Guerrilheiro Virtual

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Quem matou Burhanuddin Rabbani?

23/9/2011, *MK Bhadrakumar, Indian Punchline
Burhanuddin Rabbani
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

A declaração dos Talibã, negando envolvimento na morte de Burhanuddin Rabbani, presidente do Alto Conselho Afegão para a Paz, aparece no terceiro dia depois do acontecido. 

Evidentemente, a Quetta Shura precisou verificar atentamente todas as várias facções Talibã, antes de manifestar-se. Os Talibã, dessa vez, demoraram a pronunciar-se. Normalmente, são os primeiros a falar, quando se declaram responsáveis por algum feito. Dessa vez, nada. Até que falaram e negaram qualquer participação no atentado.

Editorial do Guardian chama a atenção para um ponto importante: “O escalpo de Rabbani teria alta cotação na lista de alvos dos Talibã, que se têm aplicado em matar altos funcionários e líderes afegãos, não fosse o fato de Rabbani ser presidente do Alto Conselho Afegão para a Paz. Detoná-lo seria como detonar as próprias conversações de paz, e não há qualquer sugestão de que os Talibãs tenham algum interesse em pôr fim àquelas negociações”.[1]

De fato, a mensagem do Supremo Talibã, Mulá Omar, em discurso na cerimônia do fim do Ramadã, foi amplamente interpretada como mudança de posição: disse que o futuro da resistência pode estar na política[2] . Comentário de Ahmed Rashid, emWhat the Taliban Want. Outro comentário em “Deciphering Mullah Omar’s Eid Message, da Radio Free Europa mantida pelos EUA / Radio Liberty, que praticamente repete os argumentos de Rashid.

Surgiram várias teorias sobre quem matou Rabbani, que só fizeram aumentar a confusão, e a notícia boa é que a agulha da suspeita move-se, dia a dia, cada vez para mais longe dos Talibã. Mas fato é que alguém ordenou a morte de Rabbani. Quem? 
Continuem cavando sempre mais fundo, e não se deixem confundir pelo bater dos tambores dos EUA nem pelo agitar de sabres norte-americanos contra o Paquistão.

A declaração do primeiro-ministro da Índia Manmohan Singh diz muito. Recusou-se a antecipar qualquer julgamento sobre quais mãos estariam vermelhas do sangue de Rabbani. Eis um trecho do que escreveu a Karzai:

“Fui informado, com grande choque e profunda tristeza, da morte trágica do professor Burhanuddin Rabbani. É ato de terrorismo sem sentido, que o governo e o povo da Índia condenam. Lembro com afeto meus dois encontros com o professor Rabbani em Kabul em maio de 2011 e em New Delhi em julho de 2011, nos quais o professor partilhou comigo sua visão de paz e reconciliação no Afeganistão. A melhor homenagem que o povo do Afeganistão lhe pode prestar é prosseguir na tarefa que ele iniciou – garantir futuro de paz e segurança aos afegãos. Peço-lhe que aceite minhas profundas condolências nessa perda trágica. Quero assegurar a Vossa Excelência que a Índia permanece ao seu lado e ao lado do povo afegão, nessa hora de tristeza.”

É possível que o primeiro-ministro indiano colha informações do presidente Mahmoud Ahmedinejad, quando se encontrarem em New York essa semana. Teerã está sempre muito bem informada sobre o que se faça em nome da guerra ao terror no Afeganistão. Além disso, Teerã foi a última parada de Rabbani, de onde saiu para passar alguns dias com membros de sua família que vivem em Sharjah.

Quer dizer, até ser chamado para voltar imediatamente a Kabul, por mensagem que recebeu como se tivesse sido enviada das embaixadas dos EUA e Grã-Bretanha, entregue a ele por um oficial afegão. A mensagem falava de evento de extrema importância que requeria sua volta imediata a Kabul. Infelizmente, a mensagem lhe pareceu autêntica, e ele voltou.

