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sábado, 14 de julho de 2012

Quem fraudou a eleição mexicana - por Mark Weisbrot!

Em 2006, houve até sumiço generalizado de cédulas. Agora, os fatores decisivos foram mídia e manipulação do medo
Por Mark Weisbrot* | Tradução: Hugo Albuquerque

A mídia reescreve a história a cada dia e, ao fazê-lo, muitas vezes impede a compreensão do presente.

A eleição presidencial do México, uma semana atrás, é um desses casos. Relatos da imprensa dizem que Felipe Calderón, o presidente do PAN (Partido da Ação Nacional), que agora deixa o poder, “ganhou a eleição de 2006 por uma margem estreita”.

Mas isso não é exatamente verdade, e sem saber o que realmente aconteceu em 2006, talvez seja mais difícil entender o ceticismo generalizado do povo mexicano em relação aos resultados da atual eleição. Os resultados oficiais mostram o candidato  Enrique Peña Nieto, do Partido Revolucionário Institucional (PRI), ganhando com 38,2% dos votos contra 31,6% de Andrés Manuel López Obrador, do Partido da Revolução Democrática (PRD) e 25,4% de Josefina Vázquez Mota do PAN. Vale saber que a atual eleição foi marcada por relatos generalizados de compra de votos.

Do Washington Post:
“Não foi uma eleição limpa, nem justa”, disse Eduardo Huchim da Aliança Cívica, um grupo de vigilância mexicano financiado pelo Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas.

“Foi um suborno em grande escala”, disse Huchim, um ex-integrante do Instituto Federal Eleitoral. “Foi talvez a maior operação de compra de votos e coação na história do país.”

Isso pode não ter sido suficiente para alterar o resultado da corrida presidencial, mas, para aqueles que sabem o que realmente aconteceu em 2006, a falta de fé dos eleitores nos resultados é completamente compreensível. Naquele ano, a diferença oficial da votação entre o eleito Calderón e López Obrador, do PRD (candidato pelo mesmo partido, nas eleições de então), foi de 0,58%. Mas houve irregularidades em massa.

O mais importante – e largamente ignorado pela imprensa internacional, foram os chamados problema adicionais, na maioria dos locais de votação. De acordo com os procedimentos eleitorais do México, cada seção eleitoral recebe um número fixo de cédulas eleitorais. Obviamente, ele deve ser idêntico, após a votação, à soma dos votos depositados em urna mais as cédulas que não foram usadas. Na maioria dos locais de votação, isso não aconteceu…

Pior: por pressão da opinião pública, as autoridades eleitorais mexicanas fizeram duas recontagens parciais de votos. A segunda envolveu uma amostra enorme: foram revistos 9% dos votos. Mas, sem oferecer qualquer explicação, as autoridades eleitorais recusaram-se a divulgar para o público os resultados gerais da recontagem.


De 9 a 13 agosto de 2006, foram publicadas milhares de páginas de resultados na web, que incluíam os totais parciais de votos recontados. Após centenas de horas de trabalho, poi possível computar os resultados da recontagem com os anteriores. No Centro de Pesquisa Política e Econômica [CEPR na sigla em inglês],
fizemos isso com uma amostra aleatória enorme (14,4% dos votos recontados). Neste universo, a margem de vitória de Calderón desapareceu.

Isso pode explicar por que as autoridades eleitorais nunca disseram ao público o que a recontagem mostrou, e por que se recusaram a fazer um recômputo total – que teria sido apropriado, para uma eleição marcada por tantas irregularidades. A recontagem geral poderia facilmente ter revertido o resultado, ou ter definido que ele era completamente indeterminado.


Naquela época, fiquei impressionado com a falta de interesse dos meios de comunicação pelos problemas “adicionais”, ou pelos resultados da recontagem. Os dados estavam disponíveis na web. Apesar de ter sido trabalhosa a recontagem de dados, qualquer organização de notícias, com um mínimo de recursos, poderia tê-la feito. Nenhuma se interessou.


López Obrador cometeu o erro de denunciar que a eleição de 2006 foi roubada sem exigir que os resultados da recontagem fossem divulgados – provavelmente, porque não acreditava que eles seriam mais precisos do que a contagem original. Ele chamou a atenção para os problemas adicionais, mas a mídia ignorou isso e, principalmente, caracterizou-o como um mau perdedor.


As eleições de 2006 e 2012 foram, ambas, manipuladas de outras maneiras. Um estudo da Universidade do Texas mostra que a mídia tomou claro partido contra López Obrador, em 2006, e que tal postura foi mais que suficiente para balançar uma eleição apertada. Cerca de 95% de transmissão de TV é controlada por apenas duas empresas, a Televisa e Azteca, e sua hostilidade diante d o PRD é notória.


Na atual campanha presidencial, o duopólio da mídia foi alvo de críticas por não transmitir nacionalmente o primeiro debate presidencial, em 6 de maio. Depois de manifestantes estudantis [que protestavam contra a cobertura da TV] terem sido difamados pela mídia, que os tratou como agitadores externos, um movimento de protesto foi lançado. Chamou-se “Yosoy # 132″ (“Eu Sou # 132″), porque 131 dos que protestaram inicialmente produziram um vídeo viral mostrando suas identidades estudantis (para desmentir as alegações da mídia).


John Ackerman
criticou com razão o presidente Obama por felicitar Peña Nieto como vencedor das eleições antes dos resultados oficiais. Foi uma jogada semelhante à do governo Bush para ajudar Calderón em 2006, imediatamente após a votação. A campanha de Calderón para estabelecer sua “vitória” como fato consumado foi desenhada com base no que a equipe de Bush fez na Flórida em 2000, aproveitando-se de sua “vantagem de jogar em casa”. Esta história está relatada no excelente livro de Jeffrey Toobin, Too Close to Call.

Como já
observei, o fato de o México ter um eleitorado de direita não fez com que contrariasse a tendência da América Latina nos últimos 14 anos. Um país após o outro da região (Brasil, Venezuela, Argentina, Equador, Bolívia, Uruguai, Paraguai, Honduras, El Salvador, Nicarágua e outros) elegeu e reelegeu governos de esquerda, em resposta ao pior fracasso econômico de longo prazo (1980-2000) da América Latina em mais de um século. Na última década, o resto da região saiu-se melhor; mas o México, não.

