Guerrilheiro Virtual

quarta-feira, 30 de maio de 2012

A metralhadora giratória

O jurista boquirroto: demiurgo de crises   (Fábio Rodrigues Pozzebom/ABr)
Tempos atrás o noticiário dos jornais incorporou um modismo em seus textos. Escrevia-se, sempre que houvesse uma oportunidade, que "fulano disparou a sua metralhadora giratória". Não faço a menor ideia do autor da frase, mas seja quem for, teve milhares de seguidores Brasil afora. Todo mundo, não importa o que dissesse, disparava a sua "metralhadora giratória". Foram tantas balas perdidas que, era inevitável, acabaram ferindo seriamente a frágil estrutura linguística de nossa debilitada imprensa: os textos, ruins, ficaram ainda piores, até que, com o tempo, esse modismo bélico foi substituído por outros. E assim caminha a mediocridade.

Agora, ao ler as declarações do ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes, percebo que é o momento de ressuscitar os disparos da metralhadora giratória, pois se há um fato que exprima exatamente o que faz o nosso estimado jurista é esse: disparar para todos os lados, ferir o maior número de inimigos no menor prazo possível para instalar o pânico nas hostes dos oponentes.

Há quem diga que o causídico em questão está, ao exibir tamanha verborragia, dando mostras de desespero diante de revelações que inevitavelmente virão a público das milhares de horas gravadas pela Polícia Federal das conversas do bando do notório Carlinhos Cachoeira.

Pode ser. O ilustre jurisconsulto tem uma carreira povoada de fatos no mínimo polêmicos. Sua trajetória não tem nada a ver com a imagem do sábio rodeado, em sua vetusta biblioteca, de velhos e carcomidos volumes, que a figura de um integrante da mais alta corte de Justiça do Brasil nos inspira.

Ao contrário, o nosso douto ministro sempre se mostrou um homem moderno, ativo, antenado - olha o modismo! - com o seu tempo, empreendedor, sempre disposto a opinar sobre tudo - quase uma dessas celebridades das páginas de revistas tipo Caras.

Ao negar uma viagem à Alemanha às expensas do bicheiro Cachoeira, nosso jurista mostrou toda a sua personalidade forte e exuberante: "Não preciso disso, meu livro 'Curso de Direito Constitucional' vendeu 80 mil exemplares, posso com o dinheiro que ganhei dar várias voltas ao mundo", assegurou.

Mesmo assim, com tanto dinheiro, o notável causídico confirmou, candidamente, ter viajado duas vezes em aviões cedidos pelo senador Demóstenes Torres, o ajudante de ordens do quadrilheiro Cachoeira. Não foram voltas ao mundo, o destino era apenas Goiás, no Brasil Central, terra onde vivem e prosperam tantos brasileiros insígnes.

É uma figura e tanto esse nosso douto personagem. Fala e viaja com a mesma frequência com que concede habeas corpus que permitem tirar da cadeia um banqueiro suspeito de variados e graves crimes. Transita entre as autoridades com a mesma naturalidade com que as acusa de promover crises institucionais.
Dá, enfim, a impressão que a toga que exibe orgulhoso no Supremo Tribunal Federal é uma armadura que o protege contra os tiros de sua própria metralhadora giratória - balas que podem ricochetear em alvos mais duros do que elas e, de volta ao autor dos disparos, ferí-lo gravemente. 

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