país, transportadores autônomos se insurgem contra uma lei "absurda",
que obriga motoristas de carretas de 30 ou 40 toneladas e de ônibus
cheios de passageiros a não dirigirem ininterruptamente por mais de
quatro horas e não mais que dez horas por dia.
Que perda de
"produtividade", não? Os milhares de vidas humanas e os milhões em danos
materiais provocados por esta que é a maior fonte de acidentes
rodoviários não ocuparam nem o espaço de uma boa reportagem na maioria
dos jornais.
Mas é natural que o historiador de agendas esteja ocupado demais com querelas e fuxicos para dar atenção à história.
FERNANDO BRITO, 53, jornalista, é chefe do gabinete do ministro do Trabalho
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