Julian Assange, dono do Wikileaks, ganha direito a se exilar no
Equador, dado pelo presidente Rafael Correa; mas Inglaterra ameaça
invadir representação do país em Londres, onde ele está refugiado, para
prendê-lo; ex-diplomata inglês alerta que embaixadores britânicos em
todo o mundo estariam em risco; precedente de território nacional seria
quebrado; é o ódio contra a liberdade de imprensa.
247 – O governo do Equador ignorou o informe da
Inglaterra de que tomaria ações para prender Julian Assange, fundador do
Wikileaks, e concedeu asilo ao jornalista australiano, que está
refugiado na embaixada do país em Londres. O anúncio foi feito à
imprensa pelo ministro das Relações Exteriores do Equador, Ricardo
Patiño, por volta de 9h40. O Reino Unido se disse "desapontado" com a
decisão. Em frente ao local, o clima é tenso e três pessoas já foram
presas pela Scotland Yard durante protesto em defesa de Assange. Há mais
de 700 pessoas diante do prédio, dispostas a evitar que polícia
britânica invada a embaixada. Leia aqui, em espanhol, a íntegra do comunicado do Equador.
O jornal "The Guardian", um dos de maior prestígio da Inglaterra, já
havia antecipado que a decisão seria favorável ao ativista, acusado de
assédio sexual na Suécia. Num clima de intensa pressão, autoridades do
Equador anunciaram que receberam ameaças da Inglaterra sobre uma
possível invasão à embaixada – o que seria considerado, por parte do
Equador, como um ato hostil e de guerra, por violar tratados
internacionais. O governo de Rafael Correa já marcou uma reunião para
discutir a ameaça e formular uma resposta ao governo britânico.
Não se sabe ainda qual será o próximo passo. Se Assange sair da
embaixada agora, a Inglaterra tem a obrigação de prendê-lo, já que ele
cumpre prisão domiciliar no país. A maior dificuldade é tirar o
jornalista do prédio sem que ele seja preso pela polícia inglesa, que
vigia o local sem trégua. Caso conseguisse deixar o local em segurança,
ele poderia entrar num carro diplomático para ir até o aeroporto a fim
de deixar a Grã-Bretanha, mas teria de sair do veículo em algum momento.
Segundo Patiño, a situação do jornalista é "perigosa", já que ele é
responsável pela divulgação de segredos muito bem guardados, inclusive
do Pentágono na invasão do Iraque e, por isso, corre o risco de sofrer
represálias.
Assange se tornou protagonista de uma batalha global pela liberdade
da informação – além, é claro, de inimigo público dos Estados Unidos.
Para defendê-lo, foi contratado como advogado o juiz espanhol Baltazar
Garzón, que é também uma celebridade internacional e foi responsável
pela prisão do ditador chileno Augusto Pinochet. O jornalista está
refugiado desde 19 de junho na embaixada do Equador em Londres para não
ser extraditado à Suécia, onde responde pelos processos e afirma que sua
vida correria riscos.
Abaixo, noticiário da Reuters anterior à concessão do asilo, sobre possível rompimento diplomático entre Inglaterra e Equador:
LONDRES, 16 Ago (Reuters) - A Grã-Bretanha afirmou ao Equador nesta
quinta-feira que conceder asilo político a Julian Assange não mudaria em
nada a situação e que isso poderia causar a revogação do status
diplomático da embaixada do governo equatoriano em Londres para permitir
a extradição do fundador do WikiLeaks.
O governo equatoriano, que deve anunciar a sua decisão sobre o pedido
de asilo de Assange às 9h (horário de Brasília) desta quinta-feira,
afirmou que qualquer tentativa de remover o status diplomático de sua
embaixada seria considerada "hostil e um ato intolerável".
"É muito cedo para dizer quando ou se a Grã-Bretanha irá revogar o
status diplomático da embaixada equatoriana", afirmou um porta-voz do
Departamento de Relações Exteriores pelo telefone.
"Dar asilo não muda fundamentalmente nada", disse o porta-voz,
acrescentando que a Grã-Bretanha tinha o dever legal de extraditar
Assange para a Suécia, onde ele é requisitado para enfrentar um
julgamento por estupro.
O governo equatoriano se irritou com a ameaça.
"Queremos ser bem claros, nós não somos uma colônia britânica. Os
tempos coloniais acabaram", disse o chanceler equatoriano, Ricardo
Patiño, em comunicado furioso após uma reunião com o presidente do
Equador, Rafael Correa.
"A medida anunciada no comunicado oficial britânico, caso aconteça,
será interpretada pelo Equador como antipática, hostil e um ato
intolerável, assim como um ataque à nossa soberania, o que nos forçaria a
responder da maneira diplomática mais forte possível", Patiño disse a
repórteres.
Em Londres, policiais britânicos e manifestantes cantando slogans em
apoio a Assange entraram em confronto do lado de fora da embaixada
equatoriana nesta quinta-feira, após a Grã-Bretanha afirmar que poderia
entrar no prédio para deter o fundador do WikiLeaks, que está abrigado
no local.
Cerca de 20 policiais estavam do lado de fora do prédio tentando
afastar o grupo de cerca de 15 manifestantes. Pelo menos três pessoas
foram arrastadas pela polícia, enquanto o grupo gritava: "Vocês estão
tentando começar uma guerra com o Equador."
(Reportagem de Mohammed Abbas e Alessandra Prentice)
Do Brasil247

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