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quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Vitória em Gaza (1): “Iran congratula-se com a Resistência palestina”

Al-Manar TV, Líbano
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O Irã congratulou-se hoje com a Resistência e o povo palestino pela vitória contra a entidade sionista, e criticou o silêncio internacional em geral e dos árabes em particular.

O porta-voz do ministro das Relações Exteriores do Irã, Ramin Mehmanparast, congratulou-se com a Resistência palestina pela vitória contra Israel e criticou “o silêncio das instituições internacionais e o apoio que governos ocidentais deram às ações criminosas de Israel”.

Mehmanparast disse que “a vitória dos palestinos contra o regime sionista significa o fim das agressões por aquele regime” e exigiu “o fim imediato do sítio de Gaza, que isolou a região do resto do mundo”. E que “os países muçulmanos devem manter-se vigilantes contra as tentativas divisionistas que vêm do regime sionista e devem preservar sua unidade”.

Saeed Jalili, Secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã
Paralelamente, o secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, Saeed Jalili, alertou, na 5ª-feira, Israel e os EUA para que não voltem a repetir ataques semelhantes contra os palestinos.

A República Islâmica do Irã congratula-se com o povo palestino oprimido, pela vitória contra o regime sionista, na guerra de oito dias, e conclama os grupos da Resistência a prosseguir com vigor na luta para atender aos clamores do povo, em unidade e confiando na Resistência como única via para libertar seus territórios da ocupação israelense” – como publicou a rede IRNA, citando Jalili.

Depois que a entidade sionista foi derrotada em guerra de 33 dias (em julho de 2006 no Líbano) e em guerra de 22 dias (em 2008/2009, no ataque de Israel a Gaza), dessa vez foi derrotada em oito dias – o que diz muito sobre sua fraqueza crescente, que contrasta com a força crescente da Resistência” – completou o secretário.

Jalili também distribuiu declaração em que conclama “os países muçulmanos a cumprir o papel que lhes cabe, de ajudar a libertar a cidade santa de Al-Qods [Jerusalém), tomando medidas efetivas para esse objetivo”.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Movimento Não-Alinhado apoia programa nuclear do Irã

Estados Unidos e alguns de seus aliados suspeitam que o país desenvolva em segredo um programa nuclear bélico.

AE - Agência Estado
 
TEERÃ - Os mais de cem integrantes do Movimento dos Países Não-Alinhados manifestaram nesta sexta-feira, 31, apoio ao direito do Irã de desenvolver um programa nuclear com fins pacíficos. A declaração de apoio foi feita durante a reunião de cúpula do movimento deste ano, realizada em Teerã, e divulgada pela emissora estatal de televisão da república islâmica. 

Ahmadinejad aprova declaração final de reunião em Teerã - Abedin Taherkenareh/Efe 
Ahmadinejad aprova declaração final de reunião em Teerã

De acordo com a TV iraniana, a manifestação de apoio é um dos diversos artigos da versão final da Declaração de Teerã, aprovada ao término da cúpula de dois dias do Movimento dos Países Não-Alinhados, do qual o Brasil participa como observador. O Movimento dos Países Não-Alinhados reúne mais de dois terços de todos os países que integram a Organização das Nações Unidas (ONU).

Os Estados Unidos e alguns de seus aliados suspeitam que o Irã desenvolva em segredo um programa nuclear bélico. O Irã sustenta que seu programa nuclear é civil e tem finalidades pacíficas, como a geração de energia elétrica e o desenvolvimento de isótopos medicinais, estando de acordo com as normas do Tratado de Não-Proliferação Nuclear, do qual é signatário.
Com AP. Estadão

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Pepe Escobar - O que o Irã pensa do ocidente e de sua febre da guerra!

Pepe Escobar - O que o Irã pensa do ocidente e de sua febre da guerra, do Vermelho 

Dado que não é possível acompanhar pessoalmente o robô Curiosity em suas andanças em Marte, não há como escapar da histeria do “Bombardeiem o Irã” que emana, incansável, de Telaviv e dos sentinelas avançados de Telaviv em Washington. Agora já há até opinionismo de terceira classe, a sugerir que o presidente Barack Obama dos EUA voe pessoalmente a Israel, para acalmar o duo pirado Bibi-Barak [1].Por Pepe Escobar, em Asia Times Online.

Assim sendo, é hora de tomar rumo completamente diferente – e totalmente ausente das páginas da mídia-empresa ocidental – e ouvir o pensamento iraniano qualificado que se dedica a analisar o que realmente fermenta por baixo do rugido dos tambores de guerra – no que diga respeito a Irã, Turquia, mundo árabe e toda a Eurásia. 

Pode-se começar com o embaixador Hossein Mousavian, pesquisador do Woodrow Wilson School of Public and International Affairs da Universidade de Princeton; ex-porta-voz da equipe de negociadores iranianos para a questão nuclear de 2003 a 2005; e autor de The Iranian Nuclear Crisis: A Memoir. 

Escrevendo na página da internet da Arms Control Association [2], Mousavian vai diretamente ao ponto: “A história do programa nuclear do Irã sugere que o ocidente, inadvertidamente, está empurrando o Irã na direção de armas nucleares.” 

Em sete passos chaves, Mousavian mostra didaticamente como o processo se desenrolou – começando pela “entrada do Irã no campo nuclear”, possibilitada, aliás, por Washington: “nos anos 1970s, o Xá [do Irã] tinha planos ambiciosos para explicar o programa nuclear, prevendo 23 usinas nucleares até 1994, com apoio dos EUA.” 

Mousavian mostra como, de 2003 a 2005, durante o primeiro governo Bush, o Irã apresentou várias propostas [nucleares], que incluíram o compromisso declarado de que limitariam o enriquecimento no nível de 5%; de que exportariam todo o urânio baixo-enriquecido [orig. low-enriched uranium (LEU)] ou bastões de combustível nuclear que produzissem; de que assinariam um protocolo adicional aos acordos de salvaguardas com a AIEA e com o Código 3.1 dos arranjos subsidiários, que assegurariam nível máximo de transparência; e autorizavam a AIEA a inspecionar instalações não declaradas. 


Essas propostas visavam a superar as preocupações do ocidente sobre a natureza do programa nuclear iraniano, garantindo que nenhum urânio enriquecido seria desviado para algum programa de armas atômicas. A proposta iraniana também teria facilitado o reconhecimento, pela comunidade internacional, do direito de o Irã enriquecer urânio, nos termos do Tratado de Não Proliferação.


Em troca desses compromissos que o Irã assumia, o dossiê iraniano na AIEA seria normalizado e o Irã teria acesso a uma mais ampla cooperação política, econômica e de segurança com a União Europeia. Além disso, também interessava ao Irã garantir o suprimento de combustível para o reator nuclear de pesquisas em Teerã, motivo pelo qual estava disposto a enviar o urânio enriquecido para algum outro país onde pudesse ser convertido em bastonetes/combustível.