Os iranianos saberão o que passava pela cabeça de Rabbani, enquanto se encaminhava para a morte. Quase com certeza, Rabbani esteve, em Teerã, com o embaixador Mohsen Pak-Ayeen e conversaram. Essa é uma das razões pelas quais me chamou a atenção o que disse o embaixador Pak-Ayeen. 

A segunda razão é que PakAyeen foi meu colega, embaixador do Irã, quando fui embaixador da Índia, em Tashkent. Eram os dias tumultuosos da Aliança da Norte e da resistência anti-Talibã. O embaixador Pak-Ayeen e eu nos tornamos amigos – e, ah, não sei se haverá outro diplomata em toda a nossa região que conheça o Afeganistão como ele, como a palma da mão. Sim, sim, de Afeganistão ele entende. Eis o que Pak-Ayeen disse sobre a morte de Rabbani:

Funcionário do serviço diplomático do Irã acusa a OTAN, no assassinato de Rabbani  

21/9/2011, Fars News Agency - 


Teerã (FNA) – Veterano funcionário do Ministério de Relações Exteriores do Irã acusou as forças da OTAN comandadas pelos EUA no Afeganistão pelo assassinato, ontem à noite, do ex-presidente afegão Burhanudin Rabbani.

Em entrevista à FNA em Teerã, na 4ª-feira, o chefe do serviço para o Afeganistão do Ministério das Relações Exteriores do Irã Mohsen Pak-Ayeen manifestou profunda lástima pelo covarde assassinato do ex-presidente do Afeganistão; descreveu Rabbani como Mujahid (combatente de Deus) do clericato, que lutou contra as políticas colonialistas da Inglaterra e da ex-União Soviética. 

Lembrou que Rabbani também se opunha firmemente ao pacto de segurança entre Kabul e Washington sobre o estabelecimento de bases norte-americanas permanentes no Afeganistão. 

“Foi assassinado para afastar um Mujahid que lutou durante anos pela independência do Afeganistão. Seu assassinato é mais um, numa cadeia de ataques terroristas que levou à morte de Davoud Zee e Ahmad Karzai” – disse o diplomata. 

Disse que o ataque terrorista que matou Rabbani visou a pressionar Karzai para que concorde com exigências que só interessam aos assassinos.

“À frente, na lista desses interessados, estão estados membros da OTAN e os EUA. São responsáveis por esse ato terrorista. Invadiram o Afeganistão sob a desculpa de criar segurança e combater o terrorismo, há dez anos. E não conseguiram restaurar a segurança no Afeganistão.” 

“Países estrangeiros, comandados pelos EUA, querem obter à força uma implantação militar permanente no Afeganistão e matam qualquer um que se oponha a essa presença permanente. Mataram o mártir Rabbani” – repetiu Pak-Ayeen. 

Rabbani foi morto num atentado terrorista na 3ª-feira à noite, por uma bomba escondida num turbante.

Era, atualmente, presidente do Alto Conselho Afegão para a paz, formado de atuais e ex líderes políticos e personalidades nacionais. Foi presidente do Afeganistão de 1992 a 1996, quando o país enfrentou brutal guerra civil. Foi derrubado da presidência quando os Talibã assumiram o poder, em 1996.

Notas dos tradutores

[1] Guardian, UK, 22/9/2011, Afghanistan: explosive missive 
[2] Ver 31/8/2011, Mulá Mohammad Omar, dos Talibã: “Mensagem do fim do Ramadã, 2011”.

 
Embaixador *MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu e Asia Online. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

”Sendo este um espaço democrático, os comentários aqui postados são de total responsabilidade dos seus emitentes, não representando necessariamente a opinião de seus editores. Nós, nos reservamos o direito de, dentro das limitações de tempo, resumir ou deletar os comentários que tiverem conteúdo contrário às normas éticas deste blog. Não será tolerado Insulto, difamação ou ataques pessoais. Os editores não se responsabilizam pelo conteúdo dos comentários dos leitores, mas adverte que, textos ofensivos à quem quer que seja, ou que contenham agressão, discriminação, palavrões, ou que de alguma forma incitem a violência, ou transgridam leis e normas vigentes no Brasil, serão excluídos.”