Na primeira aula do curso de
pesquisa de opinião, o aluno aprende as coisas básicas da profissão. Uma
é ter cuidado com as perguntas indutivas.
É esse o nome que se dá às que são formuladas com um enunciado que oferece informação ao entrevistado antes que ele responda.
Há diversos tipos de indução,
alguns dos quais muito comuns. Quem não conhece, por exemplo, a pergunta
chamada de "voto estimulado", feita habitualmente nas pesquisas
eleitorais? Ela pede ao respondente que diga em quem votaria, tendo em
mãos uma lista com o nome dos candidatos.
É claro que, assim procedendo, avalia-se coisa diferente do "voto espontâneo".
Para diminuir o risco de que a
indução conduza os entrevistados a uma resposta, recomenda-se evitar que
o pesquisador leia nomes. Mesmo inadvertidamente, ele poderia sugerir
alguma preferência, seja pela ordem de leitura, seja por uma possível
ênfase ao falar algum nome. Daí, nas pesquisas face a face, o uso de
cartões circulares, onde nenhum vem antes.
Essa cautela — e outras
parecidas — decorre da necessidade de ter claro o que se mede. Sem ela,
podemos confundir o significado das respostas.
Dependendo do nível de indução, o
resultado da pesquisa pode apenas refletir a reação ao estímulo. Em
outras palavras, nada nos diz a respeito do que as pessoas genuinamente
pensam quando não estão submetidas à situação de entrevista.
Para ilustrar, tomemos um exemplo hipotético.
Vamos imaginar que alguém quer
saber se as pessoas lamentaram a derrota da equipe de vôlei masculino na
disputa pela medalha de ouro na Olimpíada. A forma "branda" de
perguntar talvez fosse começar solicitando que dissessem se souberam do
resultado e como reagiram — sem informar o placar.
Outra, de indução "pesada",
seria diferente. A pergunta viria a seguir a um enunciado do tipo "O
Sr./A Sra. ficou triste ao saber que o Brasil perdeu para a Rússia,
depois de liderar o jogo inteiro e precisar apenas um ponto para se
sagrar campeão olímpico?"
Nessa segunda formulação, ela
não somente induz um sentimento (mencionando a noção de "tristeza"),
como oferece um motivo para ele (a ideia de ter estado perto de alcançar
algo desejável).
É muito provável que os
resultados das duas pesquisas fossem diferentes. Na primeira, teríamos a
aferição da resposta espontânea — e mais real. Na segunda, a mensuração
de uma reação artificialmente inflada. Em última instancia, fabricada
pela própria entrevista.
É o que aconteceu com a recente
pesquisa do Datafolha sobre os sentimentos da opinião pública a respeito
do "mensalão" e seu julgamento.
Contrariando o que se esperaria
de um instituto subordinado a um jornal, não deixa de ser curioso que
decidisse fazer seu primeiro levantamento sobre o assunto 10 dias depois
do início do processo no Supremo. Dez dias depois de ter sido pauta
obrigatória nos órgãos da "grande imprensa". Dez dias depois de um
noticiário sistematicamente negativo — como aferiram observadores
imparciais.
Preferiu pesquisar só depois que a opinião pública tivesse sido "aquecida". Foi à rua medir o fenômeno produzido.
Não
bastasse a oportunidade, a pesquisa abusou de perguntas indutivas, que
tendiam a conduzir os entrevistados a determinadas respostas. Como diz a
literatura em língua inglesa, fornecendo-lhes "pistas" sobre as
respostas "corretas".
Mas o mais
extraordinário foi seu uso editorial, na manchete que ressaltava que a
maioria desejava que os acusados fossem "condenados e presos".
Parecia de encomenda: embora o
resultado mais relevante da pesquisa fosse mostrar que 85% dos
entrevistados sabiam pouco ou nada do assunto, o que interessava era
afirmar a existência de um desejo de punição severa.
E quem se importa com o que estabelecem as normas das boas pesquisas!
Por; Marcos Coimbra - Correio Braziliense -
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