O governo Bush recusou todos os oferecimentos do Irã. Mousavian recorda “encontro que tive naquele momento com o embaixador francês no Irã, Francois Nicoullaud, que me disse: ‘Para os EUA, o Irã enriquecer urânio no próprio país é a linha vermelha que a União Europeia não pode ultrapassar’.” 

De onde se pôde concluir que “o ocidente não está interessado em resolver a questão nuclear. A única coisa que o ocidente deseja é obrigar o Irã a abandonar completamente seu programa de enriquecimento.” Efeito disso foi, como não poderia deixar de ser, que o Irã foi compelido a “modificar sua diplomacia nuclear e a acelerar o programa de enriquecimento, para assegurar-se a autossuficiência na produção do combustível nuclear.” 

‘Estoque zero’, quem se candidata?

Rode o filme para a frente, até fevereiro de 2010. Teerã propôs “manter o enriquecimento abaixo de 5%, desde que o ocidente assegurasse o combustível necessário para manter em atividade o reator de Teerã. O ocidente recusou essa proposta.” 

Então, em maio de 2010, “o Irã construiu um acordo com Brasil e Turquia para trocar seu estoque de urânio baixo-enriquecido por combustível para o reator de pesquisas. O acordo baseou-se em proposta esboçada inicialmente pelo governo Obama com funcionários dos governo de Brasil e Turquia, em clima de entendimento que os fez crer que teriam as bênçãos de Washington para negociar com o Irã. 


Lamentavelmente, os EUA boicotaram o sucesso da negociação, ao rejeitar o acordo; e o Conselho de Segurança da ONU, em seguida, aprovou novas sanções contra o Irã.” Qualquer observador objetivo que acompanhe a história do dossiê nuclear iraniano conhece todos esses fatos. 

Novamente, rodem o filme à frente, até setembro de 2011, “quando o Irã já dominava a tecnologia de enriquecimento a 20% e já acumulava estoque considerável; foi quando o Irã propôs suspender as atividades de enriquecimento a 20% e aceitar que o ocidente fornecesse os bastonetes-combustível para o reator de Teerã. Mais uma vez, o ocidente rejeitou a proposta; o que obrigou os iranianos a dar um passo adiante e passar a produzir seus próprios bastonetes-combustível.” 

Sobre as conversações desse ano em Istanbul e Bagdá, Mousavian destaca que “depois de cada bloqueio, de cada ação ocidental punitiva, o Irã fez avançar o seu programa nuclear.” 

E a coisa ainda piora: “Comparação entre a declaração de 19 de junho, em Moscou, feita por Catherine Ashton, chefe da política externa da União Europeia e principal negociadora no grupo P5+1, e a declaração da mesma Ashton dia 14 de abril em Istanbul mostra uma grande diferença. 


O P5+1, em junho, dá mais importância ao Irã cumprir suas obrigações internacionais, a saber, obedecer a resoluções do Conselho de Segurança da ONU, do que a que cumpra os deveres a que se obriga por ser signatário do Tratado de Não Proliferação. Vê-se hoje claro retrocesso em relação à posição em Istanbul. Indica que o foco volta, agora, a ser a suspensão das atividades iranianas de enriquecimento, demanda que sempre aparece para interromper quaisquer negociações, desde 2003.” 

O resumo é que “não só o ocidente empurrou o Irã a buscar a autossuficiência, mas, em todas as circunstâncias, tentou privar o Irã de seu inalienável direito de enriquecer urânio. Esse movimento impulsionou o Irã a buscar, a todo galope, controlar toda a tecnologia nuclear.” 

A conclusão é inevitável: “Os progressos que o Irã obteve em seu programa nuclear é produto dos esforços do ocidente para isolar o Irã, ao mesmo tempo em que se recusou a reconhecer os direitos do Irã.” 

Washington e seus seguidores europeus simplesmente não conseguem entender que “sanções, isolamento e ameaças não obrigarão o Irã a ajoelhar-se. Ao contrário, essas políticas só levaram a avanços no programa nuclear iraniano.” Mesmo sob as mais devastadoras sanções e a febre de “Bombardeiem o Irã” já chegando ao surto convulsivo, só uma consequência é garantida, diz Mousavian: “o Irã tende hoje a retirar-se do Tratado de Não Proliferação e a buscar sua bomba atômica.” 

O que torna tudo isso ainda mais absurdo é que há solução que pode por fim a toda essa loucura:

Para atender às preocupações do ocidente sobre o estoque iraniano de urânio enriquecido a 20%, solução mutuamente aceitável para o longo prazo implicaria “estoque zero”. Sob essa abordagem, um comitê conjunto (Irã e P5+1) quantificaria as carências domésticas do Irã, em termos do quanto de urânio 20% o país carece para finalidades de pesquisa; e tudo que ultrapassasse essa quantia seria vendido no mercado internacional, ou imediatamente ‘empobrecido’ até voltar ao nível de 3,5%. 


Assim se asseguraria que o Irã não pudesse formar estoque permanente de urânio enriquecido a 20%, o que atenderia às preocupações internacionais sobre a possibilidade de o Irã construir bombas atômicas. Seria solução que salvaria as posições de todos, ao mesmo tempo em que reconheceria o direito dos iranianos de enriquecer seu urânio, assegurando ao país meios para negar qualquer interesse em construir armas atômicas.

Washington – e Telaviv – algum dia aceitarão? Claro que não. Os cães da guerra continuarão a ladrar. 

Um novo jogo de segurança 

Também é reconfortante examinar a análise iraniana da situação síria. 

Mehdi Mohammadi, na página internet IranNuc.IR [3] escreve: “o medo que a maioria sunita tem, de uma minoria salafista, não é fator a desprezar; e é realidade muito frequentemente censurada, relevante para entender a situação em campo na Síria. É a mesma realidade que impediu a oposição de aceitar qualquer forma de negociações e, até, eleições livres”. Esse fato é absoluto anátema na cobertura que a imprensa-empresa ocidental tem dado à situação na Síria. 

Mohammadi avalia corretamente as discrepâncias entre várias facções da Fraternidade Muçulmana (FM) dentro da Síria: há uma facção linha-dura que quer ver implantada a lei da Xaria; e outra, convencida de que o futuro de toda a região está, seja como for, nas mãos da FM – a qual está em missão de caráter divino; mas a maioria quer, isso sim, extrair a maior quantidade de dinheiro que consigam extrair da Arábia Saudita, aliando-se para isso com a França, os EUA, os sunitas no Líbano e na Jordânia: “esses são a espinha dorsal da oposição armada na Síria”. 

O xis da questão é que, mesmo no melhor cenário, a FM “está cometendo gravíssimo erro estratégico (...). Ainda que o governo de Assad seja deposto, os EUA jamais permitirão que o governo sírio caia nas mãos da parte da Fraternidade Muçulmana que aspira a manter e, se possível, aprofundar ainda mais o atual conflito com Israel.” 

