Ministros passam imagem de desequilíbrio, dizem colegas
Receio é que embate entre Barbosa e Lewandowski afete credibilidade do resultado
Integrantes do STF afirmam que relator e revisor do mensalão quase se agrediram fisicamente na quinta
Ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) dizem reservadamente que o
relator Joaquim Barbosa e o revisor Ricardo Lewandowski estão passando
uma imagem de "desequilíbrio emocional" que pode prejudicar a
credibilidade do resultado do julgamento do mensalão.
Os ministros ouvidos pela Folha defenderam que o presidente do STF,
Carlos Ayres Brito, converse com os dois para evitar a repetição do
"clima de duelo" entre eles, que pode consolidar uma visão de que o
tribunal está dividido em duas alas: uma pró e outra contra os réus.
"Esse ambiente só beneficia a defesa e pode pesar negativamente na
avaliação final que será feita do julgamento", disse reservadamente um
ministro, acrescentando que relator e revisor parecem estar
desequilibrados emocionalmente.
Outro ministro comentou que, se fosse um júri popular, os bate-bocas
protagonizados nas últimas sessões do STF já seriam motivo para um
"pedido de dissolução".
Em conversas reservadas, Ayres Britto tem dito que a situação está, aos
poucos, se normalizando e que vai atuar para apaziguar os ânimos no
Supremo.
O julgamento recomeça hoje, com a previsão de que o revisor Lewandowski
apresente seu voto sobre o primeiro item do capítulo 3 da ação penal,
que já foi apresentado por Joaquim Barbosa.
Na sessão da última quinta-feira, o relator votou pela condenação do
deputado João Paulo Cunha (PT-SP), do empresário Marcos Valério e de
seus dois ex-sócios no caso envolvendo a contratação de agência SMPB
pela Câmara dos Deputados.
Depois do revisor, votam os demais nove ministros, por ordem inversa de antiguidade no STF.
Mas havia ainda dúvidas sobre o roteiro a ser seguido.Ontem à noite
Ayres Britto conversaria com o relator. Havia a possibilidade de Barbosa
optar por encerrar a análise de todo o capítulo 3, que tem mais dois
itens sobre contratos de agências de Valério e o Banco do Brasil.
Agressão
A animosidade entre relator e revisor atingiu o ápice momentos antes do início da sessão de quinta, no cafezinho do Supremo.
Barbosa e Lewandowski discutiram por causa da decisão do relator de
fatiar seu voto, ou seja, votar em blocos, e não de uma vez só. O
revisor chegou a ameaçar renunciar ao cargo.
O tom da conversa foi tão agressivo que, segundo quem presenciou a cena, eles quase se agrediram fisicamente.
O embate se manteve no início da sessão, quando o revisor manifestou publicamente sua discordância.
Barbosa chegou a dizer que, se não seguisse aquele formato, havia o risco de o julgamento terminar sem sua presença - por conta de seus problemas na coluna, que tornariam difícil ele apresentar seu voto na totalidade.
Ao final da sessão, Lewandowski foi convencido pelos colegas a aceitar o formato.
Segundo os advogados da defesa, o relator é um voto certo pela
condenação da maior parte dos réus e estaria querendo "ganhar no grito"
as principais questões formais do julgamento.
Já o revisor tem assumido posição de "contraponto" a Barbosa. Um
interlocutor de Lewandowski disse, porém, que ele vai "surpreender".
Valdo Cruz | Matheus Leitão
Do Advivo

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