Jornalista
recebeu ameaças após revelar as apologias à violência policial feitas
pelo ex-chefe da Rota e candidato a vereador, comandante Telhada
Após escrever uma matéria sob o título “Ex-chefe da Rota vira político e prega a violência no Facebook”, o jornalista da Folha de S.Paulo
André Caramante passou a receber inúmeras ameaças dos seguidores da
página pessoal do ex-comandante da Rota e também candidato a vereador
pelo PSDB em São Paulo, Adriano Lopes Lucinda Telhada.
Telhada vem usando sua página no Facebook para fazer apologia à
violência policial nas periferias da capital. Como resultado, seus
seguidores têm deixado comentários do tipo: “bandido tem que ir pra
cova” ou então “vamos arrancar o pescoço desses vagabundos”. Uma das
“pérolas” de Telhada diz sem rodeios: “que chore a mãe do bandido,
porque hoje o bote é certo”.
Após Caramante ter feito a reportagem em forma de denúncia, os
seguidores de Telhada – dentre eles muitos policiais – começaram a
ameaçá-lo, através de comentários como “é isso aí Telhada, vamos
combater esses vagabundos” e “esse Caramante é mais um vagabundo.
Coronel, de olho nele”.
O Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo
protocolou um documento na terça-feira (17) para a Ouvidoria das
Polícias, a Corregedoria da Polícia Militar (PM) e órgãos públicos
estaduais, além dos diretórios municipal e estadual do PSDB e a
Secretaria dos Direitos Humanos da Presidência da República relatando o
problema.
Em um dos trechos do documento, o sindicato solicita às autoridades
resguardar a liberdade de imprensa e a integridade física dos
profissionais da área jornalística. O Sindicato denuncia também a grave
atitude do ex-comandante da Rota de incitar a violência física e moral
contra o repórter através das redes sociais.
Em entrevista ao Brasil de Fato, André Caramante diz que essas
ameaças não atingem somente a ele, mas sim toda a categoria de
profissionais que lutam para levar a verdade até as pessoas.
Brasil de Fato: Por que você optou em trabalhar com esses temas voltados à violência? Você já fazia esses trabalhos antes?
André Caramante: Sim. Eu trabalho aqui no grupo Folha há 12 anos.
Eu já trabalhei em todos os jornais da empresa Folha da Manhã. Comecei
no Notícias Populares, trabalhei no Jornal Agora São Paulo e hoje estou
aqui na Folha. Sempre atuei nessa área de cobertura da questão da
segurança pública.
Os jornalistas, em geral, costumam evitar esses temas. Qual a importância de dar essa visibilidade?
Eu acredito que a sociedade tem o direito de saber, por exemplo, que
essa questão da segurança pública tem que ser tratada de uma maneira
mais séria. As pessoas precisam passar a prestar atenção nisso, não
somente quando a violência atinge alguém da sua família, alguém próximo.
Qual é o maior risco para o jornalista quando faz denúncias contra a polícia como as que você fez?
Não sei ao certo quais são os maiores riscos, mas acredito que o
trabalho pode desagradar algumas pessoas, mas é um trabalho que precisa
ser feito. A gente tem hoje no estado de São Paulo uma guerra entre o
grupo criminoso PCC (Primeiro Comando da Capital) e a polícia, mas no
meio disso tudo a gente acaba se deparando com um alto índice de
letalidade policial, com policiais que também são mortos e, no meio
disso tudo, acontece uma ação e reação de ambos os lados em que as
pessoas vão morrendo. E a morte não é a solução para nada. Acredito que a
polícia eficaz só opta pela morte em últimas circunstâncias, não dá
para achar que isso tem que ser o padrão. Essa sim seria uma polícia de
excelência. Tem muita gente morta por policiais, principalmente
militares, em São Paulo. Ano passado, por exemplo, a gente fez uma
matéria aqui na Folha de S.Paulo que a cada cinco pessoas que foram
mortas na cidade de São Paulo em 2011, uma foi morta por um policial
militar. Então, são números que a gente precisa melhorar. A polícia não
tem o direito de matar, a não ser, claro, no estrito cumprimento do
dever legal. Entre 2005 e 2011, 3.921 pessoas foram mortas por PMs no
estado de São Paulo. Esses são números de guerra.
Sobre o ex-chefe da Rota, o Telhada, você esperava algum tipo de ameaça depois da matéria sobre as postagens dele no Facebook ?
A gente que trabalha nessa área de segurança pública tem os seus poréns,
mas isso é uma questão que o departamento jurídico da Folha de S.Paulo
já está tratando. A solidariedade que eu recebi dos companheiros de
profissão também foi algo muito importante. Não é uma ameaça, não é uma
violência somente contra o jornalista da Folha de S.Paulo, é uma ameaça
contra a imprensa livre. Nós temos leis nesse país de imprensa livre,
então, isso é uma reflexão maior do que um simples fato de um
ex-comandante da Rota ter dito o que ele disse. Existe uma categoria de
profissionais que lutam para levar a verdade até as pessoas. Ele atinge
não só a mim, mas também a todos que trabalham com a informação. Nós
temos o direito de informar as pessoas.
Ele pediu, inclusive, no texto que
publicou no Facebook, para que as pessoas ligassem no jornal denunciando
a sua matéria. Isso de fato aconteceu? Alguém chamou sua atenção por
causa disso?
Ao contrário, o jornal tem me dado apoio e está ao meu lado, isso é
importante. O jornal pede para que eu continue fazendo exatamente o
mesmo trabalho que eu já faço aqui há 12 anos. Isso é a maior resposta
para essa tentativa de mobilização que esse senhor tentou fazer. Meu
trabalho continuará sendo feito da mesma maneira. Hoje, por exemplo, na
cidade de São Paulo a gente teve, infelizmente, a morte de um
publicitário de 39 anos que, segundo alguns policiais militares, furou
uma blitz da PM, fugiu e acabou sendo morto no Alto de Pinheiros, que é
uma região de classe média alta. Então, os fatos por si só têm
demonstrado que essa violência, que essa coisa de atirar para depois
saber quem era a pessoa, está chegando em pessoas que até então não eram
atingidas por essa violência. Isso é para gente refletir bastante.
Qual será seu posicionamento depois das ameaças? Não tem medo de perseguições?
Eu sou repórter há um bom tempo e faço isso para ganhar a vida. Eu não
tenho o porquê mudar, eu não fiz nada de errado, além de noticiar o
fato. Aquilo que aconteceu e que eu escrevi sobre as publicações do
ex-comandante da Rota em sua página pessoal no Facebook, está lá para
todo mundo comprovar e ler. Então, não tem o que mudar em nada.

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