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| A nova face de Robin Hood? |
"Temos que criar um outro conceito de criação!"
O
antropólogo Eduardo Viveiros de Castro instiga-nos a pensar sobre
antropofagia, imperialismo, Creative Commons vs. copyright, criação e
sampler na era na Cibercultura, dentre outros tópicos
Qual
é o modelo típico, a trajetória típica do intelectual brasileiro (ou,
aliás, norte-americano também)? É o menino de província, nascido na
cidade pequena, e que está o tempo todo sonhando com o Rio de Janeiro
ou São Paulo. Esse modelo do sujeito que espera o suplemento dominical
do jornal como se fosse a Bíblia, a hóstia, que encomenda livros da
capital, meses a fio à espera das notícias culturais da metrópole.
Éramos todos meninos do interior; inclusive os cariocas e paulistas –
nossa metrópole era estrangeira, apenas.
Isso acabou.
Hoje tudo está dado. Você descarrega livro [da Internet], pega tudo.
Há uma democratização gigantesca, desde que você tenha um computador
de banda larga, que no Brasil talvez se expanda com esse projeto do
governo de pontos de inclusão digital, quiosques digitais, que é uma
coisa interessante, treinar jovens de pequenas cidades do interior para
operar internet. Há esse problema da perda da diferença, da
estandartização, mas é aquela coisa: fica tudo igual, mas algumas
diferenças são potencializadas ao mesmo tempo em que outras se
equalizam.
É
uma coisa ambígua, feito a globalização. Lévi-Strauss falava já em
1952: “É inexorável, a cultura ocidental vai se universalizar, mas não
pensem que isso vai diminuir as diferenças, elas vão passar a ser
internas, em vez de ser externas”; e talvez aumentem, ao longo de
dimensões de cuja existência sequer suspeitamos. A cultura ocidental vai
explodir de diferenças internas, ao invés do modelo clássico da
invasão dos bárbaros.... A cultura ocidental vai se universalizar e, no
que ela se universalizar em termos de extensão, ela vai se
particularizar em termos de compreensão, vai se tornar cada vez mais
caótica internamente, cada vez mais dividida, produzindo toda sorte de
esquisitices e originalidades e assim por diante. A internet vai ser um
pouco isso...
Estamos
longe de saber o que vai acontecer com a internet daqui a dez anos. Em
1990 eu comprei meu primeiro computador. Em 1991 comecei a me
comunicar por computador com outros colegas pela Bitnet, que era uma
rede universitária sem a interface gráfica world wide web. Tudo o
que havia era o correio eletrônico com colegas universitários.
A Internet era uma rede de comunicação de cientistas, foi pouco a pouco
sendo usada por semicientistas como nós, depois por toda a comunidade
acadêmica e depois foi aberta para o comércio, virando isso que é hoje.
O
Creative Commons é uma tentativa a meu ver altamente meritória.
Eles estão tentando evitar que o mundo virtual seja cercado, assim como
foi o mundo geográfico. Que ele seja privatizado. É uma tentativa de
manter a informação como um bem de domínio público. O grande ponto para o
Creative Commons é que a informação não segue o regime da soma zero,
que ela pode ser passada para frente e não diminui com isso. Isso não
significa que um autor deva ser plagiado; o ponto é facilitar a
circulação.
O
grande processo que iniciou a Revolução Industrial inglesa foi o
cercamento dos campos comunais das aldeias, usados por todos para
pastagem etc., que eram os commons. Por isso que o projeto se chama Creative Commons. Os commons
eram as áreas das comunidades rurais inglesas que eram de uso comum.
As terras de agricultura em geral eram terras sem cerca, as
divisões eram consensuais, você tinha a noção costumeira de onde
começava e acabava a terra de alguém. Depois os grandes proprietários
começaram a comprar o terreno, colocar cerca, impedir a circulação. O
Creative Commons é uma tentativa de reconstituir esse regime da
apropriação comum, do uso comum, do uso coletivo, no plano dos bens
intelectuais, dos bens imateriais.
A idéia é que o copyright
significa “all rights reserved” e o Creative Commons significa “some
rights reserved”. E você diz quais são eles. Existem várias fórmulas,
vários tipos de licenças abertas. Trata-se de tentar criar um modo de
coabitação no plano da informação que seja tolerável, e que evite o que
está acontecendo, que é o controle da informação pelas grandes
companhias.
Agora
isso tudo ainda é, de certa forma, um paliativo. O Creative Commons
pode ser visto, como o é efetivamente pelos mais, digamos, radicais,
como um estratagema capitalista. O verdadeiro anarquista não quer saber
de Creative Commons nem de copyleft, é totalmente radical.
A princípio estou com eles, acho a propriedade privada uma
monstruosidade, seja ela intelectual ou não, mas sei também que não
adianta dar murro em ponta de faca, tapar o sol com a peneira. Acho que
você tem que transigir, tem que fazer algum tipo de negociação. O
Creative Commons é um grande avanço intelectual.
Esse
é o ponto. O Creative Commons está tentando consagrar do ponto
de vista jurídico o processo de hibridização, a antropofagia, o saque
positivo, o saque como instrumento de criação. Estão tentando fazer com
que o saque e a dádiva possam se articular. Eu sampleio e dou, não é “eu sampleio e vendo, vou ficar rico”. A idéia é “sampleio, mas também dou”, um processo em que saque e dádiva se tornam, de alguma maneira, mutuamente implicados um no outro.