Alguns analistas
apontaram os outros presidentes de esquerda das Américas também enfrentaram mídias hostis e tendenciosas e, mesmo assim, venceram. Isso foi certamente verdade em todos os países mencionados – sendo que alguns, como a Bolívia, têm uma mídia mais tendenciosa que a do México. Mas o México está, como diz o ditado, “tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos”.

Uma coisa é retratar um líder do Equador ou Bolívia como “outro Hugo Chávez”, algo efetivamente feito pelas campanhas de mídia daqueles países e de outros. Os candidatos riem disso. Mas, quando a mídia mexicana faz o mesmo com López Obrador – como vem fazendo desde 2006 –, o significado é outro. O México compartilha uma fronteira de 3,2 mil quilômetros com os Estados Unidos e envia 80% de suas exportações não-petrolíferas para o norte. Sem mencionar que 12 milhões de mexicanos vivem nos Estados Unidos.


A mídia de direita do México está em uma posição mais forte para impulsionar uma campanha eficaz de medo. Da Grécia à Irlanda, passando pelo México, é assim que a elite mantém seu controle e poder sobre as economias em crise. Não oferece esperança de um futuro melhor, por mais tênue que seja. Prefere espalhar o medo, afirmando que qualquer alternativa trará o Armagedom.


Enquanto não houver mecanismos de controle corretos para a mídia televisiva – que possibilitem, conforme necessário, alguma segurança contra manipulações eleitorais – o México terá uma forma muito limitada de democracia e, também, ficará muito aquém de seu potencial econômico.

–
* Mike Weisbrot é co-diretor do Centro de Pesquisas Econômicas e Políticas [CEPR, em inglês], em Londres, e colunista do The Guardian.

Link:

 http://www.outraspalavras.net/2012/07/13/quem-fraudou-a-eleicao-mexicana/

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Lições mexicanas para a esquerda

Por Gonzalo Fernández Ortiz de Zárate, no sítio Opera Mundi:

É certo que cada processo eleitoral é diferente – dependendo da conjuntura, da história, da cultura democrática e da relevância geopolítica de cada país – mas de todos eles se podem extrair lições interessantes que, em sua justa medida, deveriam servir como aprendizado político global, sobretudo em um mundo como o atual, marcado pela interdependência.


Neste sentido, a esquerda não deve deixar de analisar as eleições celebradas no México no último domingo (1º), caracterizadas fundamentalmente por três questões: a vitória do Partido Revolucionário Institucional (PRI) e seu regresso à Presidência por meio de Peña Nieto; a nova derrota de López Obrador e a derrota do Partido da Revolução Democrática (PRD) em seu afã de constituir-se como a alternativa da direita; e a força durante toda a campanha – incluindo durante parte importante dos últimos seis anos – da sociedade civil organizada, que se mostrou como o verdadeiro motor da oposição e de construção de propostas.


Assim, e em função destas três características principais, também queremos destacar três ensinamentos que este processo eleitoral nos oferece: em primeiro lugar, as direitas definem estratégias cada vez mais unitárias e agressivas. A situação de crises generalizadas e a visibilidade crescentemente notória de rachaduras no sistema fazem com que as direitas busquem a unidade como premissa para se alcançar a vitória, utilizando para isso todos os meios a seu alcance. O produto Peña Nieto foi a aposta da direita nessas eleições, chegando ao ponto de que mesmo partidários e mandatários do partido governante (PAN, também de direita) tenham apoiado o candidato do PRI, por considerarem o único capaz de assegurar a vitória.


Também se utilizaram sistematicamente dos meios de comunicação hegemônicos (Televisa e TV Azteca) para construir uma imagem de mais puro marketing, sem fissuras nas mensagens enviadas à população; e para evitar surpresas como em 2006 (quando tiveram que recorrer a uma grande fraude eleitoral), tomou as medidas oportunas para adulterar o voto de múltiplas maneiras, como não deixou de denunciar a oposição. Em definitivo, esta é a direita que nós estamos nos deparando e aquela que nós vamos encontrar: unida, agressiva, nervosa, antidemocrática e golpista quando a ocasião merecer.


Em segundo lugar, a estratégia da esquerda partidária de plantar uma mensagem centrista, deslegitima-a como alternativa, uma vez que não a permite conquistar o governo. Assim, López Obrador e o PRD, em vez de definir uma verdadeira agenda de transformação para o México, têm dado um giro à direita, organizando-se com esta por meio de compromissos públicos com o empresariado e outros poderes reais, com a intenção de apresentar-se como alternativa responsável e crível, através de propostas ocas de conteúdo político como a revolução amorosa, eixo central da campanha. Se os giros à direita têm sido historicamente erros estratégicos, caminhos de ida mas não de volta, largos trânsitos por terras de ninguém (ou a direita confia ou a esquerda assume a transformação), hoje em dia, com as crises civilizatórias que nos atravessam, esses erros se convertem em afastamento permanente daqueles que estão abaixo e à esquerda.


Em terceiro lugar, tem sido a sociedade civil organizada a protagonista da confrontação com a direita, e não o PRD. As lutas indígenas, feministas, de professores e professoras, de campesinos e campesinas, se somaram durante a campanha às reivindicações estudantis, convertendo-se o movimento #YoSoy132 no verdadeiro protagonista da luta, em uma forte campanha contra o regresso do PRI ao governo, conseguindo romper até mesma a ditadura midiática dos meios de comunicação através das redes sociais.


O PRD tem tentado patrimonializar este e outros movimentos sociais, mas sem participar com eles ou assumir a diversidade de suas agendas. Avaliam que estes movimentos deveriam ser suas correias de transmissão em sua pretensão presidencial, em vez de entender que é precisamente o contrário, que são os partidos que devem entender as lógicas emancipatórias, a importância de se fazer crescer a contestação cidadã para além do processo eleitoral, e quanto estratégico é se articular com a diversidade, assumindo responsabilidade e compromissos explícitos na defesa de agendas realmente emancipadoras.


