Guerrilheiro Virtual

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Luz amarela para o PSDB


O terceiro turno da eleição municipal começou antes mesmo de o segundo terminar. Enquanto os eleitores ainda votavam, a disputa pelo troféu do "grande vencedor" já estava em curso. Políticos, lideranças partidárias, observadores e comentaristas entraram em campo, desde a manhã de domingo, apresentando sua interpretação do "sentido da eleição" e decretando quais eram, a seu ver, os ganhadores e os perdedores.
 
Em política, como em várias coisas na vida, às vezes importa mais a versão do que o fato. Adequadamente embalada, a narrativa sobre o ocorrido pode até prevalecer sobre o que efetivamente se passou. É possível ganhar e ser derrotado, assim como perder e posar como vencedor. Depende, no fundo, de quão alto se bate o bumbo na propagação da versão que sobrepuja as outras.
 
Não que seja decisivo esse terceiro turno. No fim da eleição municipal de 2008, por exemplo, a mídia se encheu de análises que afirmavam que o PMDB havia se tornado a "noiva cobiçada" na disputa presidencial seguinte.
 
Falso. O partido já era, desde a eleição legislativa de 2006, desejado como parceiro por petistas e tucanos, fundamentalmente por ter eleito a maior bancada na Câmara e ter vasto tempo de televisão. Não era por ter muitos prefeitos em cidades pequenas e algumas capitais que queriam se casar com ele. Todos sabem que isso conta pouco na hora de ganhar a eleição para o Planalto. Pela simples razão que a maioria dos eleitores não acha relevante ouvir o prefeito quando escolhe o candidato a presidente.
 
Para as oposições e os setores da sociedade — e da imprensa — mais hostis ao que chamam de lulopetismo, o terceiro turno da eleição recém -concluída está sendo complicado. De um lado, precisam reduzir o significado do desempenho objetivo de Lula e do PT, especialmente em função do resultado em São Paulo. De outro, têm que produzir "vencedores", nem que seja às custas de alguma prestidigitação.
 
O fato é que as eleições foram ruins para as oposições. Em especial, para o PSDB. De 2004 para cá, o total de prefeitos que elegeu, com o DEM e o PPS, caiu quase à metade. O número de vereadores diminuiu — apesar do aumento de vagas. Suas bases municipais, tão necessárias para a eleição legislativa, estão se esgarçando ano após ano.
 
O PSBD não fez, em 2012, o prefeito de nenhuma das 7 capitais das regiões Sul e Sudeste — sequer apresentou candidato em 3 e foi derrotado em 4. No segundo turno, ganhou apenas 5 prefeituras nas 34 cidades dessas regiões que o realizaram.
 
Saiu-se bem na Região Norte e em algumas capitais menores do Nordeste. Em São Paulo, foi derrotado na capital e viu o PT vencer em 7 das 10 maiores cidades do estado. Na tentativa de desqualificar a vitória de Fernando Haddad, começou a circular, desde a semana passada, a tese de que é de Serra a responsabilidade exclusiva pela debacle. Que, em outras palavras, o único derrotado foi ele. Dizer, no entanto, que "a culpa é do Serra!" — como até Kassab se apressa em declarar — expressa apenas parte da verdade.
 
O que foi julgado e reprovado o ultrapassa: um discurso, uma proposta de governo, uma "turma". O eleitorado da cidade rejeitou mais que um indivíduo. Os problemas do PSDB preocupam a democracia. Quando a oposição legítima se enfraquece, abre-se o caminho para toda sorte de fantasia extrapolítica. É nesse vazio que viceja o golpismo.
 
Quem perde a esperança de vencer na urna faz de tudo para levar o jogo para o tapetão.
 
Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

”Sendo este um espaço democrático, os comentários aqui postados são de total responsabilidade dos seus emitentes, não representando necessariamente a opinião de seus editores. Nós, nos reservamos o direito de, dentro das limitações de tempo, resumir ou deletar os comentários que tiverem conteúdo contrário às normas éticas deste blog. Não será tolerado Insulto, difamação ou ataques pessoais. Os editores não se responsabilizam pelo conteúdo dos comentários dos leitores, mas adverte que, textos ofensivos à quem quer que seja, ou que contenham agressão, discriminação, palavrões, ou que de alguma forma incitem a violência, ou transgridam leis e normas vigentes no Brasil, serão excluídos.”