![]() |
| O homem é um animal racional mesmo? |
O artigo que segue, do Alberto Diniz, aborda com propriedade a necessidade de um jornalismo laico frente aos movimentos de “Guerra Santa” que assolam o mundo.
Depois da Guerra Fria, a Guerra Santa
Por Alberto Dines
A questão religiosa está nas manchetes, capas, telinhas e monitores da mídia mundial. Há mais tempo, com mais destaque e mais espaço do que a crise econômica mundial (formalmente iniciada em setembro de 2008) e os conflitos bélicos propriamente ditos.
O mapa-múndi contemporâneo é na realidade um registro cartográfico das fogueiras acesas depois da queda do Muro de Berlim. O fogo sagrado inviabiliza o Afeganistão (Ásia Central), divide a dividida Indonésia, inflama o Irã, sangra o Iraque e todo o Oriente Médio (Israel inclusive), espalha-se pelo Magreb, vai ao centro da África, cruza o Mediterrâneo, volta a se aninhar no habitat natural da Península Ibérica, infiltra-se em quase toda a Europa, Países-Baixos, Escandinávia (o Massacre de Oslo foi um pogrom religioso), atravessa o Atlântico e instala-se no sistema linfático dos Estados Unidos. A América Latina não escapa da grande conflagração embora os adversários (católicos e protestantes) identifiquem-se como soldados de Cristo.
Esclarecimento, ponderação
Não se trata de um enfrentamento litúrgico ou teológico, Deus não está em discussão, nem a conquista territorial dos Estados conflagrados como aconteceu na Guerra dos Trinta Anos (1618-1648). O objetivo das cruzadas do século 21 é a conquista dos corações e mentes (mais aqueles do que estas) dentro desses Estados.
O que estamos testemunhando sem perceber não é o “choque de civilizações” como o previu Samuel P. Huntington, mas uma tentativa de paralisar o processo civilizacional que marca a humanidade há alguns milênios. Gigantesca guerrilha política, a primeira no gênero, verdadeiramente global, disfarçada em conflito confessional com o objetivo de trocar o ser humano pleno, soberano, em mero adorador de imagens e rituais.
A consagração da sinistra Michele Bachman, a verdadeira feiticeira de Salem, como líder do Tea Party (ou Hate Party, dá no mesmo) liquida o conservadorismo político americano e obriga os republicanos – todos os republicanos – a se aproximarem de uma forma ou de outra da arcaica Ku-Klux-Klan.
Em Madri, o papa Bento 16 diante da maior concentração religiosa na história do país adverte energicamente aos jovens que foram ouvi-lo na Jornada Mundial da Juventude que só existem duas opções de vida: casar-se ou ingressar em conventos. Sua Santidade não explicou o que devem fazer aqueles que não querem ou não podem se casar e os que recusam encarcerar-se numa ordem religiosa. Suicidar-se ou cair na gandaia?
As Organizações Globo declaram-se laicas em seus Princípios Editoriais, mas não conseguiram cobrir – de forma isenta ou engajada – o que se passou na Espanha antes, durante e depois da visita do papa. Apenas a Folha de S.Paulo, nos minguados espaços entre colunas assinadas e anúncios de imóveis, ofereceu uma pálida idéia das manifestações em defesa do Estado secular na Espanha.
Laicismo não é sinônimo de omissão. Jornalismo laico é obrigatoriamente esclarecedor, ponderado, ajuizado. Sobretudo tolerante. Defender o Estado secular não significa investir contra as religiões ou crenças, queimar templos, livros sagrados ou desrespeitar devoções. Significa apenas defender o Estado de Direito democrático e isonômico.
Mais luz
O mundo maometano fragmenta-se irremediavelmente: a divisão entre xiitas e sunitas ultrapassou a rivalidade entre seitas e dinastias que conflitam há 1.500 anos. Gerou um processo incontrolável de disputas e fragmentações menores que, longe de pacificar o Islã para fortalecê-lo, sangra-o em batalhas fratricidas perenes. O Islã surgiu como um processo conciliador – isso precisa ser mostrado ao leitor, ouvinte, telespectador.
O Estado de Israel foi criado a despeito da oposição da maioria dos religiosos ortodoxos que só admitiam a Redenção pelas mãos do Messias. O fundamentalismo religioso judaico está corroendo não apenas os fundamentos da democracia israelense como os do próprio sionismo. Nas comunidades judaicas da Diáspora o apoio aos governos de Israel deixou de ser automático, natural. Isto é bom para revitalizar os fundamentos éticos e culturais do judaísmo. E quem O Globo designa para opinar sobre o Oriente Médio na sua nobre página de opinião? O cônsul honorário de Israel no Rio de Janeiro, religioso, declaradamente de direita.
Os movimentos desta Guerra Santa Mundial precisam ser detectados e explicados, senão nas apressadas edições diárias, pelo menos nos fins de semana. O jornalismo impresso entrou em decadência porque voluntariamente abriu mãos das suas vantagens intrínsecas.
Um jornalismo laico como o preconizado nas diretrizes das Organizações Globo pede mais luzes, mesmo que hoje o Iluminismo seja confundido com uma marca de lâmpadas.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
”Sendo este um espaço democrático, os comentários aqui postados são de total responsabilidade dos seus emitentes, não representando necessariamente a opinião de seus editores. Nós, nos reservamos o direito de, dentro das limitações de tempo, resumir ou deletar os comentários que tiverem conteúdo contrário às normas éticas deste blog. Não será tolerado Insulto, difamação ou ataques pessoais. Os editores não se responsabilizam pelo conteúdo dos comentários dos leitores, mas adverte que, textos ofensivos à quem quer que seja, ou que contenham agressão, discriminação, palavrões, ou que de alguma forma incitem a violência, ou transgridam leis e normas vigentes no Brasil, serão excluídos.”