Em definitivo, nesta crise sistêmica que estamos vivendo, e ante uma direita que se agita como um gato de barriga pra cima, a análise da realidade mexicana nos ensina que somente a partir da articulação da diversidade, da compreensão e o respeito mútuo entre partidos e movimentos, e com o compromisso com agendas radicais, claras, alternativas, definidas ao longo do tempo, que visam a emancipação (o que não se consegue em curto prazo eleitoral) é que a esquerda poderá reverter esta situação de injustiça e desigualdade global.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Presidente "eleito" do México comprou votos e não pagou

O novo líder da maior cleptocracia da América Latina
Eleitores com "vale-voto" lotam supermercados
Valor

Ontem foi um dia movimentado no supermercado Soriana, na Cidade do México. As lojas da rede ficaram repletas de clientes com cartões pré-pagos que, segundo eles, lhes haviam sido entregues por membros do Partido Revolucionário Institucional (PRI), cujo candidato, Enrique Peña Nieto, venceu as eleições presidenciais no domingo. Muitos reclamavam que os cartões não tinham o valor prometido ou não funcionavam.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Narcos e Globo vencem no México

A Televisa não apenas fez a campanha do Peña Nieto, como desconstruiu os adversários. Alguma novidade?
 
 
Ganó Enrique Peña Nieto; no habrá vuelta al pasado, asegura

El virtual ganador de las elecciones presidenciales sostuvo que no habrá regreso al pasado; subrayó además que, ante el crimen, “ni pacto ni tregua”
 
No post “E se derem um Golpe paraguaio – a Dilma terá como se defender” -, o Conversa Afiada publicou esta denúncia do inglês The Guardian:

Escándalo en los medios de comunicación mexicanos: una unidad secreta de Televisa promocionó al candidato del PRI

Según unos documentos vistos por the Guardian, la cadena de medios encargó videos para desacreditar a los rivales del candidato que es ahora el favorito para ganar la carrera por la Presidencia del domingo
 
Según unos documentos vistos por the Guardian y gente familiarizada con el operativo, una unidad secreta de la cadena de televisión dominante en México, estableció y financió una campaña para que el candidato favorito, Enrique Peña Nieto, ganase las elecciones presidenciales.
 
Las nuevas revelaciones de la falta de objetividad de Televisa, la cadena de medios más grande del mundo en lengua española, cuestionan la afirmación de ser políticamente imparciales hecha por la compañía así co mo las insistencia de Peña Nieto de no haberse beneficiado de una relación especial con Televisa.
La unidad, apodada “el equipo Handcock” lo que según las fuentes era un nombre en código para el político y sus aliados, encargó videos promocionales sobre el candidato y su partido, el PRI, que a la vez desacreditaban a los rivales del partido en el 2009. Los documentos sugieren que el equipo distribuyó los videos a miles de direcciones de correo electrónico y también los promocionó en Facebook y Youtube donde alguno de ellos todavía puede ser visto.
 
La naturaleza de la relación entre Peña Nieto y Televisa ha sido un asunto clave de las elecciones que se celebrarán el próximo domingo desde que en Mayo se originara un movimiento estudiantil centrado en la percibida manipulación de la opinión pública a favor del candidato por parte de los medios. 
 
Observe, amigo navegante, que o papel da Televisa (Globo no Brasil, como era o Clarín, na Argentina) é não apenas fazer a campanha do Peña Nieto, como desconstruir os adversários.
 
Alguma novidade?
 
Ou a Globo, ao transformar em Chanel # 5 o sólido detrito que a Veja expele, não faz a Globo exatamente isso: desconstruir o adversário?
 
Não foi ali, nessa união estável, celebrada no lixão do José de Abreu, entre a Veja e a Globo que se montou a farsa do mensalão – que a TV Record teve que melar?
 
O grampo sem áudio para tirar o Daniel Dantas (e o clã do Cera) da forca?
 
Sobre a ligação entre o PRI e os narco-traficantes, a palavra de Mario Vargas Llosa vale mais do que a de qualquer outro: 
 
 
Viva o PRI!
 
Viva Joaquín El Chapo Guzmán e o cartel de Sinaloa!
 
Viva a TeleGlobo!
 
Viva o Paraguai!
 
Viva o ABC Color!
 
Viva o Bernardo!
 Paulo Henrique Amorim
 

#YoSoY 132, a rebelião contra manipulação midiática no México


Se o movimento estudantil mexicano se definiu claramente contra o representante do PRI, Enrique Peña Nieto, sua irrupção na cena política foi muito mais além da disputa pela presidência. #YoSoY 132 instaurou um espaço de debate e diálogo que soube liberar-se da camisa de força tradicional com que os meios de comunicação do sistema oficial envolvem as sociedades. Por meio da internet e das redes sociais #YoSoY 132 criou um canal paralelo de discussão e de crítica global ao Estado mexicano que não tem precedentes no país. A reportagem é de Eduardo Febbro.



Cidade do México - O impensável sempre tem lugar. Em pleno processo eleitoral mexicano, o impensável se chamou #YoSoY 132, um movimento estudantil que surgiu na Universidade Iberoamericana contra o candidato do PRI, Enrique Peña Nieto, e contra o ultraje da informação simbolizado para os jovens no canal Televisa. Se o movimento estudantil mexicano se definiu claramente contra o representante do PRI, sua irrupção na cena política foi muito mais além da disputa pela presidência. #YoSoY 132 instaurou um espaço de debate e diálogo que soube liberar-se da camisa de força tradicional com que os meios de comunicação do sistema oficial envolvem as sociedades. Por meio da internet e das redes sociais #YoSoY 132 criou um canal paralelo de discussão e de crítica global ao Estado mexicano que não tem precedentes no país.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Jovens mexicanos exigem Ley de Medios na internet

Vídeo extraído da Carta Maior: Yo Soy 132.


O MÉXICO EM SEU DIA DE DOMINGO


Enrique Peña Nieto

 

O artigo é de Eric Nepomuceno


“Enfim, o dia chegou: uns 80 milhões de eleitores mexicanos decidiram ontem, domingo, quem será o próximo presidente do país que tem a segunda maior população e a segunda maior economia da América Latina.

Nas pesquisas eleitorais dos últimos dois meses, os números jamais coincidiram. A única coincidência foi a subida veloz do candidato da esquerda, Andrés Manoel López Obrador, do PRD, e o desmilinguimento de Josefina Vázquez Mota, do mesmo PAN do atual presidente Felipe Calderón, o partido que em 2000 elegeu Vicente Fox e terminou com sete décadas de domínio absoluto do PRI, o
Partido Revolucionário Institucional. O resto foi pura divergência.

Na liderança das pesquisas esteve, o tempo todo, Enrique Peña Nieto, do PRI, um político jovem, provinciano, de ignorância obtusa e com aparência que corresponde exatamente –
coisa rara na política – ao que é: figura meticulosamente construída pelos especialistas em marketing eleitoral. Uma forma atraente, funcional, bem treinada e desprovida de qualquer vestígio de conteúdo. Um mistério, com todos os indícios de ser um desastre.

