Falácia. Alves e Teixeira dizem defender a “liberdade de imprensa”. Mas quem disse que ela está ameaçada? Fotos: Eduardo Maia/DN/D. A Press e Andre Dusek/AE |
Na terça-feira 14, de posse de uma análise preparada por técnicos da
CPI do Cachoeira a partir de interceptações telefônicas e documentos da
Polícia Federal, o deputado Dr. Rosinha (PT-PR) estava pronto para um
embate e tanto: requerer a convocação do jornalista Policarpo Jr.,
diretor da revista Veja em Brasília. Seria a segunda tentativa
da CPI de ouvir Policarpo, mas o PT decidiu retirar o assunto de pauta,
por enquanto, até conseguir convencer o PMDB a participar da
empreitada. Antes, o senador Fernando Collor (PTB-AL) havia tentado sem
sucesso convocar o jornalista.
O documento de mais de cem páginas elaborado por técnicos da CPI, publicado em seus principais detalhes na edição passada de CartaCapital,
prova de diversas maneiras a ligação de Policarpo Jr. com o bicheiro
Carlinhos Cachoeira, a quem o diretor da semanal da Editora Abril chegou
a solicitar um grampo ilegal contra o deputado Jovair Arantes
(PTB-GO).
Na segunda-feira 13, um dia antes da data prevista para
Dr. Rosinha se manifestar, uma tensa reunião ocorrida na casa do
deputado Jilmar Tatto (SP), líder do PT na Câmara, tornou possível
dimensionar a força do lobby da Abril sobre a bancada de quatro
deputados do PMDB na comissão. O grupo atendia aos apelos do
vice-presidente da República, Michel Temer, presidente do partido, e do
deputado Henrique Eduardo Alves, líder da sigla na Câmara.
Constrangidos, incapazes de articular uma desculpa coerente, os
peemedebistas da CPI continuam a negar apoio ao PT na empreitada. Na
reunião, voltaram a se prender à falsa tese dos riscos da convocação à
“liberdade de imprensa” no País. Eram eles os deputados Luiz Pitiman
(DF) e Iris de Araújo (GO) e os senadores Sérgio de Souza (PR) e Ricardo
Ferraço (ES).
Não há, obviamente, nenhuma relação entre um jornalista depor em uma
CPI e um suposto atentado à liberdade de imprensa. No caso de Policarpo
Jr., o argumento soa ainda mais esdrúxulo, uma vez que o jornalista já
depôs na Comissão de Ética da Câmara, em 22 de fevereiro de 2005, no
processo de cassação do ex-deputado André Luiz (PMDB-RJ).
Policarpo lá esteve, como voluntário, para defender ninguém menos que
Cachoeira, a quem André Luiz pretensamente queria subornar para evitar a
inclusão do nome do bicheiro no relatório final de outra CPI, a da
Loterj (estatal fluminense de loterias), na Assembleia Legislativa do
Rio de Janeiro.
Na casa de Tatto, a defesa da liberdade de imprensa foi o bastião dos
peemedebistas. Do lado do PT, além do anfitrião e de Dr. Rosinha,
estavam os deputados Odair Cunha (MG), relator da comissão, e Emiliano
José (BA) e o senador José Pimentel (CE). Por mais de uma hora, os
petistas revezaram-se na argumentação baseada tanto no documento
preparado pelos técnicos da comissão quanto na reportagem de CartaCapital. Pouco adiantou. O PMDB não tinha ido negociar, apenas reforçar a orientação de Temer e Alves.
Sem o PMDB, o PT jamais conseguirá convocar Policarpo Jr. ou
qualquer outro figurão da mídia nacional, embora se trate de um partido
da base governista e tenha o vice-presidente nos quadros do governo
Dilma Rousseff. A posição de Temer sobre o assunto é mais do que
conhecida, embora as razões ainda sejam obscuras. Há três meses, ele se
reuniu separadamente em jantares no Palácio do Jaburu, residência
oficial do vice em Brasília, com Fábio Barbosa, presidente da Editora
Abril e braço direito do dono da empresa, Roberto Civita, e com João
Roberto Marinho, vice-presidente das Organizações Globo. A ambos
prometeu que o PMDB iria barrar a convocação de jornalistas.
No caso de Alves, há uma razão empresarial e outra política para o
parlamentar potiguar se curvar aos interesses do baronato da mídia. A
família Alves é dona do Grupo Cabugi, que detém os direitos de
retransmissão da TV Globo no Rio Grande do Norte. Além disso, Alves
pretende ser o próximo presidente da Câmara, o que dificilmente
conseguirá, se virar alvo de uma campanha na mídia, Veja à frente.
Causa estranheza, contudo, o grau de submissão dos integrantes do PMDB
na CPI do Cachoeira aos interesses pessoais dos caciques do partido.
Embora tenham cautela de não se pronunciar em público a respeito, é
certo que a maioria é a favor da convocação de Policarpo Jr. A tese do
atentado à liberdade de imprensa, de tão risível, nem sequer é
considerada seriamente pelo grupo, que só tem coragem de sustentá-la em
reuniões fechadas, ainda assim com a ressalva de seguirem a orientação
do partido.
A oposição – DEM, PSDB e PPS – trabalha em absoluta sintonia com os
interesses da Editora Abril, e mesmo entre os governistas o assunto é
tabu. A principal voz a se levantar contra a ida de Policarpo à CPI,
aliás, vem da base.
Em tom alarmista, o deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) tem alertado a quem
quiser ouvir do perigo de o Brasil se transformar em um Estado
policial caso o diretor da revista seja obrigado a explicar por que
recebia encomendas e fazia pedidos ao bicheiro. “A intimidação, a
coação, poderá ir ao plano estadual, ao plano municipal”, desesperou-se o
deputado.
Teixeira equivoca-se. Como se pode comprovar na investigação no Reino
Unido das malfeitorias cometidas por jornalistas do grupo de comunicação
do magnata Rupert Murdoch, o que realmente ameaça a liberdade de
imprensa e a democracia é a união entre jornalismo e bandidagem.
Irritado, o líder do PT argumentou que a ida de Policarpo Jr. à CPI em
nada ameaçava a mídia livre. “Trata-se de convocar um senhor que começa
a envergonhar a categoria dos jornalistas”, disse Tatto. Frustrado por
nem poder colocar em pauta a convocação do jornalista, Dr. Rosinha
desabafou: “Criou-se uma casta de intocáveis na CPI. Podemos convocar
deputados e governadores, mas não jornalistas envolvidos com o crime
organizado”.
Sobre o assunto, a velha mídia tratou em notinhas esparsas. Andou mais
preocupada com os humores do ministro Gilmar Mendes, do Supremo
Tribunal Federal, cujo nome apareceu na lista do mensalão tucano, em
Minas Gerais, como beneficiário de 150 mil reais. Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, Mendes pediu à Procuradoria-Geral da República para abrir inquérito contra CartaCapital, autora da denúncia.
O ministro não nega ter recebido o dinheiro, mas o fato de que, na
época, em 1998, fosse advogado-geral da União. Na lista, a referência a
Mendes aparece ao lado da sigla AGU, provavelmente por ele trabalhar na
Subchefia de Assuntos Jurídicos da Casa Civil da Presidência, órgão
ligado à Advocacia-Geral. Não se sabe por que o ministro decidiu usar o
Ministério Público para lhe advogar de graça, numa causa privada.
Leandro Fortes
No CartaCapital
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