Mohammadi observa, também corretamente, como EUA, Israel, Arábia Saudita e Turquia “chegaram à conclusão de que o melhor modo de impedir que desenvolvimentos da Primavera Árabe ajudassem a aumentar o poder do Irã na região seria converter todo o real conflito em luta entre xiitas e sunitas.” 

No fundo, como o Irã interpreta tudo isso? Segundo Mohammadi, “há alto grau de confiança em que o governo sírio não se deixará depor, no mínimo num prazo médio.” Além disso, “é muito pouco provável que Rússia e China cheguem a algum acordo com o ocidente sobre a Síria” e inclusive “sobre o dossiê nuclear iraniano.” 

Teerã, pois, está apostando na possibilidade de que “Rússia e China consigam construir um front estratégico confiável, anti-ocidente”. E o autor conclui: “A equação estratégica da região, como resultado dos eventos hoje em curso na Síria, absolutamente não mudou em qualquer direção que possa prejudicar o Irã.” 

Em entrevista à página da internet “Iranian Diplomacy (IRD)” [4], Mohammad Farhad – ex-embaixador e analista de estratégia – comenta o modo como “alguns países árabes, que têm currículos muito sujos no campo dos direitos humanos, deram as mãos aos EUA, na atual correlação de forças na Síria, com vistas a definir um novo jogo de segurança. Mas esse jogo de segurança está sendo mal administrado e, com certeza, maculará a imagem internacional dos EUA.” 

Koleini observa que, “enquanto o ocidente busca criar novo arranjo de segurança no Mediterrâneo, Moscou tenta “não deixar que o ocidente imponha ali seu monopólio geopolítico.” Por isso, a abordagem russa “não está necessariamente focada no que realmente esteja ocorrendo dentro da Síria, mas tem em vista um pacote regional e o projeto de Moscou para regular esse pacote nas suas interações com o ocidente.” 

Isso explica por que a Rússia “jamais permitirá que estados ocidentais imponham qualquer tipo de zona aérea de exclusão sobre a Síria”. É atitude de confronto? Não, de modo algum: “A Rússia está fazendo o máximo possível para evitar, a qualquer preço, qualquer tipo de confrontação. A China sempre demonstrou, em todos os seus movimentos, que segue a mesma política.” 

Mehdi Sanaei, diretor do Grupo de Estudos sobre a Rússia na Universidade de Teerã e diretor do Iran and Eurasia Research Center (IRAS), escrevendo na página internet do jornal Tabnak News [5] vai ainda mais fundo: Moscou trabalha agora sob “nível sem precedentes de desconfiança quanto aos objetivos e intenções dos EUA no Oriente Médio e Eurásia.” 

Quer dizer: podem todos esquecer o famoso “reset” das relações entre Washington e Moscou. 

Sanaei refere-se ao famoso artigo sobre política externa que Putin publicou [6] às vésperas da eleição presidencial na Rússia: “Putin visou diretamente os EUA, acusando Washington de mentir e manipular a estrutura e as resoluções da ONU, servindo-se de dois pesos e duas medidas em inúmeras questões globais em diferentes países, além de perseguir interesses só seus, enquanto prega democracia.” 

Sanaei descreve, também corretamente, o modo como os analistas russos veem a política externa do governo Obama, como “resultado de dois tipos de teorias: ‘realismo de última moda’ e ‘neoliberalismo’. Por causa disso, os EUA realmente creem que todos os países do mundo possam ser classificados ou como “amigos” ou como “inimigos” dos EUA. Países hostis, portanto, têm de ser enfraquecidos, e a presença deles nas arenas estratégicas regional e global deve ser contida e, se possível, suprimida, em termos políticos, econômicos e culturais”. 

Portanto, para Moscou, “uma nova onda da ordem do mundo foi iniciada pelos EUA para criar nova versão do velho sistema unipolar. Os principais alvos dessa onda, Moscou insiste, incluem o Norte da África, o Oriente Médio, o Irã, a Eurásia e, finalmente, China e Rússia.” 

Koleini, dessa vez em artigo para o jornal Emrooz de Teerã [7], introduz o tema do Oleogasodutostão no relacionamento Irã-Rússia: “Apesar da cooperação com o programa de energia nuclear iraniano, a Rússia sempre desejou cortar a mão do Irã no mercado europeu de gás natural. Nessa direção, a Rússia interagiu com Turquia e alguns países do Leste Europeu no projeto Blue Stream. Isso prova, acima de qualquer dúvida, que a Rússia tenta alcançar a liderança na engenharia da estrutura de segurança na Europa, mediante sua política de energia, e reduzir a dependência da Europa de outras fontes de energia.” 

Tudo isso, enquanto “tenta desempenhar papel de equilíbrio no caso nuclear do Irã.” 

Koleini também oferece esboço do principal desafio para a “política eurasiana” que Putin explicitou antes de eleito: “O ponto é que o ocidente está projetando novos jogos políticos, sobretudo na Ásia Central, para criar problemas novos para a Rússia e afastar da Eurásia a atenção de Moscou, atraindo-a para esferas tradicionais da extinta União Soviética.” 

Egito e Irã trocam beijos 

Intelectuais iranianos têm monitorado atentamente a vizinha Turquia. Especialista em Turquia e Cáucaso, Elyas Vahedi observa como “o governo turco surgiu com conceitos como ‘nem religião de estado, nem estado religioso’, ‘governo secular, não homem secular’, ‘civilizar a Constituição’, ‘abertura democrática/abertura curda/abertura alawita’ e ‘controle e supervisão civis sobre o exército’, e tem-nos usado para fortalecer e manter o controle político sobre o Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP).”

E, claro, antes da Primavera Árabe, toda a conversa girava em torno de “zero problemas com nossos vizinhos” e a doutrina da “profundidade estratégica” da Turquia. 

Mas agora que a Turquia está metida na Síria, o governo do AKP “tenta justificar o próprio fracasso, declarando que a política de minimizar os problemas com países vizinhos teria entrado na segunda fase (...). A Turquia acredita que o principal traço da segunda versão de sua política é interação com povos de países vizinhos, não mais com governos vizinhos.” 

Simplesmente não se sustenta, diz Vahedi: “Esse ponto de vista, apesar de algumas limitações, seria ainda, de certo modo, justificável em alguns países como Líbia, Egito e Tunísia; mas absolutamente não se aplica à Síria.” Além disso, Ankara “manteve-se em silêncio ante o suplício do povo do Bahrain, sob o pretexto de que os protestos políticos no Bahrain não seriam populares.” 

Sobretudo, a política exterior da Turquia “também alimentou especulações de que Ankara participava do conflito xiita-sunita provocado e encenado pelo ocidente. O dano que essa ideia causará à posição e ao prestígio regionais e internacionais da Turquia custará caro demais a Ankara.” 

