A natureza da ação política se define por alguns conteúdos, sendo que um
dos mais importantes é a imprevisibilidade. Fatos e ações imprevistos, e
até mesmo acasos, podem modificar o rumo dos acontecimentos num
determinado recorte temporal. Mas, ao mesmo tempo, a política se
desenvolve em contextos conjunturais e estruturais definidos que
condicionam e limitam as possibilidades e alternativas, conferindo
determinada lógica aos acontecimentos. Os sujeitos políticos ativos se
movimentam nesta ambigüidade da política: uns querendo reforçar
determinada lógica inscrita em um momento temporal e outros querendo
contrariá-la e modificá-la para dar lugar ao aparecimento do imprevisto.
Toda eleição acontece numa conjuntura específica, definida por um
conjunto determinado de acontecimentos que envolvem os atores
(candidatos, partidos, movimentos, governos e eleitores), cenários,
articulação dos acontecimentos com elementos estruturais de natureza
econômica e social, com as instituições, cultura etc. Para efeitos de
simplificação, grosso modo, as conjunturas eleitorais podem ser
caracterizadas por duas tipologias: conjuntura de conservação e
conjuntura de mudança.
As conjunturas de conservação são aquelas em que os vários elementos que
a compõe apontam para tendências de manutenção do status quo.
Conjunturas de mudança são aquelas em que os vários elementos que a
compõe apontam para tendências de remoção do status quo, já que o ator
principal de uma eleição, o eleitor, manifesta graus variados de
descontentamento com a situação presente. A análise conjuntural prévia
ao processo eleitoral é importantíssima para que os partidos e possíveis
candidatos fixem seus objetivos.
A análise prévia às eleições municipais de São Paulo apontava claramente
para uma conjuntura de mudança. Isto já remetia para a conclusão de que
os candidatos que representassem a continuidade do atual conjunto de
forças governantes enfrentariam dificuldades enormes para vencer, e que
os candidatos que representassem a renovação e a mudança teriam mais
facilidade de conquistar o triunfo. Esta conclusão deveria condicionar
as escolhas dos candidatos pelos partidos. Mas nem sempre os partidos
dimensionam corretamente seus objetivos ou decidem pelo que lhes é
melhor.
Tendo por base esta análise, não surpreende o atual quadro eleitoral de
São Paulo, definido pela liderança de Russomano, tendência de queda e
alta rejeição de Serra e tendência de crescimento de Haddad e, em menor
grau, de Chalita. Serra era o candidato mais identificado com o atual
status quo ou com a administração de Kassab que o PSDB poderia ter
escolhido. Se o partido tivesse analisado corretamente a conjuntura
eleitoral poderia ter dimensionado melhor seus objetivos nesta eleição.
A provável derrota de Serra, com a possibilidade inclusive de não ir
para o segundo turno, em boa medida independe das qualidades ou dos
defeitos do candidato. Ela estava inscrita na conjuntura. Mas lembrando
que a ação política se desenvolve também num terreno de
imprevisibilidade, Serra e as forças políticas que o apóiam terão que
desenvolver ações extraordinárias, com muita competência e virtude, para
reverter o cenário que lhes é desfavorável.
Já Russomano, Haddad e Chalita, disputarão entre si qual representa
melhor os anseios e os interesses do eleitorado que quer mudanças. Além
das características e das virtudes de cada um dos candidatos, contarão
como fatores importantes, a soma de forças políticas e sociais de apoio,
o tempo de TV, a capacidade de mobilização de recursos financeiros e
humanos (campanha de rua), a qualidade das propostas e dos programas e
assim por diante.
Neste momento da campanha, as eleições ainda estão em aberto, mas com
fortes inclinações para definição das tendências. Mantidas as atuais
circunstâncias do jogo e salvo a intervenção de fatos ou assuntos
surpreendentes, a estrada parece estar mais aplainada para Russomano e
Haddad, não necessariamente nesta ordem.

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