Guerrilheiro Virtual

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

A eleição de São Paulo e sua conjuntura


A natureza da ação política se define por alguns conteúdos, sendo que um dos mais importantes é a imprevisibilidade. Fatos e ações imprevistos, e até mesmo acasos, podem modificar o rumo dos acontecimentos num determinado recorte temporal. Mas, ao mesmo tempo, a política se desenvolve em contextos conjunturais e estruturais definidos que condicionam e limitam as possibilidades e alternativas, conferindo determinada lógica aos acontecimentos. Os sujeitos políticos ativos se movimentam nesta ambigüidade da política: uns querendo reforçar determinada lógica inscrita em um momento temporal e outros querendo contrariá-la e modificá-la para dar lugar ao aparecimento do imprevisto.
 
Toda eleição acontece numa conjuntura específica, definida por um conjunto determinado de acontecimentos que envolvem os atores (candidatos, partidos, movimentos, governos e eleitores), cenários, articulação dos acontecimentos com elementos estruturais de natureza econômica e social, com as instituições, cultura etc. Para efeitos de simplificação, grosso modo, as conjunturas eleitorais podem ser caracterizadas por duas tipologias: conjuntura de conservação e conjuntura de mudança.
 
As conjunturas de conservação são aquelas em que os vários elementos que a compõe apontam para tendências de manutenção do status quo. Conjunturas de mudança são aquelas em que os vários elementos que a compõe apontam para tendências de remoção do status quo, já que o ator principal de uma eleição, o eleitor, manifesta graus variados de descontentamento com a situação presente. A análise conjuntural prévia ao processo eleitoral é importantíssima para que os partidos e possíveis candidatos fixem seus objetivos.
 
A análise prévia às eleições municipais de São Paulo apontava claramente para uma conjuntura de mudança. Isto já remetia para a conclusão de que os candidatos que representassem a continuidade do atual conjunto de forças governantes enfrentariam dificuldades enormes para vencer, e que os candidatos que representassem a renovação e a mudança teriam mais facilidade de conquistar o triunfo. Esta conclusão deveria condicionar as escolhas dos candidatos pelos partidos. Mas nem sempre os partidos dimensionam corretamente seus objetivos ou decidem pelo que lhes é melhor.
Tendo por base esta análise, não surpreende o atual quadro eleitoral de São Paulo, definido pela liderança de Russomano, tendência de queda e alta rejeição de Serra e tendência de crescimento de Haddad e, em menor grau, de Chalita. Serra era o candidato mais identificado com o atual status quo ou com a administração de Kassab que o PSDB poderia ter escolhido. Se o partido tivesse analisado corretamente a conjuntura eleitoral poderia ter dimensionado melhor seus objetivos nesta eleição.
 
A provável derrota de Serra, com a possibilidade inclusive de não ir para o segundo turno, em boa medida independe das qualidades ou dos defeitos do candidato. Ela estava inscrita na conjuntura. Mas lembrando que a ação política se desenvolve também num terreno de imprevisibilidade, Serra e as forças políticas que o apóiam terão que desenvolver ações extraordinárias, com muita competência e virtude, para reverter o cenário que lhes é desfavorável.
 
Já Russomano, Haddad e Chalita, disputarão entre si qual representa melhor os anseios e os interesses do eleitorado que quer mudanças. Além das características e das virtudes de cada um dos candidatos, contarão como fatores importantes, a soma de forças políticas e sociais de apoio, o tempo de TV, a capacidade de mobilização de recursos financeiros e humanos (campanha de rua), a qualidade das propostas e dos programas e assim por diante.
 
Neste momento da campanha, as eleições ainda estão em aberto, mas com fortes inclinações para definição das tendências. Mantidas as atuais circunstâncias do jogo e salvo a intervenção de fatos ou assuntos surpreendentes, a estrada parece estar mais aplainada para Russomano e Haddad, não necessariamente nesta ordem.
 
Aldo Fornazieri – Cientista Político
No Advivo

Nenhum comentário:

Postar um comentário

”Sendo este um espaço democrático, os comentários aqui postados são de total responsabilidade dos seus emitentes, não representando necessariamente a opinião de seus editores. Nós, nos reservamos o direito de, dentro das limitações de tempo, resumir ou deletar os comentários que tiverem conteúdo contrário às normas éticas deste blog. Não será tolerado Insulto, difamação ou ataques pessoais. Os editores não se responsabilizam pelo conteúdo dos comentários dos leitores, mas adverte que, textos ofensivos à quem quer que seja, ou que contenham agressão, discriminação, palavrões, ou que de alguma forma incitem a violência, ou transgridam leis e normas vigentes no Brasil, serão excluídos.”