Vahedi vê a Turquia, bem como a Arábia Saudita e o Qatar, como seguidores do ocidente, que lidera da retaguarda, no estilo típico de Obama. A Turquia “parece ter lido a mente do ocidente e tenta aceitar o papel que entende como o seu, a serviço do ocidente, à espera de obter algumas concessões do ocidente.” Mas não funcionará – por exemplo, a entrada da Turquia na União Europeia não acontecerá, ante a gigantesca oposição de França e Alemanha. 

Para não falar que Ankara “enfrenta graves críticas que lhe vêm de figuras nacionalistas. Dizem que, o governo da Turquia fala da defesa dos direitos do povo sírio como sua primeira e principal prioridade, ao mesmo tempo em que direitos dos turcos são ignorados em Karabakh e nos Bálcãs, com a conivência das potências ocidentais.” 

Ali Akbar Asadi, do Departamento de Relações Internacionais da University of Allameh Tabatabaei, discorre sobre os eventos chaves das semanas vindouras: o renovado relacionamento diplomático entre Irã e Egito – objeto da mais furiosa ira de Washington; o Departamento de Estado, em movimento infantilóide, insiste que o Irã “não merece” ser anfitrião da reunião do Movimento de Não Alinhados em Teerã, do qual participará o presidente Mohamed Mursi do Egito [8]. 

Asadi vai direto à jugular – as petromonoarquias do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) estão aterrorizadas ante a possibilidade de que “o Egito retome suas relações com a República Islâmica do Irã, ou, mesmo, de que estabeleça relações estratégicas com a Turquia, minando o poder e a influência do próprio CCG no novo equilíbrio do poder regional.” 

Assim sendo, o GCC está fazendo o que costuma fazer: deixando jorrar um pouco de dinheiro. “Querem manter o Egito, como ator político grande e importante no mundo árabe, do lado deles.” 

Estão também exigindo de Mursi e da FM que “não tomem qualquer medida para exportar sua revolução ou para ativar outros afiliados” da FM no GCC. E esperam que “o Cairo evite adotar nova abordagem para fortalecer o Hamas contra o Fatah, ajudando a população palestina e de Gaza, e mostrando-se em aberta e firme oposição contra o regime israelense.” 

A política do GCC, apoiada pelo ocidente e por Israel, é “manter o Egito estrangulado em seus desafios domésticos” e, assim, incapaz de exercer “a liderança histórica que aspira a recuperar, no mundo árabe.” 

Eis, então, apenas uma amostra da discussão intelectual em curso hoje no Irã. Comparada à histeria bombardeante de que Telaviv e Washington estão acometidas, soa como se esses analistas pensassem e escrevessem em Marte. 

Notas

1. An Obama Visit to Israel Could Stall Iran Attack, Bloomberg, August 21. 
2. Ver armscontrol.org/
3. Ver www.irannuc.ir/
4. Ver www.irdiplomacy.ir/
5. Ver www.tabnak.ir/
6. Ver Russia and the changing world, RIANOVOSTI. Sobre esse artigo e a “volta de Putin” ao poder na Rússia, ver também PEPE ESCOBAR, “Agora é encarar: o czar voltou”, 6/3/2012, em port. em http://redecastorphoto.blogspot.com.br/2012/03/pepe-escobar-agora-e-encarar-1-o-czar.html [NTs].
7. Ver www.tehrooz.com
8. EUA says Iran doesn’t deserve to host summit of Non Aligned Movement, Washington Post, August 21.

Tradução: Vila Vudu


Link:

http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=191843&id_secao=9 

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Israelenses pedem que militares não ataquem Irã

 Manifestante pede para não bombardear o Irã 
Manifestantes pedem para o premiê, Benjamin "Bibi" Netanyahu, não bombardear o Irã em protesto contra o possível ataque / Foto: ActiveStills

Enquanto o governo de Israel parece se aproximar cada vez mais da opção descabida de bombardear o Irã, a sociedade israelense demonstra sua oposição à medida. Uma pesquisa desenvolvida pelo Instituto de Democracia em conjunto com a Universidade de Tel Aviv divulgada nesta quinta-feira (16) mostrou que a maior parte de seus entrevistados é contra a guerra.

Cerca de 60% dos entrevistados afirmou ser contrário a um bombardeio das Forças Armadas israelenses contra o Irã, enquanto que apenas 27% disse ser favorável. A medida também encontra oposição de importantes setores da sociedade do país, que começaram a se mobilizar contra a possível guerra.

Mais de 400 israelenses, entre eles proeminentes professores universitários, assinaram uma manifestação na internet pedindo que pilotos de combate da Força Aérea israelense desobedeçam a eventuais ordens para atacar o Irã.

A solicitação, da qual dá conta hoje o diário Ha''aretz, qualifica a eventual decisão de lançar um ataque contra o Irã como um "erro de alto risco" que só atrasaria o programa nuclear iraniano, sem interrompê-lo e pelo qual se pagaria um "preço exorbitante".

O documento encoraja os pilotos a dizerem "não", mas reconhece que "certamente não se trata de uma alternativa simples".

"Envolve profundos dilemas morais e profissionais, além de representar o risco de destruir uma carreira que é importante para vocês e a possibilidade de serem processados", indica o texto.

Ainda assim, o documento diz que a eventual rejeição representaria um "serviço vital ao Estado de Israel e a todos os que vivem aqui, um serviço infinitamente mais importante que a obediência cega a esta ordem em particular".

Nas últimas semanas, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e o titular da Defesa, Ehud Barak, além de outros destacados políticos, elevaram o tom de suas declarações a favor de um ataque contra o Irã, inclusive sem contar com o sinal verde dos Estados Unidos e apesar da oposição de comandantes dos organismos de segurança e defesa.

Israel põe em dúvida as inteções do programa nuclear do Irão, apesar de ese páis garantir que ele tem exclusivamente fins pacíficos.

A pesquisa e a petição podem ser sinais para o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, repensar a possibilidade de atacar o Irã. Cerca de 60% da população israelense reprova a política desenvolvida pelo premiê, informou uma recente pesquisa do jornal Haaretz.

Com EFE

Do Vermelho 

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Imperialistas usam a Síria como cabeça de ponte para atingir o Irã


Serbin Argyrowitz, no Monitor Mercantil

Síria: cabeça de ponte para atingir o Irã

Imperialistas não conseguem camuflar seu verdadeiro objetivo

Iskenderun (fronteira Turquia-Síria) - Em antítese aos países da Primavera Árabe, onde ocorreram, realmente, levantes populares, como Tunísia, Egito, Iêmen (onde o povo está ainda nas ruas) e Bahrein, na Síria, o Ocidente, de acordo com o padrão da Líbia, empreende um conflito civil objetivando a derrubada do regime, com a diferença que, aqui, por causa da Rússia e da China, não pode tentar uma imediata intervenção militar fechando o espaço aéreo e bombardeando alvos militares das forças governamentais.

