Guerrilheiro Virtual

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Governo deve ir além do combate à corrupção, diz Carlos Araújo

 Entrevista com Carlos Araújo no Jornal do Comércio 

O ex-deputado Carlos Araújo foi casado por 30 anos com a hoje presidente da República, Dilma Rousseff (PT) . Os dois mantêm uma boa relação e Araújo é um dos interlocutores da chefe da Nação. Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, ele saúda os recentes protestos populares contra a corrupção no País, mas adverte que o tema não deve ser central em nenhum governo.
Araújo projeta que a principal marca da gestão da petista será o avanço no setor da saúde. O foco será a expansão da Estratégia de Saúde da Família, em que uma equipe médica fica responsável por uma região e presta atendimento público e gratuito a domicílio.
O ex -deputado também fala das pressões que a presidente sofre dos partidos aliados, diz que não acredita que o ex-ministro José Dirceu (PT) interfira no governo, reconhece que o ex-presidente Lula (PT) mantém contatos seguidos com Dilma, mas observa que ela está cada vez mais dando o seu perfil à atual gestão.
Atuante na resistência à ditadura militar (1964-1985), Araújo ainda prevê que a abertura dos arquivos e a aprovação da Comissão da Verdade ocorrerão no mandato de Dilma.
Jornal do Comércio - Vivemos agora os 50 anos da Campanha da Legalidade, época de muitas mudanças, que pararam em 1964. Dá para traçar um paralelo entre a mobilização daquela época e o movimento contra a corrupção que está começando agora?
Carlos Araújo - A Legalidade se caracterizou pela união de forças políticas, inclusive antagônicas; grande mobilização popular; a Rede da Legalidade; e a adesão das Forças Armadas, onde houve um racha. Só foi possível o racha nas Forças Armadas por causa da adesão da população e também pela união das forças políticas. Brizola teve a lucidez de não politizar o movimento, ficou na luta pela defesa da Constituição... O golpe de 1964 estava sendo pensado desde 1932. E veio vindo até derrubar o presidente Getúlio (Vargas) em 1945. O velho Getúlio propunha na Revolução de 1930 democracia social, econômica, calcada no Estado como grande indutor de um movimento do capitalismo, com a criação de um mercado interno e a garantia de direitos sociais. Criou a Petrobras, o salário-mínimo. Ah, não deu outra: tinham que derrubá-lo. As mesmas forças que levaram Getúlio ao suicídio em 1954 tentaram impedir a posse de Juscelino (Kubitschek), até que, com o Jango, conseguiram o golpe. Jango estava prosseguindo as reformas de base, o decreto que dizia que terras até um quilômetro das estradas federais seriam desapropriadas para a reforma agrária. Quem tinha esse projeto era Getúlio. E não interessa se o PT tem consciência disso ou não, mas esse projeto é retomado no governo Lula. Um desenvolvimento do capitalismo à moda brasileira, não respeitando exigências do fundo monetário. Foi o que permitiu o desenvolvimento do Brasil, que agora está ganhando um impulso.
JC - E o crescente movimento contra a corrupção?
Araújo - Tenho muito medo disso... Corrupção não pode existir, ninguém pode concordar com essa barbaridade. Mas é assim em todos os países capitalistas do mundo. Quanto mais rico é o país, mais corrupção tem, não há país mais corrupto do que os Estados Unidos. A corrupção deve ser combatida permanentemente. Agora, não pode fazer disso a bandeira principal, porque acaba desviando da questão central, que é acabar com a miséria e desenvolver o País. E a Dilma tem dito: “os malfeitos que ocorrerem no meu governo, se eu souber, vou acabar com eles”. Está certo. Agora, não vamos fazer disso a bandeira central do governo.
JC - Essa movimentação da população não dá um respaldo para combater os malfeitos?
Araújo - Dá um respaldo, é bom. Mas quem está com essa movimentação? A classe média é mais sensível a essa questão. O povo trabalhador não dá muita importância. Muitas vezes não tem essa informação; talvez, se tivesse, daria. O governo tem que tentar reduzir ao mínimo possível a corrupção e a Dilma é uma pessoa talhada para isso. Ela é implacável nisso.
JC - E a pressão que ela sofre?
Araújo - No Brasil não tem partido forte. Então, qualquer governo precisa de aliança com outros partidos para governar. Sem isso, não governa o País, tem que ter maioria lá (no Congresso). E, olha que, para manter uma maioria lá no Congresso... A Dilma, os caras ameaçam todos os dias votar contra o governo.
JC - Isso não a torna refém?