O escritor Carlos Fuentes, que jamais poderia ser taxado de radical de esquerda, dizia, ao declarar seu voto em López Obrador, que a última coisa que desejava para seu país era ver Peña Nieto presidente. Fuentes foi-se embora de nós no dia 15 de maio, quando seu candidato subia estrondosamente nas pesquisas. Foi-se embora, quem sabe, com essa esperança. Mas tudo indica que aconteceu exatamente aquilo que ele dizia ser a última coisa que desejava para o seu país.


A esta altura, pouco importa ressaltar o vazio ambulante que é Peña Nieto. Para os que mantiveram até a última hora a esperança de que López Obrador virasse o jogo, não será preciso lembrar como a candidatura de Peña Nieto foi alicerçada, reforçada e inflada pelos grandes conglomerados de comunicação de seu país, numa aula magistral de manipulação da informação.


No sábado de incertezas, à espera de um domingo de decisões, talvez fosse conveniente pensar no país que será entregue ao sucessor de Felipe Calderón.


A economia vai bem. As relações com os Estados Unidos, depois de décadas conturbadas, entraram num ritmo mais suave. Claro que os problemas continuam exatamente os mesmos de sempre, principalmente para os milhões de imigrantes mexicanos –
uma boa parte deles vivendo na ilegalidade – que vivem do lado de lá da fronteira. Mas o alinhamento entre México e Washington poucas vezes foi tão rigoroso como agora.

As graves diferenças sociais entre os mexicanos continuam no abismo de sempre. Nos discursos, avançou-se muito. Na vida real, muito pouco.

México prefere o medo à esperança

 
México muda para ficar igual
Crônicas do Motta
O México moderno, com todos os seus inúmeros problemas sociais, é uma obra do Partido Revolucionário Institucional (PRI), que governou o país, ininterruptamente, de 1929 ao ano 2000, quando Vicente Fox, do Partido da Ação Nacional (PAN) ganhou a eleição presidencial. Doze anos depois de ter saído do comando da nação, o PRI está de volta à presidência: Enrique Peña Nieto, seu candidato, declarou-se vitorioso nas eleições de domingo, com base em uma amostragem conhecida como contagem rápida dos votos.

Peña Nieto também foi cumprimentado pelo presidente mexicano Felipe Calderón, do Partido Ação Nacional (PAN), mas o candidato esquerdista Andrés Manuel López Obrador, do Partido da Revolução Democrática (PRD), recusou-se a fazer qualquer pronunciamento até um anúncio oficial dos resultados da votação. A contagem rápida – feita com base em uma amostra de 7 mil atas de registros de votos de 143 mil mesas eleitorais – costuma ser um indicador confiável dos resultados das eleições mexicanas.

De acordo com essa estimativa, Peña Nieto teria entre 37,93% e 38,55% dos votos e Obrador entre 30,09% e 31,86%. Josefina Vázquez Mota, candidata do PAN, de Calderón, teria obtido entre 25,10% e 26,03% dos votos. Obrador ficou em segundo lugar nas eleições presidenciais de 2006. Na época, ele se recusou a reconhecer a vitória de Calderón e liderou uma série de protestos. Desta vez, todos os candidatos prometeram respeitar o resultados do pleito, que não prevê um segundo turno.

Além de seu novo presidente, os mexicanos escolheram novos congressistas, alguns governadores e prefeitos, em uma eleição marcada pelo debate sobre economia e a guerra às drogas. Autoridades mexicanas afirmaram que a votação transcorreu pacificamente na grande maioria do país. Milhares de policiais foram mobilizados para proteger quase 80 milhões de eleitores de possíveis atos de violência de cartéis da droga em zonas eleitorais.

No campo econômico, as questões mais prementes na campanha eleitoral foram a pobreza extrema – que afeta quase um terço dos mexicanos – e a sensação, de grande parte da população, de perda de poder aquisitivo, apesar das taxas de crescimento recentes do país (de 3% a 4%).

Outro tema importante do debate eleitoral foi a insegurança. O México enfrenta sua maior série de violência ligada ao narcotráfico, com casos de chacinas, sequestros e desaparecimentos ligados a disputas entre cartéis e entre narcotraficantes e autoridades. São estimados 50 mil mortos desde 2006, quando o presidente conservador Felipe Calderón foi eleito e abriu uma ofensiva contra o narcotráfico. No entanto, não é esperada uma mudança extrema na política de repressão ao tráfico, nem a retirada do Exército das ruas do país.

O futuro do país depende do poder que o narcotráfico terá nos próximos anos. Se o Estado conseguir diminuir a influência dos cartéis no dia da dia da nação, o México ainda terá alguma chance de se tornar um protagonista da cena mundial, mas se, ao contrário, a situação permanecer como está, ou se deteriorar, o México continuará a ser o que é hoje: um grande país, com uma grande população, mas de instituições fracas e refém do crime organizado, condição que impossibilita qualquer movimento efetivo de combate à desigualdade e rumo ao desenvolvimento econômico e social.
Peña Nieto já foi governador do Estado do México e prometeu reduzir a violência do narcotráfico e fomentar a criação de empregos para jovens. Também se apresenta como a "nova cara" do tradicional PRI. No Estado de Tamaulipas – um dos mais afetados pela guerra às drogas – a legenda foi afetada por denúncias de corrupção e de manter elos com narcotraficantes. Oponentes criticam sua ligação com grupos empresariais e a mais poderosa rede de TV do país, a Televisa. Também dizem que a volta do PRI ao poder significaria um retorno ao autoritarismo.

Lopez Obrador, de novo segundo colocado, é natural do Estado de Tabasco, conhecido por seus inflamados discursos contra oligarcas poderosos – ainda quLinke tenha adotado um tom mais conciliador na atual campanha. Ele prometeu diminuir a participação militar no combate ao narcotráfico, criar 7 milhões de empregos e promover crescimento na casa dos 6% anuais.

