Capitaneados por Thomaz Bastos, cerca de 20 defensores de réus
levam petição a ministros para que Corte reconsidere decisão do processo
por partes e classificam metodologia de 'aberração'
Os advogados dos réus do mensalão insurgiram-se contra o fatiamento do
julgamento no Supremo Tribunal Federal. Em petição que será protocolada
nesta segunda-feira, 20, no gabinete do presidente da Corte, Ayres
Britto, os principais criminalistas constituídos pela defesa sustentam
que a fragmentação - proposta pelo ministro relator, Joaquim Barbosa -
seria uma "aberração" e configuraria "julgamento de exceção".
É a mais pesada reação dos bacharéis contra a decisão do Supremo de
dividir o julgamento da ação por capítulos, personagens e crimes, em vez
de cada ministro ler seu voto sobre o processo de uma só vez. Os
advogados chamam de "obscura" a ordem estabelecida, "que afronta o
postulado do devido processo legal, bem como os dispositivos do
Regimento Interno do STF".
Os advogados reivindicam esclarecimentos sobre o rito a ser adotado nas
próximas sessões plenárias, o roteiro de votação e o cálculo de penas,
no caso de condenações. "Reiterando sua preocupação com a realização de
um julgamento de exceção, pedem deferimento", diz o texto.
A ofensiva dos advogados, sem paralelo na história da Corte, vai
provocar impacto na cúpula do Supremo, pois coincide com a posição de
parte dos ministros. A exemplo dos defensores, esses integrantes do STF
se declaram confusos com os rumos do julgamento. "Nem sei quando vou
poder votar", admitiu o ministro Marco Aurélio Mello.
Cópias da petição também serão entregues a alguns ministros, além do
protocolo no gabinete de Ayres Britto. A estratégia é que um dos
magistrados se manifeste na sessão desta segunda sobre a manifestação
dos advogados.
A petição foi pensada e redigida pelo criminalista Márcio Thomaz Bastos,
ex-ministro da Justiça no governo Lula, defensor do executivo José
Roberto Salgado, do Banco Rural. Com 53 anos de experiência, Thomaz
Bastos declara "respeito e apreço" a todos os ministros. O texto contém
argumentos técnicos e trata a Corte com reverência. (O que será que o nobre repórter esperava, ofensas e palavras de baixo calão?).
Subscrevem o manifesto cerca de 20 advogados, como José Luís Oliveira
Lima (que defende o ex-ministro José Dirceu), Luiz Fernando Pacheco
(José Genoino, ex-presidente do PT), Arnaldo Malheiros Filho (Delúbio
Soares, ex-tesoureiro do PT) e Antônio Cláudio Mariz de Oliveira (Ayanna
Tenório, ex-dirigente do Rural).
A banca de advogados sustenta que o fatiamento sugerido por Barbosa toma
por princípio a versão acusatória, da Procuradoria-Geral da República,
ao seguir a ordem da denúncia, método "ao qual se opôs de imediato" o
revisor Ricardo Lewandowski.
Os advogados temem que, se prevalecer essa fórmula, ficará configurado
fato excepcional na história judiciária do País. "Pior do que aquilo que
o ministro Marco Aurélio denominou de 'voto capenga', por decidir, num
mesmo julgamento, sobre uma imputação e não outra, teremos aqui um voto
amputado, em que o ministro dá o veredito, mas não profere a sentença,
numa segmentação alienígena."
Na quinta-feira, 16, Barbosa votou pela condenação do deputado João
Paulo Cunha (PT-SP), do empresário Marcos Valério e de seus ex-sócios,
mas não aplicou pena. "Nenhum magistrado brasileiro diz 'condeno' sem
dizer a quê e a quanto", protestam os criminalistas.
Para os defensores, a metodologia que separa o julgamento em muitas
partes caracteriza distinção excepcional entre veredito e sentença. "A
prevalecer o fatiamento, haverá um juiz apto a proferir o primeiro
(veredito), mas não a segunda (sentença), o que, para nossa cultura
jurídica, é verdadeira aberração."
Os advogados pedem "acesso aos votos parciais do relator durante as
sessões e em momento precedente à sua leitura, nas mesmas condições em
que os recebe o procurador-geral da República" e mostram preocupação com
a situação de Cezar Peluso. "Não bastasse essa situação de exceção, que
desnatura a constitucionalidade do julgamento, temos a dificuldade da
conhecida proximidade da aposentadoria compulsória do ministro Cezar
Peluso (no dia 3), já que é inexorável a marcha do tempo."
Fausto Macedo e Felipe Recondo
Do O Estado de S.Paulo
Do Esquerdopata

Nenhum comentário:
Postar um comentário
”Sendo este um espaço democrático, os comentários aqui postados são de total responsabilidade dos seus emitentes, não representando necessariamente a opinião de seus editores. Nós, nos reservamos o direito de, dentro das limitações de tempo, resumir ou deletar os comentários que tiverem conteúdo contrário às normas éticas deste blog. Não será tolerado Insulto, difamação ou ataques pessoais. Os editores não se responsabilizam pelo conteúdo dos comentários dos leitores, mas adverte que, textos ofensivos à quem quer que seja, ou que contenham agressão, discriminação, palavrões, ou que de alguma forma incitem a violência, ou transgridam leis e normas vigentes no Brasil, serão excluídos.”