Araújo - Não. Isso é o jogo político. Um dos partidos mais fortes que apoiava o governo era o que operava no Ministério dos Transportes (o PR) . Eram 41 deputados federais e 7 senadores. Ela teve que fazer (mudanças), não é verdade? Depois, o caso do PMDB no Ministério da Agricultura. O (Wagner) Rossi (PMDB) pediu demissão porque a situação estava complicada. Agora estão querendo que ela (Dilma) se envolva nas disputas internas dos partidos. Mas não vai. “Esse ministério é da cota do PMDB, então eles que indiquem, a responsabilidade é deles. Depois, se tiver problemas, eu tiro. Mas os rolos internos vocês resolvam entre vocês.” Ela deu uma lição no caso do Eduardo Cunha, deputado do Rio de Janeiro que controlava Furnas. Ele começou a dizer antes de ela assumir que não ia sair de Furnas. E nisso a Dilma chamou o PMDB: “Digam que ele não terá nada, porque desrespeitou minha autoridade. E o grupo dele também não terá nada. Não interessa as consequências”. Essa luta contra o que ela chama de “malfeitos” vai continuar.
JC - Até o PT tem feito pressões ao governo...
Araújo - Esses partidos são divididos ideologicamente. Lula, agora, sobre a sucessão em São Paulo, declarou: “Espero que vocês não se esfaqueiem”. Imagino que a pressão que ela sofre de setores do PT aninhados principalmente na Câmara dos Deputados é muito forte.
JC - E o José Dirceu?
Araújo - José Dirceu tem um papel forte no PT. É um líder. Ovacionaram ele mais que o Lula e que a Dilma (no congresso do PT) . Agora, não acredito nessa história de que o José Dirceu está manobrando contra a Dilma. Mas é um grande articulador, goste-se dele ou não.
JC - Mas ele não está avançando para dentro do governo?
Araújo - Não vejo indícios disso. Um governo como o da Dilma é muito duro para deixar avançar para dentro do governo. Dilma, às vezes, até peca pelo detalhismo, quer saber tudo. Então, acho muito improvável que avance para dentro do governo de uma forma significativa. Pode ser até que avance de uma forma ou de outra.
JC - E a atuação de Lula no caso do ex-ministro Antonio Palocci (PT) ? Muito se falou que ele ainda apita no governo.
Araújo - Dilma e Lula têm falado. A última vez que Lula falou, disse o seguinte: “Entre a Dilma e eu não existe divergência. Mas, se um dia houver, o errado sou eu”. Eles são íntimos amigos, têm uma confiança grande um no outro. Dilma ficou anos com ele sem dar bola nas costas, e o temperamento do Lula também não é de dar bola nas costas de ninguém. O que acontece é que ela às vezes se aconselha com Lula. Na formação dos ministérios, certamente discutiu com Lula. Mas não que o Lula queira mandar, exigir. Ele aconselha, é mais experiente. Mas, a cada dia, embora continue se reunindo com ele semanalmente, Dilma vai dando mais o seu perfil ao governo.
JC - Há uma transição ou acomodação política no governo?
Araújo - Não quer dizer que Lula seja contrário. Lula não atrapalha em nada, ele ajuda em tudo. Esse negócio da sucessão em 2014, a Dilma só não é candidata se não quiser. Isso ele disse para mim, estávamos discutindo eu, ele e a Dilma no dia 31 de dezembro. Lula sabe que, para ser candidato, só em 2018. E pode ser, porque hoje em dia, uma pessoa com 72 anos não pode ser considerada velha.
JC - Dilma deve formar o ministério só dela até o final do ano.
Araújo - Dilma, na época do Lula, já tinha muita influência sobre a escolha dos nomes para os ministérios. Então, esses ministros que estão aí já são pessoas que passaram pelas mãos da Dilma antes.
JC - E os que ela nem recebe...
Araújo - O do Turismo (Pedro Novais) e o ex-governador do Rio de Janeiro Moreira Franco (Assuntos Estratégicos), os dois do PMDB. .. Na verdade, essa relação com Lula é de confiança recíproca, de amizade. Não há nem haverá problemas. Divergência é normal em governos.
JC - O senhor falou que o combate à corrupção não pode ser o tema central do governo, embora seja importante combater. Quais são os temas de fundo?
Araújo - A questão da saúde. Outra é que o Brasil, para crescer, precisa de mão de obra qualificada. Urge mandar esse pessoal para o exterior para adquirir formação. Temos que fazer o máximo que der de universidades públicas. Agora, o foco central - isso não quer dizer que vá abandonar Minha Casa, Minha Vida, Fome Zero, a luta contra a miséria -, vai ser a questão da saúde.
JC - Qual vai ser a marca do governo Dilma?