(Com informações da Agência Brasil)

segunda-feira, 11 de junho de 2012

The Guardian: Hay "evidencia" de pagos a Televisa por apoyo a Peña

El diario reporta que parte de los datos difundidos fueron proporcionados por un ex empleado de la televisora; ésta insiste en rechazar la información
 
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Aspecto de la página web de The Guardian. El titular principal dice: Los archivos Televisa: ¿cómo sabemos que son genuinos? y luego señala que es imposible descartar las falsificaciones (...) pero hay evidencia que sugiere que (los documentos) son auténticos
El diario británico The Guardian aseguró ayer que el reportaje en que documentó pagos a Televisa para favorecer a Enrique Peña Nieto y atacar a Andrés Manuel López Obrador se nutrió de información proporcionada por un ex empleado de la televisora, además de los documentos entregados a su corresponsal en México. La publicación sostuvo que tras la revisión de los archivos y la comprobación de los hechos mencionados encontró evidencia que sugiere que son auténticos. Televisa insistió en un comunicado en que el reportaje de The Guardian se basó en documentos de los que el rotativo no podía asegurar la validez ni autenticidad, aunque no alude a la información que fue proporcionada por el ex empleado de la empresa.
 
La Jornada reseñó una investigación publicada por ese diario según la cual Televisa vendió a Enrique Peña Nieto, candidato presidencial del Partido Revolucionario Institucional, una cobertura favorable en su principal noticiario y en programas de entretenimiento.
 
A la vez, apuntó el rotativo británico, la televisora utilizó esos mismos espacios para desprestigiar a Andrés Manuel López Obrador, aspirante presidencial del Movimiento Progresista, con el fin de impedir que ganara las elecciones en 2006.
 
El diario británico aseguró este viernes que existe evidencia de que los documentos que revelan pagos a Televisa para proyectar a Enrique Peña Nieto y denostar a Andrés Manuel López Obrador son auténticos.
 
Los archivos Televisa: ¿cómo sabemos que son genuinos? Bajo ese encabezado, The Guardian reseña la forma en que fue verificando los documentos que recibió su corresponsal en México, Jo Tuckman. “Es imposible descartar las falsificaciones en los archivos obtenidos por The Guardian, pero hay evidencia que sugiere que son auténticos”, aseguró.
 
Tuckman publicó este viernes un mensaje en Twitter que lacónicamente dice: en el ojo del huracán.
 
Ayer mismo por la tarde, y luego de que Televisa y la oficina de campaña de Peña Nieto buscaron desacreditar la veracidad de la información, el rotativo hizo públicos en su página de Internet (www.guardian.co.uk Los documentos están en español) los archivos en los que basó la investigación del uso de espacios informativos y de entretenimiento de la principal televisora del país para atacar al actual candidato presidencial de la izquierda y construir, desde 2005 y 2006, una imagen nacional al entonces gobernador del estado de México y actual abanderado priista, Enrique Peña.
 
Son tres los bloques en que están divididos los documentos: uno da cuenta de un presupuesto 2005-2006 para promover a Peña Nieto; el segundo es una campaña informativa para impedir que López Obrador ganara Los Pinos en 2006, y el tercero son pagos hechos por la oficina de la Presidencia, durante el mandato de Vicente Fox.
 
El diario mencionó que sólo uno de los documentos, el relacionado con el presupuesto para promover a Peña Nieto, había sido publicado antes en la prensa mexicana (por la revista Proceso, en 2005, en un artículo del periodista Jenaro Villamil). El rotativo británico aseguró que la fuente que le entregó esa información no entregó esos documentos al semanario mexicano.
 
“¿Qué medidas ha tomado The Guardian para verificar los documentos? No ha sido posible confirmar la autenticidad de los documentos fuera de toda duda, pero The Guardian ha hecho grandes esfuerzos para encontrar pruebas que los corroboren. Las fechas en que los documentos fueron creados y modificados, y los nombres bajo los cuales se guardan, corresponden con los hechos que se refieren. The Guardian habló con una segunda fuente que trabajó para Televisa y confirmó que las reuniones habían tenido lugar dentro de la empresa para discutir una campaña para dañar las posibilidades presidenciales de Andrés Manuel López Obrador. La fuente – que no tiene ninguna simpatía personal por el ex alcalde de ciudad de México – dijo que la venta de contenido político estaba muy extendida, sobre todo la promoción indirecta de los clientes políticos dentro de los programas de entretenimiento. The Guardian también se refirió a un político que describió cómo en una ocasión Televisa se ofreció a preparar una historia simpática en una telenovela adaptada a sus necesidades”, relató el diario.
 
A continuación se pregunta si podrían ser falsificaciones. Responde: sin las herramientas forenses que sólo están disponibles para las agencias encargadas de la aplicación de la ley, es imposible decir dónde y cuándo el documento digital fue creado, pero la cantidad y variedad de los documentos y la presencia de material personal (cartas que están en su poder y que no fueron hechas públicas por el diario) mezclado con los documentos de trabajo sugiere su autenticidad.
 
El diario dice que buscó confirmar si algunas de las acciones contra López Obrador que se proponían en el documento efectivamente habían ocurrido.
Encontró que en la presentación que enumera acciones contra el ex jefe de Gobierno capitalino se propone pedir al entonces presidente, Vicente Fox, declarar un duelo nacional tras la muerte del papa Juan Pablo II. Horas después de que el documento fue redactado, el ex Ejecutivo declaró un día de luto.
 
El diario confirmó que algunas celebridades de Televisa contaron al aire historias personales de la delincuencia en la capital, como se sugiere en la propuesta. Agrega que el presentador de un programa contó que su esposa había sido seguida en un centro comercial de la capital del país y posteriormente fue entrevistado en la radio sobre ese mismo tema, acciones que están consideradas también en el plan contra López Obrador.
 
Una más: algunos protagonistas del espectáculo Big Brother hablaron de casos en los que habían sido afectados por delincuentes, otra de las acciones que se consideraban en el plan.
 
Hay un claro interés público para investigar las acusaciones de parcialidad de los medios de comunicación en México, donde el tema se ha convertido en un asunto central de la campaña electoral presidencial en curso, apuntó el rotativo.
 
Los expertos en medios en México han señalado hace tiempo un grave problema de la transparencia en el gasto público en propaganda política, agregó.
 
En un comunicado posterior, el diario británico aseguró que días antes de la publicación del reportaje su corresponsal en México pidió a Televisa que ofreciera su posición sobre los documentos. Añadió que la televisora pidió ver antes los archivos, a lo que The Guardian no accedió, dado que no tenía la autorización de su fuente para hacerlo.
 
