Notícia 1: Com a decisão de quarta-feira passada, o Copom (Comitê de Política Monetária) trouxe a taxa Selic para o mais baixo patamar da sua existência: 8,5% ao ano.
Notícia 2: com a Espanha em crise total, bancos ameaçados, a própria Espanha ameaçando sair da União Europeia, a taxa básica do país explodiu para... 5,5% ao ano.
A diferença é acachapante. O país ainda pratica taxas de juros estratosféricas. Só agora caminha para uma taxa básica apenas muito elevada - não escandalosamente elevada.
Desde agosto o Banco Central vem perseguindo essa redução de juros. No início, enfrentando o alarmismo inconsequente de analistas financeiros e comentaristas de rádio e TV.
Em outros momentos da história, esse alarmismo sempre logrou manter a Selic em patamares escandalosos. E sempre as mesmas figuras - Mailson, Loyolla, Blanche, Tendências - acenando com o fim do mundo, com a volta da hiperinflação e outros fantasmas.
O que levou o BC, agora, a derrubar a taxa Selic foram os mesmos fatores que deveriam ter levado à queda da Selic em 2008: queda na atividade econômica, reduzindo as pressões sobre preços. Mas, naquele tempo, em plena crise, o BC - presidido por Henrique Meirelles mas tendo, entre seus diretores, o atual presidente Alexandre Tombini - subiu os juros, ao invés de descer.
Há muito se sabe que é mínimo o efeito da Selic sobre os índices inflacionários. Ela pouco impacta taxas de juros (cujo spread é imensamente superior às variações da Selic), e, por conseguinte, níveis de estoque, de demanda.
Mas são imensos os estragos sobre os recursos orçamentários - tirando dinheiro de investimento, saúde, educação, segurança para pagar juros.
O BC de agora não ficou mais sábio do que o dos tempos de Meirelles. Apenas sua orientação política - no melhor sentido da palavra - mudou. Mudando, deixou de ser prisioneiro de falácias monumentais, brandidas diariamente por analistas pífios.
Por exemplo:
1. Passou a aceitar que as medidas prudenciais (as que impactam diretamente o crédito) são muito mais eficazes que a elevação da Selic.
2. Constatou o óbvio: que, a não ser por alguma pressão sobre serviços, a inflação brasileira é fundamentalmente influenciada pelos preços internacionais de commodities e por indexação de contatos - sobre os quais a Selic não tem nenhuma interferência.
O desafio, agora, será impedir um crescimento pífio do PIB este ano. Terá que suar muito:
1. O consumo interno garantiu o PIB dos últimos anos. Daqui para frente, seu crescimento será cada vez mais próximo do crescimento do PIB. Há um primeiro salto, quando ocorre a mudança nos hábitos de consumo das classes incluídas. O primeiro salto esgota parte da capacidade de contrair financiamentos.
2. Bens de consumo durável e cadeias podutivas continuam sob fogo intenso dos importados. Por enquanto, o novo nível do dólar não segurará a invasão externa. Muito menos permitirá aumento das exportações de manufaturados.
3. Resta a perna do investimento. É por aí que o governo aposta todas as suas fichas. Anunciou um conjunto de medidas de apoio. Mas serão necessários alguns meses ainda para que os empresários acreditem que a nova etapa - crescimento baseado em investimentos - já se consolidou.
Falácias do rei da Selic
Luiz Carlos Mendonça de Barros foi um dos analistas que, em agosto do ano passado, desancou a decisão do Banco Central de reduzir a Selic. Na época, sofismou. Sustentou que o quadro internacional não tinha mudado tanto, quanto alegava o BC, para justificar a queda dos juros.
Agora, muda de opinião.
A diferença dos dois momentos é que, em agosto, Luiz Carlos estava na ponta errada do mercado futuro de juros. Agora, afinou a aposta.
Mesmo assim, continua sofismando.
Não se sustenta a tese de que os investimentos externos são essenciais para garantir a colocação dos títulos longos da dívida, como pretende ele. Pelo contrário.
Primeiro, porque nos próximos anos o BC deixará de rolar pelo menos R$ 50 bilhões da dívida pública, devido à redução do estoque.
Depois, porque o investimento externo aumenta a dívida, ao invés de reduzir, pelas razões abaixo expostas:
- O investimento externo entra no país, em dólares. Suponha que seja US$ 1 bi.
- O investidor vende no mercado e recebe reais - com os quais investe em títulos públicos.
- Na sequência, o BC é obrigado a comprar os dólares para impedir a apreciação excessiva do real. Cada 100 dólares que entra aumenta, as reservas cambiais em US$ 1 bi e a dívida pública bruta em US$ 1 bi. Teoricamente aumentou a dívida pública em US$ 1 bi mas constituiu reservas em dólares no mesmo valor. Logo a operação seria neutra do ponto de vista do endividamento.
- Ocorre que, mesmo com a queda da Selic, os títulos públicos pagam 8,5% ao ano, enquanto as reservas são remuneradas a 1% ao ano.