O mundo, através da televisão, está vendo, somente, bombardeio de civis desarmados, massacres de crianças e derrubadas de casas e edifícios de apartamentos pelas forças do governo. O mundo fica revoltado contra o carrasco do povo sírio, Bashar Al-Assad.

Assim, parece que os denominados "contra o regime" atiram no ar. E assim evoluía a situação até, há cerca de uma semana, os "contra ao regime" entrarem em Damasco. Mas como são terríveis esses "contra ao regime" que, sozinhos, com um fuzil na mão, lutam de igual para igual contra um exército moderno com armamento pesado e, vira e mexe, o vencem?

O que está acontecendo aqui e, principalmente, o que existe por trás? Quem comanda com tanta competência estratégica estes "contra o regime"? Quem proporciona o apoio logístico? Quem espiona e com os satélites mantém informados os "contra o regime" sobre os movimentos das forças do regime?

Todas estas perguntas não foram merecedoras de respostas pelo veículos de comunicação do Ocidente. Porque aqui, por motivo da Primavera Árabe, com financiador a Arábia Saudita e o Catar, apoio técnico e militar da Turquia, Israel e EUA, e apoio político da França, empreende-se a derrubada da ordem política na Síria e a mudança das correlações no Grande Oriente Médio em benefício do Ocidente, da Turquia e, naturalmente, de Israel.

Sete pontos

Mas que interesse desperta a Síria, que não possui a riqueza petrolífera da Líbia? Será que está sendo empreendido um conflito única e exclusivamente para expulsar a Rússia do único porto que dispõe no Mediterrâneo, ali em Tartüs?

Não, não é nada disso. Primeiro, a Síria é a cabeça de ponte, antes do completo isolamento do Irã e seu obstinado estrangulamento. Segundo, encontra-se, ainda, em estado de guerra não declarada com Israel, considerando que o último ocupa ainda territórios sírios (as Colinas de Golan).
Terceiro, com a dissolução da Síria (sempre seguindo o modelo da Líbia) e sua transformação, Israel poderá, facilmente, livrar-se da incômoda presença de Hezbollah do Líbano.

Quarto, a Turquia passa a dominar o norte da Síria e cerca os últimos curdos livres (cerca de 2,5 milhões). Quinto, no litoral da Síria, perto de Tartüs, é o ponto final de dois gigantescos oleodutos que transportam petróleo do Iraque.
Sexto, a Síria, na região dos rios Tigre e Efrates e no deserto do Sul, dispõe de grandes jazidas de petróleo com produção diária atual de 350 mil barris, enquanto, simultaneamente, é um dos maiores produtores de fósforo no mundo.

Sétimo, além de aliado da Rússia (proporcionando-lhe uma gigantesca base naval no Mediterrâneo), a Síria é um dos maiores compradores de material bélico de tecnologia russa.

Divisão à moda Líbia

Quem são, então, os "contra o regime" que o mundo pensa que lutam para libertar o povo sírio deste regime autoritário? São cerca de 25% da população sunita e o alvo não é a reconstituição da democracia, como vociferam a Hillary Clinto e o François Hollande, mas um novo regime islâmico.

A estrutura populacional da Síria tem a classe de liderança política, na qual predominam os muçulmanos laicos, os aleuitas (cerca de 7%); os cristãos (10%) dominam a vida econômica do país; há ainda os sunitas (63%), os xiitas (10%), os curdos (10%) e alguns druzos.

Com a derrubada de Bashar Al-Assad, do jeito que são os fanatismos tribais e religiosos, é impossível o país permanecer unido. A exemplo de como aconteceu na Líbia, onde ninguém sabe quem está governando o país e, principalmente, quem vende, a que preço e para quem o petróleo líbio.

Os vandalismo cometidos pelos "contra o regime" sunitas em todos os monumentos ortodoxos a caminho de Damasco foram revelados pelos veículos de comunicação do Ocidente - com grande atraso - por não constituírem matérias de interesse.

A maioria da população já começa a reagir diante da ameaça de dissolução do país pelos sunitas, os quais ficam escondidos nos bolsões de Aleppo. A guerra não está decidida definitivamente, mas, dificilmente os "contra o regime" conseguirão unificar a multicidadã população síria. Mas isso não interessa aos promotores do conflito. A Síria é a cabeça de ponte para a conquista do verdadeiro alvo

Irã vende petróleo para a China e aceita iuan

Pretende tornar a moeda referência para o comércio exterior
Lee Wong, no Monitor Mercantil

Hong Kong - O Irã aceitou a proposta da China de vender-lhe petróleo com pagamento em iuan, retirando a primazia da moeda norte-americana, o dólar, para transações internacionais.

O Irá pretende utilizar as ricas arrecadações com a venda de seu petróleo à China para adquirir bens e serviços da China. Como é óbvio, a notícia surpreendeu os EUA, porque as vendas de petróleo têm seu preço taxado em dólares norte-americanos, e parece que o governo iraniano pretende expandir a prática, mas para isso terá que superar as dificuldades resultantes das sanções que impuseram ao país o Governo dos EUA e os governos dos países-membros da União Européia (UE).

Além disso, há tempos a China planeja alavancar o uso do iuan como moeda de referência, enfrentando e destronando o dólar norte-americano. A China é cliente número um do Irã no que diz respeito as vendas de petróleo. Suas importações de petróleo iraniano totalizam até US$ 30 bilhões anuais.

O governo de Beijing tem sofrido fortes pressões dos EUA para participar do bloqueio internacional contra as exportações do petróleo iraniano como meio para exercer pressão sobre o governo de Teerã para que abandone seu programa nuclear. Aliás, sabe-se que uma nova rodada de sanções está sendo preparada pelo governo norte-americano para, a exemplo de como aplicou contra Cuba, punir empresas que mantêm relações comerciais com Irã.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

“Ardo em febre!" E a única receita é bombardear o Irã?!

Pepe Escobar, Asia Times Online

Onde está o grande Christopher Walken, quando se precisa dele? “Ardo em febre!” [1] E a única receita é bombardear o Irã?! É o resumo da história, pelo menos em Israel. E pelo menos nos próximos seis meses, a febre subirá.

No fim de semana passado, o jornal Israel Hayom – financiado pelo magnata de cassinos e companheiro de Mitt Romney, Sheldon Adelson – dedicou um suplemento inteiro à febre. Os artigos levavam manchetes do tipo “Bombardear ou levar bomba: no pôquer, esconda as cartas junto ao peito”. 

Antes, semana passada, vazamento para o diário Yediot Ahronot [2] revelou que la crème dos comandantes militares israelenses estão contra a guerra ao Irã – conhecida, em versão asséptica, como “ataque preventivo”. 