A
citação, que é o dispositivo modernista por excelência de criação, é
na verdade o reconhecimento de que não há criação absoluta, a criação
não é teológica, ex nihilo, você sempre cria a partir de algo que já
existe. Como a famosa frase do Chacrinha: “Nada se cria, tudo se copia”.
E como se sabe, nada se copia igualzinho, ao se copiar sempre se cria,
quanto mais igual se quer fazer mais diferente acaba ficando: a
“contribuição milionária de todos os erros”, dizia Oswald de
Andrade, darwinista infuso. Foi de tanto falar latim que os europeus
acabaram falando português, francês, espanhol...
Na
verdade, toda nossa teoria da criação é a de que existe uma
oposição radical, uma oposição intransponível entre criação e cópia. O
criar e o copiar são os dois extremos de um processo, quer dizer, o
criador é aquele que precisamente tira de si tudo o que precisa, e o
plagiário é aquele que tira dos outros. O plagiário é um saqueador, e o
criador é o doador absoluto. A dádiva é uma modalidade da criação, a
criação é uma modalidade da dádiva, talvez a criação seja a dádiva
pura, e aí você vê bem as raízes teológicas desse modelo: Deus criou o
mundo do nada, tirou de si mesmo. A criação é o modelo do poeta, do
criador como uma divindade no seu próprio departamento, que é o modelo
romântico do gênio como um criador, um pequeno deus, uma pequena
divindade, que tira de si mesmo a criação.
Do
outro lado está o plagiário, o diluidor. Isso está inclusive na
célebre tipologia poundiana difundida pelos irmãos Campos: o mestre, o
inventor e o diluidor. Ora, o que foi de alguma maneira se
consolidando na consciência moderna é a idéia de que a criação precisa
da cópia, a idéia da bricolagem de Lévi-Strauss, de que toda criação nasce numa espécie de permutação realizada sobre um repertório já existente. [...] O sampler está redefinindo o estatuto da citação...
Nós
só temos um dispositivo citacional, antigo, e aliás nem tão antigo
assim, que são as aspas. Uma invenção complexa, um objeto muito mais
complicado semanticamente do que parece. Mas está na hora de começarmos a
inventar outras maneiras de articular discursos que não sejam as
aspas, e o sampler é uma delas. Com o sampler você passa do todo à
parte, da parte ao todo, do outro para você e de você para o outro sem
costura...
A
possibilidade tecnológica que você tem hoje de cortar as coisas em
lugares que antes não podia, há outra margem de manobra. Daí a
importância do copyleft, porque ele permite que você essubstancialize a
obra, permite que ela seja distribuída, no sentido de distributed cognition.
Quer dizer, ela se torna um objeto que pode divergir, heterogeneíza a
obra. Uma obra que tem uma tendência, sobretudo a partir da época
romântica, de ser vista como uma totalidade orgânica. A idéia da
organicidade da obra, do caráter de ser uno e total.
O
que se vê hoje é que a obra é tudo menos una e total, a criação
artística produz objetos que são tudo menos unos e totais. A famosa obra aberta do Umberto Eco, que já é um conceito antigo. Estamos na verdade fazendo um replay de discussões da década de 1960 e 70, ou antes ainda, o ready-made do Duchamp, e assim por diante. Um replay está
sendo feito simplesmente porque agora existe uma potência tecnológica,
uma possibilidade de atualização dessas discussões e de implementação
que elas não tinham antes.
O
que pode ser repensado é o estatuto da noção de criação, não para
dizer que não é mais possível criação, mas para redefini-la de uma
maneira criativa, digamos assim. Temos que criar um outro conceito de
criação. Trabalhamos atualmente com um conceito, por um lado, velho como
o cristianismo (criação bíblica) e, por outro lado, com o do
romantismo, a criação como manifestação, emanação de uma sensibilidade
sui generis do indivíduo privilegiado.
Esses
dois modos de conceber a criação não dão mais conta do que está se
processando nesse mundo atual. Está havendo tanta criação quanto havia
antes, não creio que esteja havendo menos. O que houve foi uma mudança
das condições. Mudaram as condições de criação, mudaram as condições de
distribuição. [...] A criação artística está ficando cada vez mais
parecida com a criação científica, que sempre foi um trabalho em rede,
em que você trabalha em cima do trabalho dos outros, que exige todo um
aparato institucional complexo de produção propriamente coletiva.
Nós
temos que virar Robin Hood. Saquear para dar. O ideal é mesmo tirar
dos ricos para dar aos pobres. É isso aí, sempre foi e sempre será. A
antropofagia o que é? Tirar dos ricos. Entenda-se: “vamos puxar da
Europa o que nos interessa”. Vamos ser o outro em nossos próprios
termos. Pegar a vanguarda européia, trazer para cá, e dar para as
massas. “A massa ainda comerá do biscoito fino que eu fabrico”. A
internet, ou as novas tecnologias de informação, ou as novas formas
de criação, permitem que nós possamos, nós todos, realizar nosso sonho
de infância e nos tornarmos Robin Hood. Quem não quis ser Robin Hood? E
depois, como o mundo virou brasileiro, “tudo é Brasil”, a antropofagia
mudou um pouco de contexto. A antropofagia deu certo, nesse sentido.
EDUARDO VIVEIROS DE CASTRO
in: "Encontros" (org. Renato Sztutman)
Editora Azougue Editorial





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