“Cualquier queja que The Guardian recibe acerca del periodismo que practica es canalizada e investigada por un defensor del lector, que es independiente”, sostuvo el diario.
 
Televisa difundió ayer por la tarde un comunicado en el que asegura que el rotativo “reconoce información ‘incorrecta’ en su artículo”, una aseveración que, en realidad, sólo se refiere a un error respecto de la cobertura de las recientes manifestaciones de estudiantes – que ya fue enmendada por el diario – y no sobre los archivos respecto del apoyo a Peña Nieto y los ataques a López Obrador.
 
Roberto González Amador

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

México morre de fome com o TLC

Laura Carlsen
 
Diretora do Programa das Américas para o Center for International Policy no México
 
Desde que o México aprovou o Tratado de Livre Comércio da América do Norte (Tlcan), milhões de mexicanos uniram-se às filas dos famintos. Enquanto a violência e o sangue da guerra contra as drogas se apoderam das manchetes dos jornais, muitos mexicanos, sobretudo mulheres e crianças, enfrentam a silenciosa e violenta sorte da fome.
 
Os últimos relatórios mostram que o número de pessoas que vivem em "pobreza alimentar” (a incapacidade para adquirir a cesta básica de alimentos) aumentou de 18 milhões (em 2008) para 20 milhões (finais de 2010). Ao redor de um quinto das crianças mexicanas sofrem de desnutrição. Em 18 de outubro de 2011, o Instituto Nacional de Nutrição estimava em 728.909 o número de crianças menores de cinco anos desnutridos. As estatísticas do governo informam que 25% da população não têm acesso aos alimentos básicos (1). Desde a crise alimentar de 2008, houve um aumento de 3% da população sem acesso adequado aos alimentos. Os recém-nascidos apresentam os maiores índices de desnutrição, o que indica que a tragédia começa com a falta de saúde materna.
 
A dramática mudança nos hábitos alimentícios do México desde que o Tlcan foi aprovado não se reflete somente nos milhões de pessoas que dormem com fome. No lado oposto da escala, em apenas uma década e meia, o México converteu-se no segundo país do mundo em obesidade mórbida. O primeiro é Estados Unidos. Atualmente, a obesidade infantil, sobrepeso e diabetes constituem-se os principais problemas de saúde, juntamente com o problema tradicional da fome.
 
Não é que os ricos tornaram-se muito gordos e os pobres muito magros. A gordura já não representa a abundância. São os pobres os que bebem Coca-Cola barata quando não têm acesso à água potável ou que dão aos seus filhos um saco de batatas fritas quando os alimentos frescos da zona já não estão disponíveis.

Com outra crise alimentar, devido ao aumento dos preços internacionais, o México poderia enfrentar distúrbios pelos alimentos, bem como a propagação da fome e suas consequências durante esse ano de 2012. Caso os distúrbios tornem-se violentos ou aconteça uma convulsão social mais ampla, como a que aconteceu nos países árabes, não é provável que os meios de comunicação deem a devida atenção a essa situação.

TLC: um modelo de (in)segurança alimentar

Alguma coisa caminha terrivelmente mal. A nação que afirmava entrar na prosperidade com a assinatura do TLC converteu-se em um exemplo internacional de graves problemas estruturais na cadeia alimentar, desde a forma pela qual produz seus alimentos até o que e quanto (ou quão pouco) consome.

A desnutrição no México tem suas raízes na assinatura do TLC e em outros programas neoliberais que têm obrigado a nação a distanciar-se da produção de alimentos básicos para seu próprio modelo de "segurança alimentar”. (...).

A ideia da segurança alimentar baseada no acesso ao mercado provém diretamente do principal argumento sobre "as vantagens comparativas” do Tlcan. Em poucas palavras, a eficiência econômica exige que cada país deve dedicar sua capacidade produtiva ao que sabe fazer melhor e liberalizar o comércio transfronteiriço. Sob a teoria da vantagem comparativa, a maior parte do México foi considerada não apta para produzir seu alimento básico, o milho, já que seus rendimentos estiveram muito por baixo da média de seu vizinho do norte e sócio comercial (EUA). Portanto, o México deve recorrer às importações de milho e dedicar suas terras aos cultivos nos quais, supostamente, teria uma vantagem comparativa, como as frutas de temporada e tropicais e hortaliças. Soa simples. Mas, com esse raciocínio, três milhões de produtores "ineficientes” de milho ineficiente devem ser eliminados (e também suas famílias) e devem passar a atuar na fabricação ou no armazenamento, onde sua mão de obra barata constitui uma vantagem comparativa. Nessa equação, as consequências culturais e humanas para esses camponeses e comunidades inteiras de obsoletos indígenas não preocupam.

Dezessete anos após a assinatura do Tlcan e com o desmantelamento dos apoio do governo, mais de 2 milhões de agricultores foram obrigados a abandonar suas terras, vendendo-as a baixos preços. Não encontraram postos de trabalho na indústria. Em troca, a maior parte deles passou a integrar uma massa em êxodo -migrantes mexicanos rumo aos Estados Unidos-, estimada em meio milhão de pessoas somente no primeiro ano. Nos primeiros anos do Tlcan, as importações de milho triplicaram e o preço ao produtor caiu pela metade.

Na maioria dos casos, a conversão para outros cultivos levou anos. Os preços foram voláteis e as colheitas pouco confiáveis. Em muitas ocasiões, não eram cultivos factíveis para as pequenas parcelas, rochosas, que viam no milho uma garantia para sua dieta de subsistência. O resultado é que a produção agrícola total cresceu somente 2%.

As áreas que se adaptaram com êxito à agricultura industrial e aos cultivos de agroexportação se caracterizam por uma flagrante violação dos direitos laborais dos trabalhadores agrícolas migrantes, contaminação generalizada, águas residuais e a extrema concentração de terras e recursos.

Para os famintos, isso significa que os preços fixados no mercado internacional determinam quem come e quem morre de fome. Os consumidores mexicanos agora pagam mais pelas tortilhas de milho e pelos alimentos em geral. Os aumentos de preços no mercado internacional empurram o alimento básico para fora do alcance dos milhões de pobres no país.