O elenco de atores é impressionante: o comandante do estado-maior Benny Gantz; o chefe de operações do Exército de Israel Ya'akov Ayash; Tamir Pardo, chefe do Mossad; Aviv Kochavi, encarregado da Aman, comando superior dos serviços de inteligência; os chefes de divisão do Mossad; o comandante da Força Aérea de Israel Amir Eshel; para nem falar de pelo menos quatro ministros dos oito que compõem o “gabinete de cozinha” do primeiro-ministro Bibi Netanyahu. 

Há nuances. Alguns admitem que só apoiariam ataque ao Irã, no caso de o Supremo Líder Aiatolá Khamenei – ou inspetores da Agência de Energia Atômica (AIEA) – anunciarem alguma nova hiper arma, que mude o jogo. Outros admitem que só apoiariam ataque ao Irã, se os EUA se engajassem: é o que dizem dois ex-chefes aposentados do Mossad, Meir Dagan e Efraim Halevy; e o ex-comandante do Estado-maior Gabi Ashkenazi. 

O jogador chave aqui, é claro, é Gantz, que sempre manteve sobre a mesa a opção de ataque. Mas também fez vazar que sabe que nenhum ataque, mesmo que bem-sucedido, conseguirá destruir o programa nuclear iraniano; e, além disso, teme as repercussões geopolíticas. Quando Gantz admitiu apenas uma pequenina porção de tudo isso, num canal de televisão em Israel, o ministro da Defesa Ehud Barak ordenou que a entrevista “desaparecesse”. [3]
Assim sendo, temos, essencialmente, só Bibi e Barak contra todos os supramencionados. O que impõe, no mínimo, duas perguntas chaves. Como Bibi ordenaria algum ataque, se as mentes mais bem informadas em Israel sabem que o ataque provocaria, no máximo, adiamento de seis meses no programa nuclear iraniano, como o demonstram os detalhados cálculos dos EUA? E que qualquer ataque levaria Teerã a abandonar de vez o “período de latência” atual, prudente, e partir, de vez, para o front bélico superarmado?

Murphy, atenda o telefone!

Negativas que nada negam saltarão de todos os cantos, mas só a população nativa de Alice no País das Maravilhas ainda crê que Israel atacaria o Irã sem ter recebido luz absolutamente verde de Washington. Rússia, China, Paquistão, todo mundo conhece em detalhe a movimentação do jogo das cadeiras de EUA-Israel, antes de algum possível ataque ao Irã. [4]

Ira Sharkansky, professor de Ciência Política da Universidade Hebraica, que assina um blog do jornal Jerusalem Post, menciona mais um ex-chefe do Mossad a dizer que Israel não deve – e provavelmente nem tentará – agir sem claro consentimento dos EUA. 

Um novo blog coletivo de política externa (http://www.gatestoneinstitute.org/3252/the-call-something-has-changed-in-israeli) tentou responder alguns dos imponderáveis. Mas, no frigir dos ovos, é aquela velha máxima de Hollywood: ninguém sabe de nada. 

Ninguém sabe se os militares israelenses arranjarão alguma espécie de rota aérea mágica (que, por exemplo, não sobrevoe o Iraque; e ninguém nem pense em atacar por terra, ou usar a bomba atômica). Embora Israel tenha meios para lançar uma operação “Mini-Choque e Pavor” contra posições do Hezbollah no Líbano; embora ainda guarde número suficiente de mísseis estoura-bunker de modelo antigo para atingir instalações iranianas escondidas em montanhas.

A Lei de Murphy aplica-se aqui. Até o Pentágono sabe que tudo que pode dar errado, pode, sim-senhor, dar muito, muito errado, mesmo. [5] 

E ainda que nada disso fosse assim, permanece a pergunta de um trilhão de dólares: que tipo de jogo joga, de fato, o presidente Barack Obama dos EUA?
Tudo seria perdoado, se se tratasse de delírio causado por exposição prolongada ao sol do verão. Mas estamos falando de guerra, guerra preventiva, ação de quem finge que não vê a lei internacional – e baseada um conjunto concêntrico de hipóteses fracas, para nem falar das mentiras. 

A Agência Internacional de Energia Atômica, o “US National Intelligence Estimates (NIEs)” e até a inteligência israelense já sabem que não há programa iraniano de armas nucleares. A Rússia – que tem milhares de técnicos trabalhando no Irã – também sabe. 

A noção de que o Irã seria ameaça a Israel é fantasia brotada de manifesto Dadaísta. Israel é real – não apenas suposta ou declarada – potência nuclear (e nunca assinou o Tratado de Não Proliferação). O Irã (signatário do TNP) não é potência nuclear.

Como John Glaser, da página Antiwar.com, resume bem: “os EUA já cercaram militarmente o Irã, já organizaram e executaram operações clandestinas, com Israel, vivem a ameaçar o Irã com ataques militares preemptivos, e impões as mais duras sanções econômicas contra o Irã”. [6] Ameaça? Quem, aqui, ameaça quem? 

Pois é verdadeiramente incrível o modo como Telavive consegue perpetrar, uma depois da outra, as mais fabulosas operações de propaganda – pelo menos no que tenha a ver com manter a opinião pública nos EUA em estado permanente de lavagem cerebral – só mudando a linha vermelha. [7] 

Basta ler atentamente a entrevista de Barak à CNN que se vê em 30/7/2012, CNN, http://politicalticker.blogs.cnn.com/2012/07/30/cnns-gut-check-for-july-30-2012/?iref=storysearch

Está tudo ali. Não há qualquer tipo de programa iraniano de armas nucleares. O Irã não ameaça ninguém – nem imediatamente nem de qualquer outro modo. O que se conhece naquela entrevista é um ministro da Defesa de um país declarando que outro país fica proibido de pôr o pé numa “zona de imunidade” dentro da qual estaria protegido e nunca seria perturbado, atacado, bombardeado, invadido. 

Imagine se fosse um ministro chinês ou russo da Defesa (chinesa ou russa) que dissesse, em tom de quem discute futebol, o que Barak disse com todas as letras na televisão dos EUA.

De volta ao Grande Jogo

Todos os enroladíssimos conversa & pressupostos que garantiriam a possibilidade de um ataque de Israel ao Irã não passa disso: enrolação. 

Vários países – dentre os quais Japão, Coreia do Sul e Brasil – têm toda a capacidade necessária para montar uma bomba atômica: a tecnologia é velha, de décadas. Não significa que terão bomba atômica. 

A evidência de que Teerã permite as inspeções imensamente intrusivas da AIEA e de que fez várias concessões ao longo de vários anos, muito maiores do que as concessões às quais seria obrigada pelo TNP, prova que o Irã não deseja construir uma bomba amanhã (nem ontem, segundo Israel). E mesmo que desejasse, a construção sempre seria detectada a tempo. 

