Guerrilheiro Virtual

terça-feira, 13 de março de 2012

Quem derrubou Ricardo Teixeira foi a Dilma


Ricardo Teixeira sobreviveu no cargo de Presidente da CBF durante a gestão de cinco presidentes da República. Foram eles: José Sarney, Fernando Collor de Melo, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso e Lula.

Procurou ser colaborativo com todos eles.

Até o período de FHC, os presidentes concentravam-se em outras prioridades políticas, como a estabilização da moeda, por exemplo.

O potencial de comunicação do futebol para com a sociedade era pouco explorado. Até porque a sociedade passou a desconfiar seriamente da composição entre e política e futebol, tendo em vista a lembrança aproveitamento político do Regime Militar com a conquista da Copa de 1970.

No Governo Lula, o futebol voltou a ser ferramenta política. Inclusive como recurso do Estado brasileiro na composição de sua política externa.

Claro que o gosto de Lula pelo futebol e a compreensão de seu potencial de comunicação política com a sociedade foram decisivos.

Inúmeras foram as oportunidades em que Lula se utilizou de metáforas futebolísticas para ilustrar para a sociedade as diversas variáveis da política e da economia no Brasil. Corinthiano doente vestia também a camisa de diferentes clubes em eventos sociais da Presidência da República.

Na política externa, o futebol foi ferramenta das mais utilizadas na construção do “Soft Power” brasileiro.

O desejo de Lula em inserir o Brasil nas principais instâncias representativas e deliberativas mundiais, colaborou ainda mais para que o presidente conquistasse a simpatia dos aliados e deixasse explícita a importância do Brasil no mundo utilizando o nosso futebol como adereço.

Quem não se lembra da “missão” da Seleção Brasileira no Haiti, ocasião que desencadeou o entendimento de que deveria o Brasil liderar a missão da ONU naquele país.

Muitos acusam Lula de ser um líder populista.

Outros acusam de ter sido pouco rigoroso e exageradamente conciliador.

Mas justiça deve ser feita. Lula não foi um presidente interventor. Respeitou todas as instituições nacionais e articulou as relações da presidência com estas instituições através da política, seu maior dom e seu grande trunfo.

E assim foi com Ricardo Teixeira. Lula soube colocar suas demandas e articular seus interesses, atraindo o presidente da CBF para seu campo de aliados. E assim foi com o judiciário, com o Banco Central, com seu ministério e com o Legislativo. Durante meses a cabeça de José Sarney foi pedida, mas Lula deixou que este assunto fosse resolvido pelo senado, sem rifar Sarney.

Mas com Dilma é diferente.

O futebol deixou de ser um assunto limitado em si mesmo.

A Copa do Mundo fez com que o futebol e sua principal competição se tornassem assunto de interesse nacional. Muitas questões infinitamente maiores do que o esporte entraram na pauta do governo.

E um desastre na Copa do Mundo seria fatal para as pretensões eleitorais de Dilma em 2014.

A presidenta sufocou Ricardo Teixeira.

A natureza do poder absolutista de Teixeira sempre se ancorou em três situações fundamentais.

  1. A dependência econômica das pequenas federações estaduais financiadas pela CBF que compunham sua principal base de apoio.
  2. A relação promíscua entre o futebol brasileiro e a grande imprensa em especial a Rede Globo que evitou “rifar” Ricardo Teixeira até o último minuto do segundo tempo. Na “Era Teixeira”, a Globo garantiu o monopólio do futebol brasileiro, podendo intervir inclusive nos horários e organização dos jogos.
  3. A articulação clientelista entre a CBF e o poder político, salvaguardando os diferentes interesses locais, construindo uma verdadeira rede de proteção política estatal.
    Principalmente pelos dois últimos pontos, Ricardo Teixeira tornou-se o interventor ideal que acomodaria os gigantescos interesses políticos e econômico.

    O agora ex-presidente da CBF colecionou inimigos, e com o advento da Copa do Mundo, tornou sua cadeira objeto de interesse nacional.

    Na entrevista que concedeu à Revista Piauí, destilou sua arrogância e ilusão de onipotência. Falou como um imperador.

    Dilma jamais tolerou Ricardo Teixeira e o desqualificou como interlocutor para a Copa do Mundo.

    Ele foi ignorado nas relações entre o Planalto e a FIFA, sendo que rapidamente os interesses de Dilma e Joseph Blatter se convergiram para que Ricardo Teixeira fosse deposto.

    O Brasil tem uma agenda árdua até a Copa do Mundo. A presidenta se impôs sacando todos os privilégios que Teixeira dispunha com o Planalto e fazendo com que ele se tornasse incompatível com o cargo. Corria até mesmo o risco de sofrer outras ofensivas e perder tudo o que conquistara. Para Teixeira tornou-se mais conveniente sair enquanto é tempo.

    Para quem achava que Dilma seria uma mera sombra de Lula, sendo guiada em todos os seus passos e comprometeria a vida republicana brasileira fica mais esta lição.

    Esta é a Presidenta do Brasil.
     
Do Terra Brasilis

Nenhum comentário:

Postar um comentário

”Sendo este um espaço democrático, os comentários aqui postados são de total responsabilidade dos seus emitentes, não representando necessariamente a opinião de seus editores. Nós, nos reservamos o direito de, dentro das limitações de tempo, resumir ou deletar os comentários que tiverem conteúdo contrário às normas éticas deste blog. Não será tolerado Insulto, difamação ou ataques pessoais. Os editores não se responsabilizam pelo conteúdo dos comentários dos leitores, mas adverte que, textos ofensivos à quem quer que seja, ou que contenham agressão, discriminação, palavrões, ou que de alguma forma incitem a violência, ou transgridam leis e normas vigentes no Brasil, serão excluídos.”