A dependência de alimentos

No pós Tlcan, 42% da comida que se consome no México provém do exterior. Antes do Tlcan, o país gastou 1.800 bilhão de dólares em importações de alimentos. Agora gasta 24 bilhões. Em entrevista, o pesquisador Ernesto Ladrón de Guevara assinalou que em alguns alimentos básicos a dependência das importações é dramática: 80% em arroz; 95% em soja; 33% em feijão e 56% em trigo. É o primeiro país do mundo em importação de leite em pó. O México, antes próspero no setor lácteo, agora, em virtude do Tlcan, deve importar leite em pó de uma multinacional vinculada à crise da desnutrição infantil.

O México importa 33% do que consome, passando de 250 mil toneladas, antes do Tlcan, para as 13 milhões atuais. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos estima que se as tendências atuais continuam, o México vai adquirir 80% de seus alimentos de outros países (principalmente dos EUA). A FAO, organismo da ONU para a agricultura e alimentação, considera que um país é dependente em questão alimentar quando as importações superam 25% do total das exportações.

Cara, eu ganho; coroa, tu perdes
 
A tomada do poder corporativo do sistema alimentar do México tem levado à catástrofe alimentar e da saúde. As empresas transnacionais de alimentos não somente importam livremente nos mercados de comida mexicana; agora são produtores, exportadores e importadores; tudo em um só operando dentro do país.
 
A partir do TLC, as empresas devoraram os recursos humanos e naturais em uma escala quase incrível. A produção pecuária passou de pequenas granjas que produziam para os mercados locais para a Tyson Smithfield e para a Pilgrims Pride. O uso massivo e a contaminação da água e da terra conduziram a desastres ambientais e sanitários em todo o país. Milhões de empregos perderam-se devido à concentração e aos métodos de agricultura industrializada.
 
Vejamos o exemplo de Com Products International (CPI). A transnacional apresentou uma reclamação contra o governo mexicano em 2003, acobertando-se no Tlcan, alegando uma perda para seu negócio devido a um imposto sobre o xarope de milho de alta frutose nas bebidas. A razão do México para impor o imposto era para salvar uma indústria de cana de açúcar que proporciona empregos para milhares de cidadãos e desempenhou um papel econômico crucial em muitas regiões. Curiosamente, o governo viu frustrada sua tentativa de entrar, também em virtude do TLC, ao muito protegido mercado estadunidense do açúcar.

Um tribunal do Tlcan emitiu um parecer sobre o caso em 2008. O México teve que pagar 5.8 milhões de dólares a uma companhia que tem vendas netas de 3.7 bilhões de dólares anuais. A multa paga pelo governo mexicano poderia ter coberto um ano de cesta básica de alimentos para mais de 50 mil famílias pobres. A CPI é uma empresa subsidiária da Corn Products Arancia, uma das transnacionais de alimentos mais poderosas que operam no país, junto com Maseca / Archers Daniel Midland e Cargil. São as grandes empresas de agronegócios que desempenharam um papel chave na crise da tortilha de milho, em 2007 devido ao monopólio das colheitas e à elevação do preço internacional. Essa crise provocou o protesto de milhares de mexicanos pobres ante o aumento de 50% no preço da tortilha de milho.

O Tlcan e outros acordos de livre comércio outorgam às corporações o poder de decidir o que comemos, o que compramos, quem tem trabalho e quem não tem e se um povo dedicado à produção local de alimentos sobreviverá ou presenciará o final de seus tradicionais meios de subsistência durante gerações.
 
Alimentar os famintos; corrigir o sistema

As organizações mexicanas começaram a reunir-se após anos de divisões para responder à crise alimentar e consertar o sistema, que está em mal estado. Conseguiram uma reforma constitucional para incluir o direito à alimentação. Para que esse direito se torne realidade, falta travar a batalha para a adaptar o orçamento rural.
 
Organizações de pequenos agricultores uniram-se a organizações de agricultores familiares nos Estados Unidos e no Canadá para pedir a renegociação do Tlcan e eliminar dele os alimentos básicos e a produção agrícola. Porém, a administração Obama, com seus compromissos adquiridos, deixa muito pouco espaço para mudanças. No entanto, não cederão em seus esforços para corrigir o sistema alimentar antes de que a crise se agrave ainda mais. As organizações dos EUA estão vendo a oportunidade de unir suas demandas as do movimento Ocupar Wall Street em todo o país.
 
O controle corporativo do sistema alimentar, encerrado no Tlcan, não somente atinge as pessoas no México. Ninguém espera que a situação melhore por si mesma. Ao aprofundar-se a crise, os movimentos cidadãos devem buscar pontos de união transfronteiriça para proteger sua saúde, seus meios de subsistência e seus direitos. No futuro, o que comemos, como comemos e se comemos dependerá de seus esforços.

Nota:

(1) http://web.coneval.gob.mx/Paginas/principal.aspx


Do Adital

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

México quer comprar sistemas antiaéreos russos


Sistema Streléts

Víktor Litóvkin
A empresa estatal de petróleo e gás do México, Pemex, e várias outras organizações mexicanas se declararam interessadas em comprar da Rússia sistemas de defesa antiaérea para suas plataformas de petróleo no Golfo do México. O anúncio foi feito por uma fonte da delegação russa que participou da 5ª reunião da Comissão Rússia-México de cooperação econômica que está acontecendo no México.

Os mexicanos desejam criar um sistema de prevenção e combate a ataques aéreos de baixa altitude, composto por radares capazes de detectar antecipadamente os alvos e por mísseis antiaéreos. Segundo a fonte, o México explica seu desejo de adquirir os sistemas antiaéreos pelo receio de eventuais ataques terroristas contra suas plataformas de petróleo no Golfo do México, importante recurso estratégico e principal fonte de renda do país.

“A Rússia fez essa proposta a vários países, inclusive ao México”, disse a fonte. “No entanto, poderemos falar de acordos concretos de compra só quando o lado mexicano solucionar definitivamente sua questão financeira. Por enquanto, essa questão está em aberto.”

Os sistemas de defesa antiaérea que poderiam ser usados para a proteção das plataformas de petróleo variam, de acordo com peritos militares, em função do tamanho da área a ser abrangida e dependem do montante dos recursos financeiros disponibilizados para esses fins pela Pemex e outras organizações interessadas. Do montante disponibilizado para a compra de um escudo antiaéreo depende a forma como ele será organizado.

Os principais sistemas russos são muito parecidos, podendo atingir alvos aéreos a uma distância de 6 km e a uma altitude que varia entre 10 e 3.500 metros, a uma velocidade de 320 m/segundo. Os dois sistemas também podem levar adicionalmente radares, equipamentos de comunicação, visão noturna e identificação de alvos, além de outros equipamentos.