No pé em que estão as coisas, Obama parece estar apostando que Bibi, jogador de pôquer, não terá coragem para ordenar ataque contra o Irã enquanto ele, Obama, habitar o Salão Oval. É argumento bem plausível para explicar por que Obama poderia ser tentado a lançar uma surpresa de outubro; mas o mais provável é que Obama, pragmático ultracauteloso, só decida pelo ataque em situação de absoluto desespero. Quanto a Bibi, ele adoraria que Washington fizesse por ele o serviço sujo (que Israel, como Benny Gantz sabe muito bem, não tem meios para fazer). Portanto, Bibi já está operando em modo “À espera de Mitt”. 

Quanto ao Grande Quadro – o Novo Grande Jogo na Eurásia –, o programa nuclear iraniano é só um pretexto; de fato, o único que resta hoje no mercado. Vai muito além de Israel e sua própria febre regional. 

Se se perscruta a densa neblina que envolve 33 anos de desconfianças entre Washington e Teerã, a febre de Washington nunca cedeu, desde Clinton I e II até Bush I e II e até Obama e depois: precisamos mudar aquele regime; precisamos lá de uma satrapia persa como havia antes; precisamos de todo aquele petróleo e aquele gás do Golfo Persa e do Mar Cáspio, para o Ocidente, não para o Oriente; temos de controlar esse nódulo estratégico vital na Eurásia. Essa é febre, parece, incurável.

Notas:

1. Veja em http://www.youtube.com/watch?v=fyV2cPLuFuA. Diz ele (em tradução tentativa, mais literal): “Tô pegando fogo! E só me receitam chocalhinho?!”, referência a uma gravação de rock pesado, da qual o personagem reclama. “Cowbell” (lit. “chocalho de vaca”, cincerro) é um instrumento musical. Pode ser visto em http://www.playtech.com.br/ch/cat/691/0/maisvendidos/decrescente/15/1/0/0/.aspx [NTs].

2. 31/7/2012, “Bibi Can't OK Iran Strike As Defense Chiefs Demur”, Jewish Daily Forward, http://blogs.forward.com/forward-thinking/160275/bibi-cant-ok-iran-strike-as-defense-chiefs-demur/ 

4. 6/8/2012, “Israel arranging roles in Iran war theater?”, Russia Today, http://www.rt.com/news/us-israel-iran-war-plan-926/

6. 3/8/2012, “Ehud Barak Admits Iran Has Defensive Posture, No Weapons Program”, Antiwar.blog,http://antiwar.com/blog/2012/08/03/ehud-barak-admits-iran-has-defensive-posture-no-weapons-program/?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed:+AWCBlog+(Antiwar.com+Blog) 

7. 6/8/2012, “Can We Still Tell if Iran Decides to Build a Nuclear Bomb?”, The Atlantic, http://www.theatlantic.com/international/archive/2012/08/can-we-still-tell-if-iran-decides-to-build-a-nuclear-bomb/260740/

Tradução: Vila Vudu

terça-feira, 31 de julho de 2012

Irã vai recorrer contra sanções

Irã vai recorrer contra sanções 
Medidas contra o regime de Ahmadinejad foram impostas de forma unilateral pelos Estados Unidos e pela União Europeia

Renata Giraldi*
Repórter da Agência Brasil

Brasília – O governo do Irã anunciou que recorrerá das sanções impostas pelos Estados Unidos e países europeus na área de comércio de petróleo. As medidas unilaterais começaram a ser adotadas em 2010, quando se agravaram as suspeitas de irregularidades envolvendo o programa nuclear iraniano. O país é alvo de suspeitas da comunidade internacional, que desconfia da produção de armas atômicas. O Irã nega as suspeitas e diz que o programa nuclear tem fins pacíficos.

"A denúncia será registrada e com base em normas internacionais", disse o chefe do Centro Presidencial para Assuntos Jurídicos Internacionais do Irã, Majid Jafarzadeh.

Segundo Jafarzadeh, serão tomadas “medidas legais” para reagir às sanções “impostas fora do Conselho de Segurança” da Organização das Nações Unidas (ONU), que também adotou restrições aos iranianos.

No começo deste ano, os Estados Unidos e a União Europeia (UE) aprovaram mais sanções ao Irã relativas ao petróleo e ao setor financeiro. Os embargos impedem a compra de petróleo iraniano e transações com o Banco Central do Irã.

O deputado iraniano Seyyed Hossein Naqavi Hosseini comparou as demais sanções impostas ao Irã como uma violação dos direitos humanos. "As sanções na área de saúde e similares são uma violação dos direitos humanos e podem ser levadas à discussão legal”, disse ele.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Irã condena quatro à pena de morte por fraude bancária de US$ 2,6 bi

DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS 

A Justiça do Irã condenou nesta segunda-feira quatro pessoas à pena de morte por envolvimento em uma fraude que desviou cerca de US$ 2,6 bilhões (R$ 5,2 bilhões) de diversos bancos do país. 

O escândalo, descoberto em setembro, causou demissão de executivos das instituições financeiras por forjar documentos, obtidos por meio de corrupção ou tráfico de influência, de um banco de investimentos para conseguir recursos para comprar empresas estatais. 

Após a descoberta do crime, 39 pessoas foram indiciadas pela fraude por corrupção ativa ou passiva e enriquecimento ilícito. A identidade dos condenados não foi divulgada. 

De acordo com o porta-voz da Justiça iraniana, Gholamhossein Mohseni Ejeie, em entrevista à agência de notícias Irna, duas pessoas também foram condenadas à prisão perpétua e as demais a penas que chegam a 25 anos de prisão. 

Da Folha

sábado, 14 de julho de 2012

História real: as opções do Irã

  Soraya Sepahpour-Ulrich, AntiWar.com
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Diferente do que supõem “especialistas” e “analistas” de jornal, para os quais os países produtores de petróleo estariam usando o petróleo como arma, a verdade é outra. São os EUA, não os países produtores, que sempre usaram e ainda usam o petróleo como arma.

Soraya Sepahpour-Ulrich
George Santayana escreveu, sabiamente, que “Os que não cuidam de relembrar o passado estão condenados a repeti-lo”. Cegos a história e suas lições, os EUA e seus aliados ocidentais repetem hoje as ações dos anos 1950s, e impõem um embargo ao petróleo do Irã. A aliança liderada pelos EUA esqueceu o passado.

O Irã não esqueceu. O Irã lembra muito bem.

Quando, sob a liderança do nacionalista Mohammad Mossadegh, o Irã optou por nacionalizar a própria indústria do petróleo, a Marinha Real Britânica bloqueou as exportações de petróleo do Irã, tentando impedir, à força, que a nação estatizasse o petróleo. Em retaliação contra as ambições nacionalistas do Irã, e para punir o Irã por defender interesses nacionais, os britânicos instigaram o mundo a boicotar o petróleo iraniano.