- No final de um ano (sem computar variações cambiais), só por conta daquela operação, as reservas cambiais estarão em US$ 1,01 bi, enquanto a dívida pública (contraída para adquirir as reservas) em US$ 1,09 bi.
- Portanto, a tal operação de financiamento da dívida pública em dólares, no fundo aumentou a dívida pública em 7,5% ao ano. Isso agora, com a Selic a 8,5%. Com a Selic a 11% - como defendia Luiz Carlos - ao final de um ano, cada dólar que entrava para financiar a dívida pública provoca um aumento de 10% ao ano no estoque da dívida.
- A dívida pública cresce 7,5% ao ano em cada aplicação de dólares em títulos públicos. Já cresceu muito mais. Aí vem o Luiz Carlos e informa o distinto público de que, por conta do aumento da dívida pública, o BC não pode reduzir a Selic nem abdicar do investimento externo... que aumenta a dívida pública
Da Folha de S. Paulo
LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS
LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS
Juros, uma fronteira importante
Juros reais mais baixos são uma vitória para a sociedade, mas trazem dose maior de responsabilidade
Amanhecemos ontem com a menor taxa Selic desde que o sistema de metas de inflação foi criado, em 1999. O mesmo pode ser dito se considerarmos o juro real (que desconta a taxa de inflação prevista para os próximos 12 meses).
Olhando para a frente, isso quer dizer que as aplicações financeiras devem render aos investidores algo próximo de 3% ao ano. Se descontarmos o pagamento do Imposto de Renda, o numero é ainda mais baixo. Sem dúvida, cruzamos mais uma fronteira importante na evolução da economia brasileira.
Os juros juntam-se agora a outras mudanças estruturais que vêm ocorrendo desde que o presidente Fernando Henrique Cardoso liderou a luta contra a hiperinflação, em 1994. O Brasil tem uma situação fiscal sólida, com o Banco Central reportando ontem que a dívida do governo, descontados ativos líquidos, equivalia a 35,7% do PIB do país.
Mesmo se olharmos para a dívida bruta (56,8% do PIB em abril), vivemos hoje em um país pouco endividado quando comparado com o mundo desenvolvido. Em 12 meses, o deficit nominal chegou a 2,42% do PIB, abaixo do teto de 3% que prevalece na zona do euro e atualmente quase inatingível para vários países que dela fazem parte.
Outra mudança relevante nos últimos anos foi a transformação do real em moeda confiável, forte e que precisa da intervenção do Banco Central para evitar sua valorização excessiva. Apenas os juros continuavam em níveis muito elevados, mesmo depois de acomodar-se em níveis mais civilizados nos últimos anos. Agora vamos viver -devedores e credores- em um equilíbrio mais coerente com a situação macroeconômica que construímos com tantas dificuldades.
Mas para que essa nova realidade dos juros possa ser perene, como as outras mudanças que citei, será preciso uma posição mais cuidadosa do governo -principalmente do Banco Central- na gestão da política econômica. Um juro real elevado representa uma defesa natural maior contra flutuações em preços importantes da economia causadas por forças de mercado ou por erros de política econômica.
Por exemplo, com os juros reais próximos de 3% ao ano, a flutuação da taxa de inflação precisa ser muito menor do que a que ocorria no passado, quando os juros reais chegavam a mais de 8% ao ano.
Com espaço bem menor de segurança, a fronteira entre juros reais positivos e negativos pode ser cruzada com maior frequência e rapidez. Principalmente porque estamos vivendo em um mundo afetado por fortes forças deflacionárias e que poderão mudar de direção se a crise mundial der sinais de acomodação.
Vejam, por exemplo, a queda recente dos preços do petróleo nos mercados internacionais e que salvaram a Petrobras de correção forte nos preços dos combustíveis. Se a economia mundial se recuperar, os preços do petróleo voltarão a subir, e um reajuste será necessário.
Outro exemplo importante desse cuidado adicional é a administração da taxa de câmbio. O financiamento da dívida pública interna, principalmente na parte mais longa de seus vencimentos, depende em grande parte dos investidores estrangeiros.
Com juros mais baixos, o valor do real nos mercados de câmbio passa a ser muito mais decisivo para a manutenção desses investidores em nosso mercado.
E não estamos falando de investidores de curto prazo, ou especuladores, como habitualmente diz nosso ministro da Fazenda.
A responsabilidade pela manutenção da estabilidade microeconômica daqui para a frente será, no final, do BC na condução da política monetária. Os ajustes nos juros Selic, devido a mudanças conjunturais, terão de ser mais rápidos e com maior eficiência. Além disso, a importância das expectativas de mercado em relação à taxa futura de inflação também vai aumentar na administração dos juros, forçando o BC a considerá-la de forma mais relevante nas suas decisões.
Como tudo na vida, juros reais mais baixos representam uma vitória para a sociedade, mas trazem no seu bojo uma dose maior de responsabilidade e eficiência.
LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS, 69, engenheiro e economista, é economista-chefe da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações (governo Fernando Henrique Cardoso). Escreve às sextas-feiras, a cada 14 dias, nesta coluna. lcmb2@terra.com.br
Luis Nassif
Do Advivo


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