Os mísseis do sistema Igla são capazes de atingir aeronaves táticas, helicópteros e alvos de pequeno porte como aeronaves não tripuladas e mísseis de cruzeiro, inclusive em condições de má visibilidade, dificultada com obstáculos naturais ou artificiais. A perfeita operação do Igla nessas condições é garantida pelo equipamento de pontaria automática.

Assim, nenhuma aeronave terrorista conseguirá se aproximar das plataformas de petróleo nem das cisternas com hidrocarbonetos. Os sistemas Dgiguit e Streléts são facilmente desmontados e transportados em um automóvel ou nas mãos, pesando cada um 128 kg, e podem ser instalados tanto em uma rampa especial em uma plataforma de petróleo quanto em um carro ou barco pequeno. Custam muito menos do que sistemas fixos ou móveis como Kinjal, Kortik, Tor-M1 ou Páncir-S. Seu preço não é especificado pelos produtores.

“O preço é negociado nos contatos com os compradores e depende de muitos fatores, entre os quais o valor da compra, a necessidade de treinamento do pessoal, entrega de peças de reposição, programas de atualização, etc.”, dizem os produtores. Segundo informações disponíveis, um Dgiguit pode custar entre US$ 200 e 250 mil e um Streléts, duas ou três vezes mais.

Os sistemas navais Kinjal e Kórtik com mísseis custam milhões de dólares. Falta saber o que os mexicanos vão preferir. Seu vizinho, os EUA, também pode oferecer sistemas antiaéreos semelhantes e pressionar o país a comprar armas americanas para impedir que um concorrente forte entre no mercado.

sábado, 12 de novembro de 2011

México é acusado por outra ONG de violar direitos humanos no combate ao tráfico


As denúncias apresentadas num polêmico relatório pela Human Rights Watch (HRW) foram reforçadas nesta quinta-feira por outra ONG, a americana Wola, que foi além em suas acusações contra as Forças Armadas mexicanas. Segundo a organização, os militares torturam e assassinam impunemente e a chamada Iniciativa Mérida, em vez de conter o narcotráfico como se propunha, na verdade aumentou a violência no México.
"Não houve melhoras em termos de segurança pública e a cooperação, em vez de frear a violência, a generalizou", diz o texto da ONG Washington Office on Latin America (Wola), em referência ao tratado assinado entre Estados Unidos, México e outros países latino-americanos para o combate ao crime organizado.
O relatório da ONG americana fala em mais de 4 mil queixas sobre violações dos direitos humanos apresentadas entre 2006 e 2010 no México, como detenções arbitrárias, desaparecimentos forçados, tortura e assassinatos, sempre envolvendo policiais federais e as Forças Armadas.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Cidade do México hoje é a SP de amanhã. Uma obra prima tucana

Mercado de la Merced, cidade do México (foto de Geórgia Pinheiro)

O ansioso blogueiro pega um táxi no Zócalo, a monumental praça central da cidade do México.

Tinha acabado de rever os murais de Diego Rivera, no Palácio Nacional, e pretendia conhecer o Mercado de la Merced, que fica a uns 5 quilômetros dali.

Pegou o táxi de Sanchez Castro Primitivo, que trabalha 12 horas por dia e se reveza com Martin Cruz Angeles.

Era sábado, às 13h30.

Gastou 55 minutos para percorrer os 5 quilômetros, sem qualquer acidente nas ruas.

Algo anormal ?, perguntei.

- Normal. Assim é, sempre, respondeu Sanchez, impassível.

Um calor infernal.

E ele nem suar suava.

O trânsito caótico.

Não existe mão ou contra-mão no centro velho da Cidade do México.

É a lei do mais forte.

Ou destemido.

Sanchez diz que passa entre três ou quatro horas por dia trancado no trânsito.

O problema maior é o engarrafamento provocado por ambulantes que estreitam as ruas.

Ouvi de outro motorista que, para ele, o que distingue um candidato a Presidente de outro – a eleição é ano que vem – é ser mais ou menos condescendente com o comércio ambulante.

O litro da gasolina corresponde a R$ 2.

Só que a gasolina sobe todo mês, de forma quase imperceptível: centavo a centavo.

A PEMEX tem o monopólio total sobre o petróleo e a distribuição.

Mas, Sanchez me explica que há alguns anos está em curso o que ele chama de “estratégia diabólica, super diabólica”.

Consiste em fatiar a PEMEX em pequenos pedaços, tirar a musculatura dela.
tem sérias duvidas sobre a probidade do presidente do metrô de São Paulo.)

E São Paulo constrói um quilômetro de metrô por ano.

A cidade do México ainda tem um metrô de superfície.

Imagine o que seria a cidade do México sem um sistema de transporte público !

O cidadão paulistano gasta de duas a duas horas e meia por dia para chegar e voltar do trabalho.

Uma espécie de “Escravidão Neolibelês (*)”.

O ansioso blogueiro chega finalmente ao
Mercado de la Merced.

Inacreditável !

Impossível passar entre as ruelas.

Cada barraca anuncia seus produtos aos gritos.

Além do sistema de som do Mercado, que opera tão alto quanto num forró.  

La Merced é, digamos, cem vezes a rua 25 de março em São Paulo.

Mil vezes o Saara, no Rio.

Não tem comparação.

(E se houver um incêndio aqui dentro, como se escapa ?)

O ansioso blogueiro procurou a área de comedores, de restaurantes,
vivamente recomendada pelo caderno “Paladar”, do Estadão.
Como tudo o que o Estadão recomenda, não é bem assim.

Quem manda ler o Estadão.

Se mente sobre o Brasil, imagine, amigo navegante, sobre o México !

A cidade do México, hoje, é o que a cidade de São Paulo será em breve.

Com um obstáculo adicional: a cidade do México tem transporte público e São Paulo, uma obra-prima malúfica-tucana, não tem.

Mario Vargas Llosa chamou o reinado do Partido Revolucionário Institucional, que ficou 70 anos no poder no México, de “a ditadura perfeita”.

É São Paulo, nos últimos 17 anos: uma ditadura perfeita.

Cinco quilômetros em 55 minutos !
Clique aqui para ler “O que o FHC queria para o Brasil: a ALCA. Você me dá a sua soberania e em troca eu compro a tua cocaína”.


Paulo Henrique Amorim