Nos anos 1950s, o Irã não tinha força militar para retaliar contra o embargo do petróleo, e o bloqueio naval visava a destruir a economia, para derrubar o governo (ou, como hoje se diz, para promover “mudança de regime”). Os eventos subsequentes foram noticiados em artigo no New York Times como “lição sobre o pesado custo a pagar”, quando nação do Terceiro Mundo rica em petróleo, “resulta enlouquecida por nacionalismo fanático”. [1]

O Irã inserido no mapa político do Oriente Médio
O Irã aprendeu que soberania e autoconsciência nacional exigem força tático-militar e determinação.

Sem nada aprender daquele momento, nos anos 1950s, os aliados ocidentais outra vez, no século 21, impuseram embargo contra o petróleo iraniano. Em retaliação, o Irã aprovou lei para impedir a passagem por suas águas territoriais, pelo Estreito de Ormuz, de petróleo para países que tenham implantado o embargo contra o petróleo iraniano [2]. É uma boa lei, e oportuna. Diferente do que se viu ao tempo de embargo britânico, parece que, agora, Teerã está no controle da situação: os pesados custos associados ao embargo não pesarão exclusivamente sobre o Irã.

A posição legal do Irã

A Convenção de 1982 das Nações Unidas sobre a Lei do Mar estipula que navios “não suspeitos” [orig. innocent] podem exercer o direito de livre curso e que nações litorâneas não devem impedir a passagem por suas águas territoriais. Embora o Irã seja signatário desse tratado, o tratado jamais foi ratificado; assim sendo, não é vigente. Mas, mesmo que fosse formal e legalmente vigente, e se se considera o estipulado nessa Convenção e o contexto da lei internacional, qualquer estado costeiro tem direito de impedir a passagem de qualquer navio por suas águas territoriais, no caso de a passagem agredir “a paz, a boa ordem ou a segurança”; nesse caso, o navio deixa de ser definido como “não suspeito”.

Mesmo que o Irã decida não impedir, mas apenas retardar a passagem dos navios-tanques petroleiros, exercendo o direito de inspecionar todos os que passem pelo Estreito de Ormuz, as inspeções e os atrasos que daí decorrerão manterão alto ou farão aumentar ainda mais o preço do petróleo. Altos preços do petróleo interessam ao Irã e a outros países produtores de petróleo, mas absolutamente não interessam à já desestabilizada economia europeia, que já está em crise.

A opção militar

Embora os aliados dos EUA estejam fazendo exibição de força, enviando navios de combate para o Golfo Pérsico, já se sabe, desde os primeiros “jogos de guerra” de Washington conhecidos como “Millennium Challenge 2002” (que custou $250 milhões de dólares), que aqueles exércitos não podem derrotar o Irã em Ormuz. Cegos à lição que já deveriam ter aprendido, os EUA insistem em enviar naves de guerra para o Golfo Persa, andando temerariamente na direção de um conflito em grande escala. O perigo inerente de confronto naval dessa ordem está em que, diferente do que se viu na Crise dos Mísseis Cubanos, as forças em confronto no Golfo Pérsico não são comandadas por apenas dois comandantes, que podem comunicar-se e, de comum acordo, impedir que a situação evolua para além do ponto de contenção. Nem os efeitos de um conflito desse tipo ficarão limitados àquela região.

Golfo Pérsico - Estreito de Ormuz - Golfo de Omã
Se se sabe que 17 milhões de barris/dia de petróleo, 35% das exportações mundiais transportadas por mar, passam pelo Estreito de Ormuz, [3] qualquer incidente naquele ponto terá efeito fulminante sobre a economia do planeta. Embora apenas 1,1 milhão de barris/dia de petróleo viajem para os EUA, a quantidade que viaja para a Europa é muito significativa.

As perguntas a responder, então, são as seguintes: por que os EUA esperam que seus “aliados europeus” ajam contra seus próprios interesses nacionais? Por que os EUA esperam que eles aceitem pagar tão alto preço no caso de passarem a também boicotar o petróleo iraniano? E por que os EUA estão atuando de modo a aumentar o risco de o Irã bloquear a passagem de outros navios-tanques petroleiros, destinados também a outros países europeus?

Mais uma vez, só a história tem resposta clara. Diferente do que pensam e dizem os “especialistas” e “analistas” de jornal, para os quais os países produtores de petróleo estariam usando o petróleo como arma, a verdade é outra. São os EUA, não os países produtores, que sempre usaram e ainda usam o petróleo como arma.

Há vários exemplos: a pressão que Washington fez contra a Grã-Bretanha nos anos 1920s, para que partilhasse com empresas norte-americanas as suas concessões de petróleo no Oriente Médio. Depois da 2ª.  Guerra Mundial os EUA violaram os termos do Acordo da Linha Vermelha de 1928 [4] e excluíram britânicos e franceses.

Em 1956, os EUA fizeram saber à Grã-Bretanha e à França que nenhum europeu voltaria a ter petróleo, se não se retirassem imediatamente do Egito. Os EUA nada tinham contra a derrubada do governo de Nasser, mas Eisenhower declarou: “Se tivessem agido com rapidez, teríamos apoiado”.

É possível que os governos na Europa Ocidental estejam subordinados a grupos de interesses especiais, como os EUA estão subordinados a lobbies de apoiadores de Israel. É possível também que contem com que o Irã não perceberá o blefe ocidental; ou que o Irã deixará sem implantar a lei de fiscalização que o Parlamento já aprovou; e talvez contem com que o petróleo continuará a ser fornecido normalmente no ocidente. Aconteça o que acontecer, os EUA e seus aliados estão cometendo suicídio financeiro. Em pouco tempo, já enfrentarão as mais graves consequências, antes de conseguirem abalar a decisão do Irã.
 
Notas de tradução: 
 
[1]
6/7/2012, New York Times em: THE IRANIAN ACCORD” (abstrct).
 
[3] 30/12/2011, U.S. Energy Administration em: WORLD OIL TRANSIT CHOKEPOINTS”.
 
[4] O Acordo da Linha Vermelha foi assinado por parceiros da empresa petroleira turco-iraquiana Turkish Petroleum Company (TPC), dia 31/7/1928. Por esse acordo, formalizou-se a estrutura empresarial da TPC, já com uma cláusula que proibia que os parceiros signatários procurassem petróleo por conta própria, no grande território do antigo Império Otomano. Esse acordo está na origem de constituição de um monopólio de petróleo que teria imensa influência, 30 anos antes da constituição da OPEP. A “Linha Vermelha” ia do território do antigo Império Otomano ao Oriente Médio, incluindo a península árabe e a Turquia. O Kuwait estava excluído dessa zona, porque a Grã-Bretanha tinha planos de criar ali uma “zona reservada” inglesa [Extraído de Tlaxcala].