Os grandes grupos de mídia brasileiros não se prepararam para a
cobertura do julgamento do mensalão. Sua parafernália foi montada com
outro intuito: noticiar o dia a dia de uma condenação
Os grandes grupos de mídia brasileiros não se prepararam para a
cobertura do julgamento do mensalão. Sua parafernália foi montada com
outro intuito: noticiar o dia a dia de uma condenação.
Se não de todos os 38 réus, pelo menos das principais figuras do PT e de
outros partidos que foram acusadas. Junto com alguns dos personagens de
fora da política que se tornaram simbólicos dos eventos que suscitaram
as denúncias.
A “grande imprensa” faz plantão na porta do Supremo Tribunal Federal aguardando a condenação. O julgamento é um detalhe, uma burocracia que só retarda o desfecho que espera - e deseja.
A rigor, ela não demonstra interesse pelo que vai acontecer no STF, de
agora até que o último réu seja julgado. Parece achar que a história do
mensalão já foi escrita.
É irrelevante se o jornalista ou seu empregador estão convencidos da
culpa de alguém. Até porque a última preocupação que têm é com a
Justiça. Suas convicções políticas, suas antipatias e simpatias impedem a
isenção exigida para julgar.
Muitas pessoas acreditam que o pleno exercício do papel da imprensa
requer o que chega a ser exacerbação crítica. Sem uma incansável
disposição de recusar a verdade estabelecida, sem ser sistematicamente
“do contra”, ela seria dispensável. No limite, como dizia Millôr
Fernandes, “Jornalismo é de oposição, o resto é armazém de secos e
molhados”.
Certa ou errada a frase (e, no Brasil de hoje, nada menos oposicionista -
no sentido que Millôr dava à palavra - que os veículos da indústria de
comunicação, que costumam ser apenas porta-vozes do situacionismo de
ontem), o que ela ressalta é a incongruência entre julgar e fazer
imprensa investigativa.
Essa pode - e talvez deva - ir mais longe na denúncia que o justo
(considerando, é claro, os veículos e profissionais que se mantêm no
jornalismo e ignorando os agentes do jogo ideológico de baixa
qualidade).
O mesmo vale para a atuação do Ministério Público. Excessos saudáveis de
alguns de seus integrantes ajudaram no amadurecimento de nossas
instituições, ainda debilitadas pelo autoritarismo. Promotores
“incômodos” são mais úteis à sociedade que os “bonzinhos”.
De novo, isso é incompatível com a função de julgar. “Carregar nas
tintas” de uma denúncia é permissível, e, por isso mesmo, alguém tem que
evitar que se convertam, automaticamente, em punição.
O julgamento do mensalão não é o endosso dos ministros do STF ao que a
“grande imprensa” diz e nem tampouco o referendo da denúncia apresentada
pelo Procurador-Geral. É o momento em que a acusação deixa de ser
unilateral e a defesa - tão legítima quanto ela - é ouvida.
Dele, ninguém deve sair condenado sem prova irrefutável de culpa.
Nossa “grande imprensa” se colocou em uma posição delicada. De tanto
apostar na condenação - seja por estar convencida da excelência de sua
investigação, seja para golpear o “lulopetismo”-, ficou sem saída.
Ou o STF faz o que ela quer ou está obrigada a repudiar seu pronunciamento.
Caso não venham as penas, como se explicará a seus leitores e à opinião
pública? Reconhecerá que se excedeu, que atacou sem provas, que destruiu
imagens e reputações irresponsavelmente?
Ou vai insistir que estava certa e errado é o julgamento do Supremo?
Que, portanto, os cidadãos brasileiros não podem confiar na Justiça?
Para ela, só pode haver um desfecho: a condenação. Mas que julgamento seria esse, se todos já foram condenados?
O que a “grande imprensa” brasileira menos quer é que o Supremo julgue. Ela já fez isso.
E não admite a revisão de seu veredicto.
Marcos Coimbra é sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi

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