Araújo - Pode escrever: vai ser a saúde. Vai ser a marca do governo Dilma. Ela vai trabalhar em cima disso permanentemente.
JC - Vai vir mais imposto?
Araújo - Pode ser que venha. Para aprovar a Emenda 29 (que fixa investimentos na saúde), precisa saber de onde virá o dinheiro.
JC - Na campanha ela disse que não criaria mais impostos. Está colocando o tijolo quente nas mãos do Congresso...
Araújo - É verdade... Mas vai investir em saúde. Ela anunciou há pouco tempo que vai instituir a (Estratégia) Saúde da Família, uma espécie de médico de família, com o tratamento em casa. É possível; agora, médico, para ter dedicação integral, precisa ser bem remunerado. Vai ter milhares de médicos dedicados a esse sistema, o cara vai ser responsável pela região. Serão inaugurados hospitais mais bem equipados, mas o principal é esse atendimento domiciliar (público). Ela está convencida de que tem que remunerar bem o médico, o auxiliar de enfermagem, o enfermeiro e os outros profissionais da saúde. E cada vez produzir mais remédios de graça. Se a Dilma fizer isso na saúde, eu já estaria feliz.
JC - E o projeto da Comissão da Verdade?
Araújo - Vai ser aprovado. Os militares não se opõem nesse formato que foi feito, os que se opunham se afastaram. No Congresso não há praticamente oposição. Ela (a comissão) vai funcionar bem, a Maria do Rosário (PT, ministra dos Direitos Humanos) é competente. E vai comandar isso aí. Será para dizer como foi, listar aqueles notórios torturadores que estão aí. Não é nem para processar, é para pelo menos listá-los. É interessante deixar registrado na história do País.
JC - E a abertura dos arquivos? Sai quando?
Araújo - Tem que abrir tudo. Quando eu não sei. Já estão atrapalhando lá no Senado, inventando umas bobagens. O (senador Fernando) Collor é o relator. Estão criando umas dificuldades, incompreensões do meu ponto de vista. Porque documento secreto vai ter sempre; mas aqueles que dizem respeito à segurança nacional, uma coisa mais grave, são poucos.
JC - No governo Dilma os arquivos vão ser abertos?
Araújo - Acho que sim. A própria Comissão da Verdade é para isso. Não sobrou muita coisa, mas tem ainda. O ex-ministro Nelson Jobim (PMDB) disse que queimaram tudo, que não encontrou nada. Até acredito. Aqui queimaram os documentos do Dops.
JC - O que Dilma fará pelo Rio Grande do Sul?
Araújo - As promessas ela vai cumprir: ponte do Guaíba e metrô. Agora querem colocar a ponte da Concepa goela abaixo, repassar 20 anos de concessão da freeway - aquilo é uma fábrica de dinheiro. Não estou dizendo que não pode ser assim, mas tem que ser examinado. O metrô é a mesma coisa.
JC - E o governo de Tarso Genro (PT) no Estado?
Araújo - A coisa no Rio Grande do Sul não é fácil. O ponto a que chegou o Estado, decrescendo... Mas Tarso tem uma oportunidade de ouro, nenhum outro governador teve essa conjunção partidária (o mesmo partido no Estado e no governo federal). Além disso, tem as forças que o apoiam, maioria na Assembleia Legislativa. Não pode perder a oportunidade para tentar destravar um pouco o Rio Grande.
Perfil
Carlos Franklin Paixão Araújo, 73 anos, é natural de São Francisco de Paula. Aos 14 anos, ingressou na Juventude do Partido Comunista Brasileiro - na época, clandestino. Sua trajetória é marcada por inúmeras prisões - as primeiras quando pichava os muros de Porto Alegre com os dizeres O Petróleo é Nosso. Seguiu no partido até 1957. Depois, participou de diversos grupos de esquerda, inclusive fora do Estado. Retornou a Porto Alegre na época da Legalidade, em 1961, quando teve mais contato com Leonel Brizola. Formou-se em Direito pela Ufrgs. Organizou movimentos sindicais, campesinos e operários durante a ditadura militar. Uniu-se a grupos armados do centro do País, sendo um dos dirigentes da VAR Palmares. Ficou preso de 1970 a 1974. Na guerrilha, conheceu sua segunda mulher, a hoje presidente da República, Dilma Rousseff (PT) , com quem foi casado por 30 anos (1969-99). Depois dos anos duros, voltou à advocacia e uniu-se a Brizola no PDT. Elegeu-se deputado estadual em 1982, sendo reeleito por mais duas legislaturas. Concorreu à prefeitura de Porto Alegre em 1988 e 1992. Deixou a vida pública em 1995, em razão de um enfisema pulmonar. E desfiliou-se do PDT no início dos anos 2000

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